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Filmes

Crítica: O Retorno de Ben – Um típico drama familiar

Um filme simples que não foge dos padrões, mas cumpre suas propostas.


21 de março de 2019 - 03:19 - Flávio Pizzol

Segundo os dados divulgados pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime em 2018, 5,6% da população mundial usa (ou usou) alguma droga ilícita, no mínimo, uma vez no ano. Esse número pode ser pequeno dentro de certas óticas numéricas, mas acaba ganhando novas perspectivas quando se nota que tal porcentagem equivale ao assustador número de 275 milhões de pessoas. Mas, calma… Pode ficar ficar tranquilo que a ideia desse texto não é emular uma reportagem jornalística ou julgar qualquer decisão que faça parte dessa estatística. Eu só comecei a crítica com esses dados pra mostrar que, salvando as devidas proporções e especificidades de cada história, O Retorno de Ben pode ser um drama familiar bastante comum.

E, no final das contas, é exatamente isso que o filme é: um típico e nada inovador drama – meio novelesco – sobre um jovem dependente em drogas e a relação com sua família. Aqui o gatilho, como o próprio nome deixa claro, é a volta do personagem-título para casa durante o Natal após alguns meses afastado para se curar um vício que deixou para trás diversos rastros envolvendo criminalidade, morte e culpa. E são justamente esses fantasmas do passado que voltam para assombrá-lo quando sua mãe permite sua estadia.

O roteiro, cuja premissa é de fato muito próxima do recente e decepcionante Querido Menino, aceita sem nenhuma vergonha essa proposta de ser um drama familiar comum. Isso significa que, ao contrário do que acontece na produção que tem Timothée Chalamet como protagonista, O Retorno de Ben não tenta reinventar ou criar uma grande experiência sensorial. O texto de Peter Hedges (Um Grande Garoto) é direto, linear e conciso, apostando mais na possível proximidade com o espectador do que em alguma estrutura narrativa fora dos padrões. Uma decisão que funciona pelo lado da forte conexão emocional com os personagens, mas que escorrega, por exemplo, na maneira conservadora e clichê como constrói alguns ápices vividos pelos protagonistas. Nesses momentos, é normal que você se pegue clamando por um meio-termo entre essas propostas.

Ainda assim, o desenrolar da história funciona relativamente bem dentro dessa ideia de criar vínculos através da verdade em torno daquela situação. Quem já viveu ou conhece alguém que viveu algo parecido vai se identificar imediatamente, sendo que esse apelo é o fator que acaba salvando o longa em várias das suas passagens mais arrastadas. O grande problema do longa acaba recaindo sobre algumas subtramas que nascem e morrem sem nenhuma profundidade, sendo que mereciam espaço por estarem relacionadas tanto a pequenas reviravoltas da trama, quanto às decisões que geram ao final do protagonista. Isso não quer dizer que as atitudes que preenchem esses momentos são incompreensíveis ou algo assim, mas a escolha pelo desenvolvimento mais raso exclui algumas discussões morais (principalmente, no caso das mães) que poderiam dar muito mais fôlego a um filme como O Retorno de Ben.

A direção que também fica a cargo do próprio Peter Hedges (que ainda acumula a função de pai do ator principal) mantém os passos no mesmos caminho e joga no seguro. No entanto, aqui a decisão parece ser um acerto com a maiúsculo, já que todas as escolhas estéticas trabalham com a honestidade e conduzem o filme para um ótimo terceiro ato. O destaque fica pra construção do senso de incerteza em torno do que motivou a volta de Ben, pra entrega sentimental que comanda todo o relacionamento da mãe com seu filho e pro clímax recheado de tensão que retira o melhor das atuações de Lucas Hedges (Três Anúncios para um Crime) e Julia Roberts (Extraordinário). No final das contas, eles deixam claro que carregam o filme nas costas com o peso emocional que injetam nas sequências finais.

Hedges escancara seu talento promissor mais uma vez, porém, ao mesmo tempo, mostra que precisa quebrar algumas limitações. Em palavras mais claras: ele repete os acertos de Boy Erased e faz um ótimo trabalho nos momentos contidos (que, por sorte, tomam conta do terceiro ato…), onde trabalha mais com os olhos e o corpo, mas escorrega na hora de alcançar seu ápice textual. Falta aquele momento explosivo durante um embate de ideias e uma boa parte da cupa acaba ficando com ele, porque o roteiro de O Retorno de Ben entrega essa sequência na transição entre o segundo e o terceiro ato.

A parte boa é que o outro lado desse embate de ideias é composto por uma Julia Roberts que nunca deixa a peteca cair. Ela constrói uma mãe real que, mesmo se dividindo entre erros e acertos, nunca desiste do filho e investe tudo que precisar nessa relação. Uma relação que, nesse caso, parece ganhar força na relação entre pai e filho nos bastidores, passar pelo talento de Roberts e extravasar na tela com uma potência que também salva o longa. Isso porque o amor e a determinação de Holly são tão grandes que superam algumas ações questionáveis da personagem, contagiam o espectador e quase obriga o público a torcer pelo sucesso dele e, automaticamente, do filho.

Pra completar o show que marca o retorno de Ben, o incrível Courtney B. Vance (American Crime Story) e a também promissora Kathryn Newton (Big Little Lies) ocupam os papeis de outras peças importantes da família. Ambos tem alguns momentos de destaque no terceiro ato, mas acabam reduzidos a estereótipos graças a já citada falta de profundidade do texto em algumas subtramas. É verdade que os pilares da trama são Holly e Ben, mas é um pouco chato sentir o ressentimento ficar no ar sem receber atenção. No entanto, ao mesmo tempo, eu entendo que essa é uma escolha que Peter Hedges carrega durante toda a projeção com o objetivo de manter o foco.

Diante disso, por mais que tal vazio se junte com outras possíveis falhas de roteiro, vale concluir que o filme supera a maior parte dos vacilos através da força dramática do texto (que recai muitas vezes numa vibe teatral muito interessante), de uma direção que entende o valor da simplicidade quando a ideia é se aproximar da família e de algumas atuações que merecem atenção. Não é nada mais do que um típico drama familiar, mas também não tenta ser outra coisa. A verdade é que, muitas vezes, pode ser melhor fazer o feijão com arroz de um jeito que não transforme a saída do cinema numa grande decepção do que mirar numa produção artística e pretensiosa sem sucesso. O Retorno de Ben erra um pouquinho, mas entende o seu lugar, emociona o suficiente e compensa a viagem.