AODISSEIA
Filmes

Crítica: Querido Menino é emotivo, porém frustante

Sem foco, o longa se perde entre linhas temporais e subtramas vazias...


14 de janeiro de 2019 - 11:41 - Flávio Pizzol

Devo começar esse texto dizendo que minhas expectativas para esse filme estavam bem altas, já que eu tenho ouvido comentários sobre ele há algum tempo. Afinal de contas, estamos falando de uma produção independente sobre vício em drogas que seria estrelada pelo jovem ator que tinha roubado todos os holofotes de Hollywood após Me Chame pelo seu Nome. E, gostando ou não, Querido Menino é o tipo de coisa que acaba atraindo a atenção das pessoas, seja por seu elenco de destaque, pela temática ou pela possibilidade de fazer chorar. Eu, como qualquer pessoa normal, estava surfando nessa onda até colidir num longa que escolhe ser experimental sem necessidade e frustra muito mais do que emociona.

A história acompanha um garoto que aos poucos vai se afundando no mundo das drogas, enquanto seu pai luta pela vida dele, juntando informações e tentando curá-lo de todas as maneiras possíveis. É uma trama simples, básica e bastante frequente na história do cinema, mas também é tão algo comum no mundo que pode acabar cativando por proximidade com algo que você ou alguma pessoa próxima viveu. Logo, estamos falando sobre uma proposta que, mesmo sendo repetitiva, tinha todo o potencial do mundo pra emocionar e garantir seu lugar dentro do gênero.

Entretanto, para começo de conversa, o filme sofre com uma direção que não consegue construir essa relação de proximidade entre o espectador e seus protagonistas como deveria. O belga Felix van Groeningen (do ótimo Alabama Monroe) faz um bom trabalho quando o assunto são os ângulos e enquadramentos, mas não explora os pequenos diferenciais oferecidos pela trama de Querido Menino, perde o foco em diversos momentos da narrativa e não consegue injetar a energia que o longa precisaria pra atingir seus picos emocionais. E, mais do que isso, sua aparente dificuldade na seleção do que mostrar ou não também dificulta a compreensão dos objetivos do longa.

Eu não consigo entender, por exemplo, os motivos que fazem o longa “gastar” tanto tempo com a construção da relação entre pai e filho pra em certo momento da trama simplesmente levar tudo pro núcleo da mãe de um jeito repentino e depois voltar pro lado paterno sem a mesma força. Essa é só uma das muitas transições e escolhas que não fazem sentido narrativamente, no entanto a pior parte é ver algumas delas chegarem ao ponto de desperdiçar cenas de impacto que, mesmo sendo apelativas, cairiam como uma luva nesse tipo de filme. E, ainda que seja difícil falar sobre isso sem dar algum spoiler, vou deixar um questionamento que vai fazer sentido pra quem assistir Querido Menino: num longa como esse, você escolheria mostrar uma perseguição de carro que não resulta em nada ou choque de ver outra pessoa tendo uma overdose?

Outra coisa que incomoda um bocado e acaba provando o quanto o filme se baseia em escolhas equivocadas é que, individualmente, ele tem alguns momentos muito bons. A questão aqui é que o roteiro – escrito pelo próprio diretor ao lado Luke Davies (Lion: Uma Jornada Para Casa) – e a péssima edição insistem em usar os flashbacks de maneira totalmente aleatória para criar uma espécie de experiência onde as mudanças temporais significariam algo nas entrelinhas. O problema é que isso também cria um certo afastamento entre o público e os personagens, já que as constantes mudanças de idade e a ausência de “cartas sendo colocadas na mesa” com honestidade dificultam tal conexão. E isso, na minha opinião, é um pecado mortal quando se trata de produções que dependem tanto assim da emoção gerada pela jornada de seus personagens, sejam elas sobre decadência ou superação.

O resultado dessa bagunça gerada por um texto bagunçado, uma edição que divaga a maior parte do tempo e uma direção sem pulso firme acaba sendo um grande palco de contradições. Em outras palavras, Querido Menino é uma obra vaga que apresenta conceitos interessantes sem nunca executá-los da maneira mais poderosa possível. E eu lamento dizer que a trilha sonora talvez seja o melhor exemplo aqui, já que as ótimas escolhas musicais sofrem com a constante vontade que a produção tem de usar todas erroneamente. Elas funcionariam perfeitamente como uma playlist do Spotify, mas aqui acabam posicionadas de um jeito meio avulso e sempre (SEM-PRE) dão o tom para a criação de um “clipe musical” cuja a sobreposição de imagens busca apresentar alguma evolução da trama. Um recurso comum que – admito – até poderia ter algum valor emocional, caso não fosse realizado de maneira solta e repetido exaustivamente no curto período de duas horas.

E, pra terminar, o elenco também segue a risca essa ideia de ser o mais contraditório possível, já que desperdiça o talento de grandes nomes da indústria em uma história que simplesmente não tem fôlego. Esse é exatamente o caso do Steve Carell (A Grande Aposta): um ator que possui um carisma absurdo, faz drama muito bem e, nesse caso, esbanja força de vontade pra fazer o seu papel de pai funcionar, mas que, ao mesmo tempo, vê todo o seu esforço esbarrar num material sem foco e ânimo. E é verdade que todo o elenco tem pelo menos um grande momento dramático, entretanto os problemas de ritmo e construção narrativa se espalham por todos eles e sabotam um filme que tinha tudo pra ser salvo justamente pelas atuações.

A única exceção dessa regra fica sendo o superestimado Timothée Chalamet (Lady Bird: A Hora de Voar). Nesse caso, seu personagem até tem momentos realmente fortes pra se destacar, mas o trabalho do garoto afasta ainda mais o espectador da persona em queda livre de Nic Sheff. Ao contrário de Carell, ele não tem carisma nenhum e parece estar o tempo todo cansado, desanimado e sem vontade de estar ali. Inclusive, essa é uma constante que também se repete nos poucos momentos felizes do personagem, impedindo, por exemplo, que o espectador consiga torcer ou sentir o mínimo de pena dele. E considerando isso, sou obrigado a concluir que falta Chalamet aprender (e, como não acontece aqui, um diretor fazer seu trabalho de conduzir o ator) que aquelas características que funcionavam tão bem na hora de representar o tédio de Elio em Call Me By Your Name não vão necessariamente surtir o mesmo resultado todas as vezes.

Pra sorte do público e do próprio longa, o terceiro ato de Querido Menino abandona os flashbacks aleatórios (de maneira tão repentina quanto começa), assume uma cronologia mais clássica e, finalmente, entrega momentos de emoção que fazem jus ao que havia sido prometido. Infelizmente, por outro lado, esse pequeno momento de sucesso não chega nem perto de salvar um filme sem foco, força ou a mínima vontade de emocionar de verdade. E sim, eu entendo que a ideia era fazer uma experiência mais “sensorial”, no entanto Querido Menino é o exato tipo de filme que precisaria de alguns pontos de narrativa mais convencional (junto com uma direção mais firme, é claro) pra se conectar com o espectador e, quem sabe, ganhar algumas lágrimas ali naqueles últimos momentos onde Steve e Timothée enfim brilham. Eu garanto que choraria, se a construção do todo fosse mais bem resolvida…