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Séries

Crítica: American Crime Story – The People v O.J. Simpson

Muitos mais que um julgamento

8 de abril de 2016 - 11:00 - Tiago Soares

Não é segredo para ninguém (talvez seja, já que não digo isso em voz alta) que sou fã de Ryan Murphy, o diretor/produtor/roteirista é uma das minhas personas favoritas, tanto exercendo todas essas funções, como apoiador de algumas causas importantes. O mesmo trouxe Glee (2009/2015) para a TV, que teve um bom início com algumas perdas no decorrer dos anos, além de American Horror Story (2011/presente) uma de minhas séries favoritas e vencedora de vários Emmy’s, The Normal Heart (2014) um dos melhores filmes do ano, feito pra TV (HBO) e mais atualmente Scream Queens (2015/presente), um dos maiores absurdos que vi, positivamente claro. Agora Murphy resolve ser apenas o showrunner, trabalhando bem menos em American Crime Story, a série é uma das suas novas antologias (um arco diferente e fechado para cada temporada) e irá focar em casos reais da história americana. O escolhido da vez foi o caso The People vs O.J Simpson subtítulo da série, baseada no livro de Jeffrey Toobin, The Run of His Life: The People v. O. J. Simpson. A série é focada no julgamento de Orenthal James Simpson (Cuba Gooding Jr), ex-jogador de futebol americano, acusado em 1994 de assassinar a esposa, Nicole Brown, e o amigo Ronald Goldman. Contada através da perspectiva dos advogados que conduziram o caso, ACS explora os acordos feitos de maneira informal e as manobras políticas conduzidas por ambos os lados envolvidos. Além de Murphy, a série é desenvolvida por Scott Alexander e Larry Karaszewski (ambos escreveram e dirigiram a maioria dos episódios), Nina Jacobson, Brad Simpson e a mente criativa ao lado de Ryan em todos os projetos (um Jonathan da família Nolan) Brad Falchuk. Com tantas mãos na série, isso pode se tornar um defeito já que são muitas ideias a por em prática, mas acaba sendo uma qualidade, já que a maioria serve apenas como consultor, deixando tudo a cargo de Scott e Larry, ou quase tudo. Com 10 episódios para retratar uma história que mudou os rumos da justiça e porque não da TV americana ( já que é o primeiro julgamento transmitido ao vivo), a série acaba se tornando perfeita, já que não há fillers. O caso se desenrola de forma natural com o povo acompanhando tudo de perto, sendo um importante personagem desse julgamento.

Além do fator midiático, afinal Ryan e equipe fazem de tudo um grande show, a questão racial é outro fator muito importante abordado. A série surpreendentemente começa com o caso de Roadney King, um taxista afro-americano que foi violentamente espancado pela polícia de Los Angeles, o mesmo foi detido sob a acusação de dirigir em alta velocidade na noite de 3 de março de 1991. O julgamento e absolvição dos agentes policiais envolvidos provocou os violentos tumultos de Los Angeles em 1992. A cena, registrada em vídeo por uma testemunha, correu o mundo. A absolvição dos policiais, em 29 de abril de 1992, por um júri formado por dez brancos, um negro e um asiático, provocou uma das maiores ondas de violência da história da Califórnia. Foram três dias de confrontos, incêndios, saques, depredações e uma onda de crimes que causaram 58 mortes, deixaram mais de 2800 feridos, destruíram 3.100 estabelecimentos comerciais e causaram prejuízos estimados em mais de 1 bilhão de dólares. Dois anos mais tarde essa questão volta à tona com o caso de O.J, ele matou Nicole e Ronald por ciúmes ou está sendo mais uma vítima de preconceito racial?

  • A Defesa

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Conhecido como o Dream Team (Time dos Sonhos), a defesa de O.J tinha todos os elementos para livrar qualquer pessoa de um assassinato que tinha apenas um suspeito aparente, o próprio O.J Simpson (Cuba Gooding Jr. em seu melhor trabalho em anos). Começando por Robert Kardashian (David Shimmer, de volta a TV em ótima forma), amigo pessoal de O.J, ele é a emoção da defesa e faz o viés de público, afinal, como seu amigo há mais de 20 anos pode ter retalhado duas pessoas de uma forma tão cruel? John Travolta faz Robert Shapiro (também um dos produtores da série) advogado principal do caso, Shapiro faz o papel do “homem show” sempre querendo dar coletivas e aparecendo na mídia, o advogado é conhecido por fazer acordos, algo impensável em casos desse tipo e Travolta faz um bom trabalho, sempre contando com a ajuda de F. Lee Bailey (Nathan Lane) sendo o conselheiro do grupo, já que é o mais velho e com mais experiência. Mas quem rouba a cena é o único negro da defesa Johnnie Cochran (Courtney B. Vance), assim que entra no time, vira o jogo que parecia perdido para O.J, Courtney que deve ser, repito, DEVE ser indicado ao Emmy, traz questões raciais importantes a serem discutidas, o que faz da série atual, mesmo se passando nos anos 90. Alías outro fator a se ressaltar, a ambientação, figurino e fotografia da série é toda tirada dos anos 90, tempo tão próximo, mas tão distante em muitos termos, a fidelidade em relação a aparência dos personagens da série com os reais assusta, mostrando que houve um trabalho minuncioso em detalhes.

  • A Acusação

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No nomeado “julgamento do século”, presidido pelo juiz Lance Ito (Kenneth Choi, ótimo no papel), ser a acusação de alguém tão carismático como O.J é algo que deve ser encarado como um martírio, e é o que de fato acontece com a promotoria. Escolher quem iria representar Christopher Darden e Marcia Clark, ambos firmes em suas decisões, não foi tarefa fácil, a sorte é que Ryan tem um elenco excelente em mãos e um roteiro incrível. O primeiro vivido por Sterling K. Brown, único negro na promotoria (de um júri formado em sua maioria por negros), sofre de todas as formas por estar do lado errado, segundo todos os negros envolvidos. O ator vai bem, e tem uma química perfeita com Sarah Paulson que tem a melhor atuação de sua carreira, e apesar de sabermos o final disso, nos pegamos torcendo por ela. A atriz brilha principalmente quando focamos mais no julgamento, Sarah caminha entre a vulnerabilidade quando tem que ser a mãe presente e a força quando está atuando como promotora principal do caso. Marcia Clark tem um episódio (6) focado nela, dirigido por Ryan Muphy, apontado por muitos como uma indicação e vitória certa ao primeiro Emmy de Sarah. O que seria justíssimo, pois tudo que Marcia Clark passou durante o julgamento, principalmente em relação a mídia, Sarah conseguiu mostrar e emocionar.

THE PEOPLE v. O.J. SIMPSON: AMERICAN CRIME STORY "Conspiracy Theories" Episode 107 (Airs Tuesday, March 15, 10:00 pm/ep) -- Pictured: (l-r) Sterling K. Brown as Christopher Darden, Cuba Gooding, Jr. as O.J. Simpson. CR: Ray Mickshaw/FX

Se é uma coisa que os americanos conseguem fazer com perfeição é obras de ficção sobre julgamentos e em nenhum momento, American Crime Story fica atrás como produção de TV. Temos toda a tensão que um julgamento envolve, cenas do passado mostradas para nos situar em 1994, a cena da fuga de O.J, a famosa provação das luvas usadas no assassinato, o descaso com Ronald Goldman, que também foi morto, mas todos se voltam apenas para O.J e Nicole, tudo isso, está presente com toda a carga emocional de uma série baseada em fatos. O penúltimo episódio se torna essencial graças a uma revelação digna de novela mexicana envolvendo o detetive Mark Furhman (Steven Pasquale), é claro que há uma dramatização dos fatos para que sejam melhor apresentados, afinal é uma obra de ficção, mas nada é feito de forma exagerada. Todos os lados são apresentados, para que você veja o que cada um perdeu ou ganhou com esse julgamento: defesa, acusação, júri, juiz e população.

No fim o que menos importa é o julgamento, ou o veredito, mas como a vida de cada um mudou durante e após o caso, temos um breve resumo do que ocorreu com os envolvidos direta ou indiretamente. Apesar do veredito, foi um grande vitória para os negros dos EUA, mas não para todos.


Obs 1: O.J. Simpson está em alta, além da série de ficção, o mesmo ganhará uma série documental de 5 episódios chamada O.J.:Made in America, que estreará no dia 11 de junho nos EUA.

Obs 2: A segunda temporada está em desenvolvimento, e focará no Furacão Katrina e suas consequências. Murphy explicou que o plano de trabalho é “seguir um grupo de seis a oito pessoas na tentativa de examinar todos os lados da tragédia, desde o Superdome em New Orleans até o hospital daqueles que foram colocados em ônibus e deixados com bebês que tiveram de vestir sacos de lixo por vários dias”. A produção da segunda temporada é prevista para se iniciar no outono de 2016.