AODISSEIA
Filmes

Crítica: Três Anúncios para um Crime

A inesperada e imprevisível obra-prima de Martin McDonagh

16 de Fevereiro de 2018 - 21:00 - Flávio Pizzol

O luto, a possibilidade da morte e as crenças são algumas das muitas coisas que podem direcionar as escolhas dos seres humanos para o bem ou para o mal. Vencedor de diversos prêmios nas últimas semanas e fortíssimo candidato ao Oscar, Três Anúncios para um Crime passa por algumas dessas ideias de forma inesperada e deliciosamente imprevisível, configurando-se ainda como o melhor trabalho da curta – porém ótima – carreira do diretor, dramaturgo e roteirista britânico Martin McDonagh (Sete Psicopatas e um Shih Tzu).

A trama acompanha uma mãe de família solitária e desamparada, Mildred, que decide gastar todas as suas economias em três outdoors cujas mensagens acusam a polícia local de negligenciar o estupro, seguido pelo assassinato, da sua filha. Suas escolhas despertam a ira de um policial racista, afetam os últimos dias de vida do xerife e desencadeiam diversas reações – tanto positivas, quanto negativas – que vão mudar o rumo da pequena cidade onde vivem.

O roteiro de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (só porque gosto muito do nome original) pode ser classificado como inesperado por por caminhar na total contramão do que McDonagh vinha fazendo em sua cinebiografia, incluindo no meu favorito Na Mira do Chefe. Por mais que todos seus longas flertem com personagens melancólicos/frustrados e girem em torno de crimes, sua última obra substitui o humor negro que ocupava boa parte dos textos anteriores por um desenvolvimento muito mais dramático, pesado e sombrio. Alguns diálogos ainda tentam – e conseguem – brincar com aquela crítica aguda que arranca risadas nervosas do espectador, mas o resultado de Três Anúncios para um Crime é uma produção muito mais internalizada e madura.

Ao mesmo tempo, a imprevisibilidade chama a atenção por deixar o público completamente cego acerca do futuro da trama. Não se preocupe caso você demore as duas horas de projeção para entender exatamente onde o filme quer chegar, ainda que o roteiro tenha plena certeza da jornada em que pretende nos lançar. Estruturada através de um jogo de causa e consequência que cerca todos que vivem na cidade, a trama funciona como um estudo de personagens que precisam conviver com o peso de suas tristezas, decisões e ideias pré-concebidas.

Ainda que o título em português (Três Anúncios para um Crime) e o desenvolvimento da história deixem subentendido que estamos encarando um longa sobre a vingança de Mildred ou o tal anúncio antecipado de um crime, a verdade é que a obra de Martin McDonagh quer refletir a respeito do que escolhemos ou não fazer. É sobre pessoas que escolhem ser racistas por causa das raízes familiares, morrer antes de encarar o sofrimento, colocar fogo na delegacia sem averiguar os culpados, salvar justamente o caso que estava infernizando sua vida e por aí vai. E, mergulhando um pouco mais no universo temático do roteiro, isso pode ser facilmente comprovado pelo fato do final decidir não mostrar o ato da vingança em si, mas cortar quando ambos os personagens precisam tomar uma decisão durante o caminho.

Essa é apenas uma das decisões acertadas de um McDonagh mais maduro e preciso do que nunca. É incrível perceber como o diretor abre mão tanto dos banhos de sangue que marcavam seus trabalhos anteriores, quanto de uma câmera mais presente em cena para deixar que a trama caminhe com sua própria fluidez. Com exceção de um plano-sequência que escancara suas influências violentas na coreografia, o diretor escolhe ficar escondido na maior parte do tempo para que o roteiro e as atuações ocupem o destaque que merecem.

E falando nelas, é impossível contestar que as atuações primorosas de Frances McDormand (Fargo), Sam Rockwell (Lunar) e Woody Harrelson (Planeta dos Macacos: A Guerra) são a cereja deste bolo chamado Três Anúncios para um Crime. Eles são os fios condutores que guiam o público e, contando com a facilidade de interpretar personagens cheios de profundidade, carregam a emoção do filme com um genialidade que merece todos os prêmios desse começo de temporada. A importância narrativa de Harrelson pode até parecer um tanto quanto ser inferior ao desprezo de Mildred pelo mundo ao seu redor ou ao arco simplesmente perfeito de Sam, mas a realidade é que todos tem momentos destruidores que os colocam em pé de igualdade.

Contando ainda com uma trilha típica de faroestes revisionistas e uma fotografia que capta perfeitamente a desesperança dos personagens, Três Anúncios para um Crime encerra-se como um longa maduro, intenso e melancólico que se transforma na melhor experiência cinematográfica que eu tive até então nesse 2018 lotado de grandes estreias. É uma produção completa que foge das expectativas geradas pelo diretor e necessita de algum tempo para ser digerida, porém é indiscutivelmente – me desculpem o linguajar – um puta filme que não merece ser esquecido pelo tempo.