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Contemplativo e silencioso, Dias é um belíssimo conto sobre a vida com todas as suas banalidades e encontros


Eu já falei durante a cobertura da Mostra que o cinema asiático possui uma relação muito amorosa com os “filmes de cotidiano”. Disse isso justamente porque o festival possui alguns exemplares, incluindo Apenas Mortais e Mães de Verdade que possuem crítica aqui. Dias também entra nessa categoria, mas, ao contrário dos citados, trabalha com uma experiência bem menos tradicional.

A trama é centrada em dois homens sem nada em comum. Um deles, Kang, mora em uma casa grande, acompanhando o mundo pela janela de vidro até sentir uma estranha dor no pescoço. O outro, Non, vive em um minúsculo apartamento, preparando pratos típicos de sua aldeia. Tudo parece mudar quando eles se encontram num quarto de hotel e constroem uma ligação verdadeira antes de voltar para suas respectivas rotinas.

Vale notar, dentro dessa dinâmica pouco padronizada de Dias, que os nomes dos personagens só ganham algum destaque na sinopse e nos créditos, deixando claro que isso não é exatamente importante pra narrativa. Assim como os diálogos e tantos outros detalhes (incluindo as legendas) que Tsai Ming-Liang (Cães Errantes) escolhe não utilizar.

O aviso sobre as legendas me assustou no começo da projeção, mas a ausência (quase constante) que mais me chamou atenção foi a dos nomes mesmo. Uma escolha que poderia sugerir uma certa falta de identidade, porém, na minha humilde opinião, está mais para um recado: esses homens podem ser qualquer pessoa. Eles podem ser, literalmente, qualquer pessoa que vive perto de você.

Dias

Eles fazem parte da multidão. Não é à toa que boa parte dos planos abertos acompanham os protagonistas caminhando pela cidade, solitários ou misturados com centenas de habitantes locais, seguindo sua rotina de uma maneira que chega perto de ser irreconhecível. Mesmo em classes e situações muito diferentes, Kang e Non são invisíveis.

Já quando Tsai decide explorar a intimidade dos protagonistas, eu penso que Dias ganha contornos de um filme sobre a vida como ela é (um abraço para o gênio Nelson Rodrigues). Uma vida que passa calmamente, acontecimento após acontecimento, de forma simples, singela e até mesmo tediosa, afinal grandes acontecimentos são como joias raras.

Nesses momentos (que são meus preferidos), o diretor investe em longos planos fixos para acompanhar o cotidiano de seus personagens. Ou seja: a câmera fica parada e o personagem cumpre seu objetivo, seja ele qual for. O máximo que acontece é vermos as mudanças de planos serem fornecidas pela essa movimentação trivial e nada encenada de ambos.

É claro que a representação de uma vida comum, marcada por tanta morosidade, resulta num filme lento, porém nunca arrastado. E eu digo isso porque ele nunca se desenvolve numa velocidade muito abaixo do esperado. Pelo contrário, o ritmo de Dias faz pleno sentido na hora de demonstrar esse dia-a-dia restrito a trabalhar, caminhar, voltar pra casa, cozinhar, comer e dormir. Sempre despercebidos, sem chamar atenção, independente da conta bancária.

Dias

Além disso, o ritmo deixa o espectador equiparado aos personagens em relação ao tédio, a simplicidade e as frustrações. Você sente a solidão dos personagens na pele e isso dá força para o tal encontro entre os personagens, apesar deste ser, à princípio, um acordo de trabalho tão trivial quanto tudo que eles vivem nos seus dias normais.

É uma experiência incômoda acompanhar isso por 127 minutos, mas nada muito diferente das experiências vividas por Kang e Non. Não existe uma felicidade plena e escancarada em suas rotinas e você, como espectador imerso, precisa sentir isso para capturar o valor daquela noite filmada com extrema sensibilidade e doçura por Tsai.

Essa conexão com os personagens é o que nos permite entender que os dias continuam depois do encontro, mas uma simples lembrança, na figura de uma caixinha de música aparentemente normal, pode carregar sua mente para outra dimensão. Pode te colocar lá outra vez, bloqueando o tédio e dando uma nova movimentação ao mundo.

Talvez muita gente não sinta o mesmo e até ache Dias uma obra vazia, porém é nesse vazio que o filme oferece suas reflexões sobre a vida. Pensamentos que, de certa forma, me pareceram estar muito bem conectados a esse 2020 onde qualquer mínimo encontro pode representar uma mudança profunda.


Dias foi conferido nas cabines de imprensa da Mostra de São Paulo 2020


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Dias (2020)

8

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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