AODISSEIA
Filmes

Critica: O Quarto de Jack


18 de fevereiro de 2016 - 14:00 - Flávio Pizzol

Impossível não sentir nada


141739Fazia muito tempo que um filme não mexia comigo dessa maneira, chegando ao ponto de fazer um post no Facebook para liberar tudo o que estava sentindo. Depois de vários dias, eu ainda não sei explicar exatamente o que senti, mas posso garantir duas coisas: que O Quarto de Jack merecia mais indicações ao Oscar do que conseguiu e que você não vai conseguir terminar o filme sem sentir nada.

O filme, baseado em um best-seller de Emma Donoghue, conta a história de uma mulher e seu filho (o Jack do título) que precisam lidar com o confinamento de mais de cinco anos em um quarto minúsculo, cuja a única visão externa vem de uma claraboia no teto, e a consequente descoberta de uma nova vida depois que eles são libertados.

Para contar essa história, o roteiro, que também foi escrito pela própria Emma, se divide em dois atos particularmente distintos e muito bem executados em todos os aspectos. O primeiro deles trata justamente do confinamento dos protagonistas e das atitudes drásticas que são tomadas quando o ser humano atinge o ponto de esgotamento, mas a sua grande força está na construção do amor entre mãe e filho e em como ela, no melhor estilo A Vida é Bela, cria outra realidade para que a criança não sofra com aquela situação.

A relação dos dois é muito bem construída pelos diálogos, a visão de mundo da criança é ganha certo destaque em algumas narrações in off reveladores e o diretor Lenny Abrahamson conduz tudo isso de maneira brilhante, dividindo seu trabalho entre a claustrofobia dos planos detalhes e a emoção contida em cada close. Mesmo assim, o destaque fica todo com a cena de transição, onde a câmera consegue transmitir uma tensão quase insuportável e chega perto de transformar o longa em um filme de terror.

A partir daí, o filme muda completamente de cara, fica um pouco mais lento e ganha muito apelo dramático quando começa a falar sobre perda, luto e descoberta com uma sutileza raramente vista no cinema. O roteiro se divide entre as dificuldades que o menino tem para se acostumar com essa nova realidade que não é limitada por paredes ou sonhos, enquanto a mãe precisa lidar com seus arrependimentos, o sofrimento de todo o tempo que ela perdeu e as consequências de uma depressão profunda que é apresentada pelos olhos de Jack.

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O roteiro consegue dividir muito bem o tempo de tela para explorar os dois lados da história com eficiência e, mais uma vez, o diretor faz um trabalho de extrema competência na tradução visual dessas cenas. O destaque fica exatamente para a maneira como ele constrói o clima para as novas descobertas de Jack e desenvolve isso de forma que os olhos dele passem a ser o próprio olhar do público na maioria das cenas, principalmente nas mais pesadas.

No entanto, isso só é possível porque o elenco acompanha com perfeição digna de Oscar. Brie Larson, que interpreta a mãe, abre mão da sua vaidade para criar uma personagem que se divide entre a dor e o amor. Ela com certeza merece levar a estatueta para casa por passar todo o sofrimento da personagem com pequenos gestos ou olhares, deixar o sofrimento transparecer em uma ótima cena com a atriz Joan Allen e emociona qualquer espectador com durante as suas cenas com Jack.

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Mesmo assim, quem rouba todos os holofotes é o pequeno Jacob Tremblay em uma das melhores atuações infantis que eu já vi na minha vida, principalmente quando paramos para analisar o quanto o seu personagem é difícil. Jack é essencial para o funcionamento de todo o longa e Tremblay consegue fazer o espectador sentir todas as suas dúvidas, suas alegrias e seus medos tanto quando ele contracena com o próprio quarto, quanto quanto ele precisa se adequar a uma vida que ele não sabe se quer ou precisa.

São processos complicados e recheados de outros temas complexos que O Quarto de Jack consegue transformar de forma brilhante em um filme poderoso através de um roteiro sutil e emotivo, uma direção apaixonante e construída de forma certeira e atuações de tirar o fôlego. Um filme praticamente perfeito que mexe com as emoções mais escondidas de qualquer coração de pedra de qualquer lugar do planeta.


OBS 1: Definitivamente, Jacob Tremblay foi esnobado pelo Oscar!


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