AODISSEIA
Filmes

Critica: Brooklyn

19 de fevereiro de 2016 - 14:00 - Flávio Pizzol

Uma agradável surpresa


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Dentre os filmes indicados ao Oscar desse ano, Brooklyn era, ao mesmo tempo, aquele que vinha sendo comentado há mais tempo como possível indicado e aquele que menos me chamava atenção. Parecia ser só mais um romance, mas ele consegue ser um pouco mais do que isso e se tornar uma ótima opção para quem gosta de um cinema leve e simples.

O filme conta a história de Eilis, uma jovem irlandesa que viaja para os EUA em plena década de 50 para alcançar alguns sonhos que não seriam possíveis na sua terra natal. Chegando lá, ela rapidamente se apaixona por um jovem italiano, mas precisa tomar decisões complicadas quando precisa passar uma temporada com sua mãe na Europa.

É uma premissa que engana bastante, já que o roteiro escrito pelo ótimo Nick Hornby raramente coloca o romance em primeiro plano. Na minha visão, o filme é muito mais sobre o drama de uma garota que precisa conviver com a saudade e com sua própria transformação em uma mulher completamente diferente. É isso que começa e encerra a história, posicionando o romance com uma espécie de rito de passagem necessário na vida real de qualquer pessoa.

Inclusive, eu acho que a segunda metade do filme perde força ao se apoiar só nesse romance e correr com as conclusões, deixando um pouco de lado um drama que vinha sendo tão bem construído até então e de uma reviravolta muito interessante que separa os dois atos. A cena que deixou isso claro foi o retorno repentino da antiga chefe da protagonista como uma espécie de vilã só para que a tal transformação seja completa. Para mim, foi uma decisão um tanto quanto forçada, corrida e desnecessária, já que a própria Eilis já vinha passando por uma evolução mais gradual e fluida durante todo o restante do tempo.

Mesmo assim, essa cena é um dos melhores momentos do longa, porque o diretor John Crowley (que também dirigiu dois episódios da segunda temporada de True Detective) conduz tudo com muita segurança e tranquilidade. Seu maior acerto é saber balancear todo o desenvolvimento do filme entre o drama e o romance, fazendo com que os momentos mais pesados não sejam difíceis de assistir, os personagens ganhem o público por parecerem muito reais e os 110 minutos passem voando.

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Nesse caso, a ambientação, a trilha sonora e a edição ajudam muito nessa tarefa, ajudando a recriar a época e dar uma cadência que é essencial para o longa não ficar arrastado. A fotografia de Yves Bélanger também tem uma função primordial, principalmente na apresentação quase paradisíaca dos EUA quando ela abre a porta da imigração, na mudança sutil da paleta de cores para mostrar a evolução da protagonista e no contraste perfeito que ela consegue criar entre o cenário e os figurinos coloridos usados pela estrela do longa.

E essa pessoa atende pelo belo nome de Saiorse Ronan em uma atuação simplesmente espetacular. Ela se destaca muito bem nos momentos mais dramáticos e garante sua passagem para o Oscar em algumas cenas mais “explosivas”, no entanto o seu maior charme está na leveza e nos detalhes. É muito fácil acompanhar a sua saga, torcer pela felicidade da personagem e, principalmente, observar como sua postura, seu jeito de andar e sua atitude vão mudando ao longo do filme e mostrando muito sobre a personalidade de Eilis.

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Mas, mesmo que ela mande no filme e carregue boa parte das emoções contidas aqui, o elenco coadjuvante também merece receber algum destaque, principalmente Domnhall Gleeson e Emory Cohen. Eles fazem as duas contrapartes da história e conseguem conquistar o espectador com pouquíssimo tempo de tela. Isso é decisivo nos momentos finais, onde o público pode começar a escolher um dos lados, entender todas as dúvidas da protagonista e sentir o peso de cada uma das suas decisões.

No fim das contas, Brooklyn se garante com muitas atuações boas, um roteiro que sabe escrever de pura e uma direção que faz essa roda funcionar de maneira leve e poderosa. Não é um filme que precisa passar grandes mensagens, que exige discussões sobre temas sociais ou que tenta ser o melhor exemplar do Oscar, mas é um programa surpreendentemente agradável que, junto com o lindo sotaque irlandês, vai conquistar tanto quem gosta de um bom filme, quanto quem só quer um bom romance.


OBS 1: Os veteranos Jim Broadbent e Julie Walters também fazem um ótimo trabalho nas suas poucas participações.


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