AODISSEIA
Filmes

John Wick 3 tem tudo que uma franquia de ação precisa…

... mas, mesmo assim, tudo continua acontecendo por causa dos cachorros.


23 de maio de 2019 - 00:16 - Flávio Pizzol

John Wick começou sua jornada de fininho lá em 2014, sendo nada mais do que um filme independente sobre vingança, e viu o inesperado sucesso de público e crítica alavancar sua história ao possível começo de grande franquia de ação. A partir daí, tal caminho começou a ser traçado com a apresentação dessa realidade onde praticamente todos os moradores da cidade são assassinos treinados que servem a uma organização mundial talhada por regras rigorosas e encontram qualquer tipo de serviço em hotéis selecionados. Quando algumas dessas regras são quebradas, o resultado acaba sendo John Wick 3: Parabellum.

E o filme começa justamente nesse ponto das consequências: John Wick tentando sobreviver quando sua cabeça é colocada a prêmio como punição pelo assassinato de outro assassino dentro do hotel que deveria ser um local de refúgio e segurança. Isso coloca o personagem-título em uma jornada pela vida que atravessa perseguições mortais, encontros nem sempre amigáveis com antigos colaboradores e negociações dolorosas em torno da chance de continuar respirando.

Em outras palavras: um filme de perseguição clássico que repete boa parte da fórmula estabelecida pela franquia através da construção da tensão e do estilo da pancadaria. Tudo comandado mais uma vez por um Chad Stahelski (diretor de segunda unidade em Capitão América: Guerra Civil) que sabe usar sua experiência prévia como coordenador de dublês de maneira precisa e eficiente. Assim como acontecia nas produções anteriores, as cenas de luta de John Wick 3 se tornam o grande trunfo do longa graças as coreografias impecáveis e ao jogo de câmeras que acerta em cheio na hora de dosar o ritmo, evitar cortes exagerados ou dar peso para as porradas. O resultado – que só melhora a cada filme – é decisivo na construção desse cenário de ameaça e urgência onde o espectador se surpreende, vibra e desiste de tirar os olhos da tela logo nos primeiros minutos.

Ao mesmo tempo, essa dinâmica voltada inteiramente para a ação não abre espaço para os diálogos, personagens ou desenvolvimentos narrativos crescerem ao ponto de ocupar um lugar de destaque. No entanto, isso não pode ser caracterizado como um problema dentro de uma franquia cuja a essência nunca esteve em devaneios filosóficos ou negociações políticas. John Wick 3 segue seus antecessores na onda de ser um filme de ação daqueles que passariam nas madrugadas da Globo, bebe da mesma fonte que resultou em todos os sucessos da década de 80 e não esconde isso em nenhum momento, encaixando-se cada vez mais com a atuação simplória e dedicada de Keanu Reeves (O Mínimo para Viver).

Seu jeito quase apático de construir o protagonista funciona dentro dessa persona solitária que ainda está lidando com o luto (esse longa se passa poucas semanas após primeiro) e não atrapalha a execução de um texto composto basicamente por frases de efeito, exagero e escolhas narrativas que muitos podem tachar como bregas. Um freio de mão que só é liberado naquilo que o público da franquia realmente quer ver: Reeves protagonizando as sequências de ação mais loucas e violentas com a ajuda mínima de dublês, enquanto apanha e bate no meio de doses valiosas de sangue e realismo. Um combo que, mesmo sem precisar provar nada pra ninguém, John Wick 3 faz questão de entregar com muita vontade em um duelo de faca que entra pra história do gênero, uma sequência brilhante envolvendo cachorros e um terceiro ato que só pode ser classificado como insano.

E acredite quando eu digo que o filme engata todos esses momentos com esmero e agilidade, impedindo que essa experiência tão voltada para a urgência de uma perseguição que acontece em pouco tempo seja quebrada pelas transições mais “textuais”. Ainda assim, o roteiro escrito a oito mãos por Derek Kolstad (De Volta ao Jogo), Chris Collins (Star Wars: The Clone Wars), Marc Abrams (Breaking In) e o novato Shay Hatten toma os cuidados necessários para fazer sentido narrativamente. Não é perfeito e cai em algumas inconsistências (principalmente no segundo ato), mas faz o básico ao manter a essência da franquia, a coerência dentro das decisões tomadas pelo protagonista e colocar tudo a serviço da expansão do universo que vem sendo preparada desde o segundo longa.

Mais do que isso, o terceiro título da franquia é a prova cabal de como essa ampliação de mundo funciona muito bem, criando continuações maiores que os longas anteriores sem que o escopo da ação tenha que fugir daquela fórmula mais contida e corporal. Parabellum passa por um processo parecido com o de Velozes e Furiosos, flerta com uma escala realmente mundial e usa isso a seu favor quando abre novas possibilidades de trama, apresenta assassinos de outros países e torna até certas “barrigas” narrativas em algo no mínimo interessante. Inclusive, o segundo ato é um exemplo de algo que poderia acontecer em Nova York sem grandes perdas, mas ganha mais ânimo e fôlego por servir a esse mergulho em terras mais distantes.

Para a surpresa de um total de zero pessoas, essa mesma proposta de crescimento também é responsável por aumentar o espaço de alguns rostos conhecidos e adicionar novos coadjuvantes à história. Mesmo com aparições bastante pontuais, Ian McShane (Deuses Americanos), Laurence Fishburne (A Mula) e Lance Reddick (American Horror Story) se firmam no primeiro grupo graças a influência vital em momentos-chave da trama, enquanto Halle Berry (Kingsman: O Círculo Dourado) e Mark Dacascos (O Pacto dos Lobos) completam o bonde com aparições que poderiam voltar tranquilamente. Se trouxerem consigo as espadas e os cachorros então, podem ficar de vez e pedir até filme-solo.

Brincadeiras à parte com o universo, o mais importante é que a mistura de todos esses nomes reconhecidos, sequências de ação desenfreadas e bem dirigidas, roteiro decente e expansões inesperadas resultam num dos melhores filmes de ação do ano. E sim, eu sei que ainda estamos no começo de 2019, mas a tensão catártica gerada pela produção somada ao valor de entretenimento da franquia garantem que tal afirmação tem grandes chances de permanecer verdadeira. Digo isso com tanta certeza, porque, mesmo sendo bastante simplório, John Wick 3: Parabellum cumpre sua proposta com o fôlego de Reeves, a violência dos cachorros de Berry e a precisão do tiro sinalizado pelo médico. Tudo que um fã do gênero quer e um pouco mais…