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Filmes

Nerve – Um Jogo Sem Regras


31 de agosto de 2016 - 16:00 - Flávio Pizzol

Você prefere ser observador ou jogador?


nerve-poster-9Bem vindos a nossa geração! Um grupo de jovens intimamente ligado com a internet e as todas as inovações tecnológicas. Pessoas que não conseguem ficar 24 horas sem Whatsapp, trabalham via Skype, vivem sua rotina em alta velocidade, transformam Pokémon Go em uma febre instantânea e acompanham tudo através de perfis falsos nas redes sociais. Nerve (e seu subtítulo desnecessário) nasce como uma representação muito próxima dessa sociedade em um filme ágil e um tanto provocativo.

Baseada em um livro de Jeanne Ryan, a história segue um jogo online que se apropria da temática do clássico “verdade ou desafio”, excluindo a tal da verdade que supostamente já está toda na rede. Nesse contexto levemente futurístico, Vee (Emma Roberts) é uma menina que não costuma correr riscos e acaba mudando completamente sua vida ao fazer seu login como jogadora e cruzar o caminho de Ian (Dave Franco), um outro jogador mais experiente.

É uma espécie de mistura entre Jogos Vorazes, Malhação e Tron que acerta na premissa e coloca em cena vários aspectos da nossa sociedade, como a necessidade de estar sempre conectado. O texto adaptado por Jessica Sharzer (American Horror Story) consegue estabelecer os personagens e as características mais importantes sem exagerar nas explicações, equilibrar o lado adolescente da trama e ainda fazer o público refletir sobre a forma como vivemos hoje, principalmente a maneira como as pessoas usam a internet como um lugar isolado onde é permitido ser preconceituoso, mal educado e babaca.

A direção da dupla Henry Joost e Ariel Schulman (responsáveis por Atividade Paranormal 3 e 4) encaixa perfeitamente nessa dinâmica, aproveitando o formato de filmagem dos celulares em diversos momentos, a tela do computador como cenário (bem no estilo de gameplay), as luzes de neon como iluminação das cenas mais escuras e a câmera de mão para simular uma espécie de documentário. Eles também apostam em alguns recursos estilísticos interessantes na hora de localizar os personagens ou mostrar suas vidas no mundo cibernético, aproximando definitivamente o público dos protagonistas.

Nerve_dareyou_Trailer

O problema é que um terceiro ato cansativo enfraquece todas as qualidades adquiridas até o momento. Apesar de acertar ao questionar a responsabilidade daquelas pessoas que estão apenas assistindo, o roteiro fica arrastado demais e culmina em um plano extremamente óbvio, enquanto a fotografia, a câmera tremida e os pontos de vista subjetivos simplesmente cansam. É um daqueles casos típicos onde uma boa premissa não consegue sustentar o filme inteiro por falta de acontecimentos importantes ou, pelo menos, diálogos mais fortes.

Apesar de apostarem em diálogos e trejeitos adolescentes que também cansam com o tempo, o elenco consegue sustentar o filme de forma eficiente. Não tem nada de inesquecível ou brilhante, mas Emma Roberts e Dave Franco convencem e devem agradar o público mais novo e conectado com carreiras de ambos. Kimiko Glenn (Orange is the New Black), Miles Heizer (do ótimo e desconhecido Rudderless) e Emily Meaden (Jogo do Dinheiro) também funcionam como coadjuvantes, enquanto a grande Juliette Lewis (Assassinos por Natureza) é completamente desperdiçada como a mãe da protagonista.

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Com isso, o filme fica um pouquinho entediante, os espectadores inevitavelmente começam a prestar atenção em outras coisas (inclusive no maldito do celular) e própria discussão perde quase toda a sua força. O roteiro consegue lançar boas ideias na mesa, a direção comanda o ritmo ágil com bastante qualidade e o elenco não chega perto de ser horroroso, mas Nerve precisaria ter mais energia para manter o público preso até o final. Acaba sendo um filme mediano que vai ser esquecido, quando poderia gerar novas discussões sobre a nossa própria geração entre os mais jovens.


OBS 1: A dupla de diretores também é a responsável pela realização do documentário Catfish em 2010. Um filme que aborda uma temática parecida com a de Nerve, se aprofunda um pouco mais e pode valer a pena para quem quer discutir sobre o assunto.


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