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Séries: Supernatural (12ª Temporada)

Uma temporada divertida e nostálgica, porém inconsistente de Supernatural

24 de maio de 2017 - 17:48 - Flávio Pizzol


Supernatural foi a primeira série que eu assisti na vida, começando pelas gloriosas exibições dubladas no SBT. Sou um fã incondicional e só vou abandonar o barco no cancelamento oficial, mas isso não me impede de afirmar que o programa está enfrentando o desgaste narrativo há muito tempo. Após mais uma troca de showrunners, essa décima segunda temporada se torna um exemplo claro desse cansaço e, mesmo com momentos divertidos, pode ser classificada como a mais inconsistente desde que o sétimo ano nos apresentou os horrorosos Leviatãs.

 

[Atenção: Escrever críticas, dar spoilers, o negócio da família]

 

A falta de foco da sala de roteiristas acabou dividindo a temporada entre várias subtramas sem grandes conexões. O valioso e misterioso retorno de Mary Winchester, a promessa de evento cósmico por causa da morte da ceifadora, as brigas entre Crowley e Lúcifer, o nascimento de um neflim (filho de um humano com um anjo) e a tentativa de dominação dos Homens das Letras Britânicos foram sendo acumuladas de forma indecisa e mal organizada durante os 23 episódios em questão. Muitas dessas tramas tinham potencial para expandir a mitologia do show, mas quase todas se perderam em um desenvolvimento abaixo do esperado ou acabaram completamente ignoradas.

 

 

Isso gerou uma temporada confusa e mais cansativa do que o normal, com exceção de alguns fillers que – como sempre – ficaram no topo dos melhores episódios da temporada. Para sorte do público, pelo menos o season finale duplo conseguiu colocar alguma ordem na casa. As últimas horas conseguiram conectar as principais pontas soltas da temporada, reunindo muita ação, diálogos sarcásticos, discursos emotivos e decisões de cortar o coração. Sempre existe a possibilidade qualquer personagem ressuscitar em Supernatural, porém ver Castiel e Crowley (de uma vez por todas, segundo o próprio ator) padecerem foi bastante doloroso.

 

Isso sem contar com os ótimos ganchos deixados nos últimos instantes ou os momentos de catarse representados pelo sacrifício de Mary e o retorno inesperado de Bobby (Jim Beaver). O espaço está aberto para o personagem voltar em alguma interação com Mamãe Winchester e Lúcifer, enquanto uma parte da temporada deve girar em torno de Sam e Dean fazendo de tudo para salvar sua mãe daquele horror pós-apocalíptico. E acima de tudo isso está a maior de todas as perguntas: qual será o papel do bebê demoníaco nesse treta toda? Ele será herói ou vilão?

 

Apesar de todos os escorregões acima do normal, a temporada não jogou fora as qualidades que sempre mantiveram Supernatural de pé. A principal delas é muito básica: a série ainda entende seus próprios desgastes e sabe como transformá-los em piada. Quando fazem algum esforço, os roteiristas conseguem reunir criatividade, bom humor, diálogos inspirados e muitas referências a cultura pop em episódios realmente inesquecíveis.

 

 

E essa temporada não foi diferente, incluindo desde uma caçada liderada por Castiel e Crowley até os típicos nomes de astros da cultura pop nas identidades falsas dos protagonistas. Até Quentin Tarantino foi homenageado em um episódio que praticamente reproduzia estrutura narrativa e cenas icônicas de Cães de Aluguel…

 

Além disso, Supernatural continua sendo uma série sobre família e a presença de Mary reforça ainda mais o lado fraternal do programa. Os roteiros conseguiram explorar a conexão amorosa dela com os irmãos com uma minúcia que nem John Winchester teve, enquanto a própria personagem também precisava lidar com seus arrependimentos e pensamentos confusos. O diálogo entre ela e Dean no penúltimo episódio já está no topo dos momentos mais emocionantes de todas as temporadas, dividindo um pouquinho do espaço com as várias discussões sinceras que o mesmo constrói com seu irmão.

 

A ironia de tudo isso é que coadjuvantes e vilões também receberam suas próprias subtramas familiares nessa temporada. Lúcifer foge para recuperar seu filho, Castiel assume responsabilidades paternas em nome da fé, Crowley lida tanto com sua mãe quanto com a perda aleatória de seu filho pouco desenvolvido e por aí vai. Supernatural sabe como construir esse tipo de relação com uma dose certeira de comédia, uma pitada de emoção e um pouco de terror uma vez ou outra, porém boa parte desses acertos na verdade são responsabilidade de um elenco brilhante, que sabe caminhar pelos gêneros mais variados com facilidade.

 

 

Jensen Ackles (Batman Contra o Capuz Vermelho) e Jared Padalecki (A Casa de Cera) permanecem extremamente à vontade como os protagonistas, acumulando cada vez mais carisma e bons momentos dramáticos. Samantha Smith (Transformers) retorna e transforma sua Mary em uma adição que não merece ser descartada tão rápido assim. Já Misha Collins (Timeless), Mark Sheppard (White Collar) e Mark Pellegrino (13 Reasons Why) se consagram com os melhores atores coadjuvantes que qualquer série de televisão pode ter, misturando momentos emocionantes com tiradas realmente hilárias.

 

O resultado dessa matemática de outro mundo foi uma temporada inconsistente, bagunçada e abaixo de uma média que Supernatural vinha conseguindo manter. Mesmo assim, o elenco continua afiado, o roteiro pontualmente certeiro e final emotivo como um bom season finale. Foi uma oportunidade aproveitada para salvar a temporada de ser apenas mediana e deixar o terreno preparado para tramas interessantes no futuro. Os Homens das Letras Britânicos, Lúcifer, Mary e até Castiel devem ser presenças constantes no próximo ano e, se depender das descrições feitas sobre o poder do neflim, o fim verdadeiro da série também pode estar realmente próximo.

 


OBS 1: Crowley foi usado de forma errada muitas vezes, mas o senso de humor negro do personagem vai fazer falta…