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Séries

Crítica: 13 Reasons Why – 1ª Temporada

A série definitiva da adolescência real

5 de Abril de 2017 - 09:00 - Tiago Soares

 

“Oi, Meu Nome é Hanna. Hanna Baker. Acomode-se porque vou contar a história da minha vida. Mais especificamente, porque minha vida terminou.”

 

E assim se inicia um dos maiores acertos da Netflix, em parceria com a Paramount Television em 2017. Baseada no best-seller de sucesso de Jay Asher, 13 Reasons Why (No Brasil, Os 13 Porquês) conta a história de Clay Jensen, um jovem nerd e tímido que um dia recebe algumas fitas cassete em uma velha caixa de sapatos. Posteriormente descobre que as fitas foram gravadas por Hanna Baker, sua amiga e paixão platônica, que acabara de se suicidar. As fitas contam os 13 motivos por quais Hanna tirou sua própria vida, e cabe a Clay honrar Hanna, fazendo algo a respeito e passando-as adiante.

 

Criada pelo ainda inexperiente na TV – mas ganhador do prêmio PulitzerBrian Yorkey, e produzida por Selena Gomez e Tom McCarthy (Spotlight), somos envolvidos em uma trama séria e cheia de mistérios, com personagens multifacetados e com boas doses de realismo. Já que estamos diante de uma série tão diferente, façamos isso também com a crítica, e lhe darei 13 motivos parar ver 13 Reasons Why:

 

A Direção

 

Sendo os dos primeiros episódios dirigidos pelo também produtor Tom McCarthy, a série já se destaca em sua direção intimista, sempre focando no rosto e nas reações de seu protagonista, e o acompanhando com uma câmera no ombro. Conversas aparentemente normais no saudoso café Monet’s, são filmadas com câmera na mão, mostrando o desconforto dos personagens com suas conversas. Apesar de sofrer uma pequena queda posteriormente em termos de direção – Jessica YuCarl FranklinGregg Araki e Kyle Patrick Alvarez seguem a ideia, entregando não uma cópia, mas uma linguagem particular a série, auxiliada pela fotografia.

 

A Fotografia

 

Se passando em dois momentos distintos – no presente e no passado – Ivan Strasburg e Andrij Parekh entregam fotografias diferentes para ambos. O passado com a presença de Hanna, é recheado de cores vivas e quentes, indo para um tom mais amarelado, enquanto o presente, sem Hanna, é frio, meio azulado e mostra o peso e a diferença que a ausência da jovem causou tanto na vida particular daquelas pessoas, como no todo.

 

A Montagem

 

Leo TrombettaDaniel GabbeMatthew Ramsey são responsáveis por realizar essas transições incríveis entre o passado e o presente. Utilizando panorâmicas e elementos de cena para realizar essas passagens. A série apresenta uma de suas maiores qualidades – ao brincar com nossa perspectiva – sendo o único fator determinante para a distinção – a já citada fotografia e o corte na testa de Clay, que nunca sara – uma importante ironia.

 

A Narrativa

 

Apesar de abordar temas bastante pesados e complexos, 13 Reasons Why tem uma narrativa fluída e ironicamente gostosa de assistir. Tendo o criador Brian Yorkey como principal roteirista, a série tem uma história que te prende e não usa de clichês ou facilidades de roteiro – um roteiro que não é brilhante – mas usa de nuances bem vindas – apesar de as vezes apresentar alguns diálogos bastante expositivos. A metalinguagem é outro fator importante – Hanna só queria ser feliz e viver em paz, mas os motivos não a deixavam seguir em frente – o mesmo acontece com Clay que passa a recriar os momentos de Hanna e não abandona a história – e o mesmo acontece conosco, que fomos fisgados e estamos loucos pra saber o que aconteceu. É um ciclo stalker vicioso.

 

 

Os Personagens

 

Os motivos podiam muito bem cair em esteriótipos ou ser unidimensionais em toda série, servindo com uma espécie de “vilão do episódio”, o que não acontece aqui. Os personagens são bem desenvolvidos, tridimensionais, e apesar de todos terem um papel no suicídio de Hanna, conhecemos suas vidas, anseios, paixões e suas famílias. Além de Clay e Hanna (que falaremos melhor no próximo motivo) – Justin (Brandon Flynn), Jessica (Alisha Boe), Alex (Miles Heizer), Tyler (Devin Druid), Ryan (Tommy Dorfman), Zach (Ross Butler), Marcus (Steven Silver), Coutney (Michele Selene Ang), Sheri (Ajiona Alexus), o conselheiro Mr. Porter (Derek Luke) e até o escroto Bryce (Justin Prentice) apresentam tons de cinza. Apesar de alguns discursos narcisistas e de individualidades que falam mais alto na maioria do tempo – a série procura fugir dos esteriótipos impostos pela sociedade.

 

As Atuações

 

Formado em sua maioria por completos desconhecidos, é inegável e até surpreendente que o elenco de 13 Reasons Why seja um dos pontos altos da série. Com uma química incrível entre todos e um destaque maior ao primeiro grande trabalho da protagonista – Hanna – vivida por Katherine Langford. A jovem é um talento bruto, que foi moldada pra ser uma pessoa pra cima e alegre no início, que vai se deteriorando com o tempo. Outro destaque é Dylan Minnette (Goosebumps/O Homem nas Trevas/o eterno filho de Jack em Lost) que vive Clay Jensen – o jovem consegue ser um rapaz tímido (quem já o viu em entrevistas, sabe que ele é bem diferente) e consegue entregar uma carga dramática ao seu personagem apenas no olhar e no pouco que diz. Alisha Boe (Jessica), Brandon Flynn (Justin) e Christian Navarro (Tony) são outras gratas surpresas.

 

Temas Importantes

 

13 Reasons Why – apesar de ser uma série adolescente – quebra tabus ao tocar em temas bastante sérios e adultos, alguns até difíceis de assistir. Bullying, machismo, sexismo,  racismo, assédio sexual, estupro, depressão, abandono dos pais e amigos – e principalmente o suicídio – tudo é tratado com maturidade e de forma crua, até na forma em que são filmados. Não há beleza em todas essas atitudes, e ressalto mais uma vez a junção dos trabalhos de direção, fotografia, montagem e atuação – ao retratar com perfeição, não só os temas citados – mas o que leva a eles e o que acontece depois deles – como em todo o trabalho de Hanna antes do suicídio – e a preocupação em deixar seu “legado”.

 

 

A Importância dos Pais

 

Segundo um amigo que leu o livro, uma das grandes mudanças positivas na adaptação televisiva foi o fato dos pais de Hanna e Clay ganharem mais espaço – algo que acontece não só com os pais deles – afinal – conhecemos um pouco do convívio familiar de cada um. A mãe de Hanna vivida pela experiente Kate Walsh, vive duas personagens em uma só, sempre linda e feliz quando Hanna está viva – para uma aparência pesada e de “cara limpa” no tempo presente. Brian d’Arcy James é o pai de Hanna, mais contido e menos emotivo – o ator passa através de pequenos gestos, a tristeza que sente – e mais do que isso, o sentimento de pena e amor pela esposa. Os pais de Clay vividos por Amy Hargreaves Josh Hamilton demonstram a importância que a criação do jovem, teve em sua personalidade. A presença ou ausência dos pais dos outros jovens, também são questões fundamentais para nos gerar empatia. Coincidentemente, os pais de Bryce e Ryan nunca aparecem ou são poucos citados na série.

 

A Trilha Sonora

 

Bastante indie e intimista, estamos diante de umas das melhores trilha sonoras de séries. Casando perfeitamente com cada momento – com cada episódio terminando com um belo som – justamente para nos fzer refletir – 13 Reasons Why encontra a sonoridade perfeita com sons de Selena Gomez, Joy Division, The Cure, Vance Joy e etc. A trilha sonora está disponível no Spotify e você pode ouvi-la aqui:

 

 

10º O Fator Selena Gomez

 

Pra quem não sabe, 13 Reasons Why seria um filme – já que a Paramount juntamente com Selena Gomez, tinham adquirido os direitos da adaptação que seria protagonizada pela mesma. Com a entrada da Netflix no jogo, a atriz e cantora, permaneceu apenas como produtora executiva. Mas a importância de Selena em uma produção dessas vai além do seu nome e base de fãs. Pra quem não se lembra, Selena deu uma pausa em sua carreira em agosto do ano passado, cancelando vários shows de sua turnê, incluindo o Brasil, pois estava com depressão e ansiedade – ocasionados por sua doença – a lúpus. Sendo assim, o envolvimento da moça vai além e mostra que todos estamos sujeitos aos intempéries da vida.

 

11º Ritmo/Maratona

 

Este motivo pode ser interpretado como bom ou ruim, dependendo do seu ponto de vista. Devido a ausência de velocidade de Clay em ouvir as fitas (sendo que no livro o mesmo escuta todos em uma noite) – a série acaba perdendo o ritmo em alguns episódios – e a duração de 50 minutos a 1 hora também não ajuda. Em contrapartida o excesso de choques e abordagem de temas muito pesados, faz com que uma “parada forçada” seja necessária – para que se possa digerir tudo o que aconteceu após o fim de cada episódio. Por isso, 13 Reasons Why, não é uma série recomendada para se maratonar ao modo Netflix.

 

12º As Discussões #NãoSejaUmPorque

 

Assim que foi lançada, 13 Reasons Why mobilizou a internet, mas especificamente o Twitter que criou a hashtag #NãoSejaUmPorque – pretendendo realizar uma campanha de conscientização sobre prevenção ao suicídio. A “brincadeira séria” foi responsável por gerar belos twittes de apoio, elogios, prevenir brincadeiras idiotas, defender um amigo, incentivar denúncias de abuso e até mesmo falar um “olá, tudo bem?” pra alguém. É importante lembrar que existe, no Brasil, o Centro de Valorização à Vida – organização de voluntários que ajuda na prevenção do suicídio e oferece apoio para vítimas. O atendimento é anônimo e disponível através de várias mídias, como o site oficial e o telefone 141.

 

 

13º Segunda Temporada (Necessidade x Possibilidades)

 

Apesar de adaptar todo o livro (mudando algumas coisas em seu final), e não ter mais uma base para continuar – a possibilidade de uma segunda temporada de 13 Reason Why se torna cada dia mais plausível, devido ao sucesso que a série está alcançando. Mas – realmente seria necessário uma segunda temporada? A história consegue terminar bem, e num simbólico Mustang 1968 rumo ao horizonte. Apesar de não mostrar tudo o que aconteceu com alguns dos personagens. Entretanto, algumas questões ficam em aberto, principalmente as que se referem a Tyler. Ele teria atirado em Alex ou o mesmo realmente deu um tiro na própria cabeça? O que Tyler planeja fazer com aquelas armas? Será que teremos uma 2º temporada baseada no massacre de Columbine? O que significa as fotos de todos no estúdio de Tyler? Bryce será preso? E pra onde vai Justin?

 

13 Reasons Why consegue ser excelente e quebrar barreiras, porque não trata o adolescente como um ser inferior e não foca apenas em sua casca superficial – a série vai além e os trata com toda a complexidade e respeito que merecem – fazendo com que a adolescência seja muito mais do que apenas uma fase de transição entre a infância e juventude – em outras palavras, a série deu voz não apenas aos dramas – deu voz as pessoas.

 


Obs: Junto com a série, a Netflix lançou também um behind the scenes/making off de 30 minutos intitulado – Além dos Porquês. Assistam.