Nefarious | E se Deus Não Está Morto fosse um suspense de possessão…

Nefarious
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Filme cristão e conservador sem profundidade, Nefarious comprova que ser considerado uma das produções mais fiéis sobre possessão demoníaca pela Igreja Católica pode não significar nada


Posso estar errado, mas imagino que, se falam que você está prestes a assistir a um filme sobre possessão demoníaca, a imagem que se forma em sua cabeça é um terror ou um suspense. Um longa que, mesmo lidando com traumas e mergulhando no modelo A24, tenta emplacar uns sustos ou pelo menos criar um clima de tensão constante.

Agora, se alguém fala que você irá assistir ao filme de possessão classificado pela Igreja como o mais realista de todos os tempos… Juro por tudo que é mais sagrado que não fazia ideia do que esperar, principalmente por ser uma pessoa que não enxerga o realismo como resposta e faz questão de tirar sarro quando alguém (vulgo Hoffmann) elogia o Nolan por fazer cálculos exatos ou qualquer coisa do tipo.

Porém, mesmo não sabendo o que esperar, cheguei nos trinta minutos de Nefarious com a mais absoluta certeza de que a minha expectativa nunca teria a capacidade de aproximar do que eu estava vendo. Talvez por ter dado play sem olhar os créditos no IMDB, mas aí é uma história para o meu eu do futuro…

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Qual é a história de Nefarious?

No dia de sua execução, o assassino em série Edward Brady tem um último e decisivo compromisso: uma consulta final com um psiquiatra, atestando que ele de fato cometeu seus crimes sabendo o que fazia e, assim, não pode ter sua sanidade questionada. Porém, depois do suicídio de seu antigo médico, Edward deverá ser avaliado pelo substituto, o Dr. James Martin.

Com o destino – e a vida – do assassino em suas mãos, Martin não tem ideia do que terá que enfrentar. Quando Brady diz ao médico que é, na verdade, um demônio chamado Nefarious, tem início uma batalha pela verdade que mistura fé, crenças e o futuro da humanidade.

O que achamos de Nefarious?

Já vou começar meu texto tirando o elefante da sala: Nefarious não foi aprovado e elogiado pela Igreja Católica por conta de sua abordagem realista de uma possessão demoníaca.

É verdade que eu nunca vi uma possessão e, por isso, não tenho parâmetros de comparação suficientes para definir se quem chegou mais perto foi William Friedkin, Scott Derrickson, David Gordon Green (sim, no horrendo O Exorcista – O Devoto) ou a dupla Chuck Konzelman e Cary Solomon. Porém, posso garantir que existem algumas coisas nesse longa que chamam mais atenção da igreja do que o suposto realismo da possessão.

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Eu precisei assistir a 10 minutos de filme para ter certeza de que a aprovação estava totalmente conectada ao fato de Nefarious ser uma versão 2.0 de Deus Não Está Morto, que sai da faculdade dominada por ateus de esquerda e vai para uma prisão sombria com o objetivo de se aproveitar do cinema de gênero. Algo que ficou ainda mais escancarado quando descobri que, coincidentemente, Konzelman e Solomon (os diretores) são nada mais nada menos do que os roteiristas da obra citada.

Se um espectador de Deus Não Está Morto parar pra pensar por dois minutos na estrutura dos longas, perceberá que as similaridades são gigantescas. Ambos são debates com poucos cenários que opõem um crente e um cético (não por acaso, alguém com papel de renome na sociedade científica e que transmite suas crenças para outras pessoas), criando discussões moralistas que nunca perdem a oportunidade de condenar atos que não se encaixam na ideologia.

A grande diferença fica por conta da ruptura inegável e até mesmo curiosa do gênero, considerando que os filmes cristãos já possuem vaga cativa em certos espaços. Um movimento que, apesar de mal aproveitado, também abre as portas para o longa construir sua retórica em torno de palavras mais agudas do que nos dramalhões que estamos acostumados a ver.

Entretanto, nada disso muda a realidade: Nefarious é um filme cristão que, mesmo impossibilitado de passar na Sessão da Tarde, segue exatamente a mesma cartilha de obras como Som da Liberdade, A Cabana, O Céu é de Verdade, Milagres do Paraíso e mais uma porção de exemplos.

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Então não fique surpreso se esbarrar com algum grupo religioso (nem sempre a igreja em si), conservador e de direita defendendo, indicando sessões ou até mesmo distribuindo ingressos para o filme de possessão demoníaca que impressionou a igreja com seu realismo. Afinal, é um longa cujos debates moralistas parecem feitos sob medida tanto para esse público, quanto para as narrativas que os grupos citados constroem com o objetivo de aproximar a trama para realidade e difundir sua luta ideológica contra o mal.

E não dava pra esperar algo diferente de um filme que se esforça para encaixar todas as pautas que eles defendem, da criminalização do aborto e da eutanásia até a pena de morte. Tudo alinhado a um pensamento cristão conservador, cujas lideranças (em especial, no cenário digital) também se esforçaram para defendê-lo. Eu já tinha visto uns dois vídeos falando, por exemplo, sobre a qualidade das atuações.

Não estou dizendo que Sean Patrick Flanery (The Boys) e Jordan Belfi (Entourage) estão mal, porque seria injusto. Porém, é fato que terminei Nefarious com pouquíssima coisa para dizer sobre estética ou construção de um trabalho cinematográfico.

Não chega a ser incompetente e consegue prender a atenção do público por algum tempo, o que pode ser complexo quando a proposta lida com poucos personagens e poucos cenário. Mas também nunca sai do que seria o esperado em um filme de diálogos constantes, apostando em uma dinâmica de montagem que raramente tenta quebrar qualquer regra da cartilha mais básica e previsível. Uma boa decisão, já erra feio nos poucos momentos em que tenta ser levemente mais ousado…

Nefarious
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Nesse cenário, os atores alternam entre momentos afetados (o que no caso de Flanery significa fazer uma imitação pirata de James McAvoy em Fragmentado) e trocas mais genuínas. É apenas genérico e talvez eficiente, apesar de estar possivelmente acima da cafonice imposta nos melodramas cristãos.

O que realmente me incomoda é o fato de Nefarious é vender uma experiência fora do comum, enquanto se contenta com o padrão mais genérico possível, sem preocupação a construção de ideias narrativas minimamente profundas ou com a transformação do discurso em um filme propriamente dito. Logo, o debate entre fé e ciência, a quebra das crenças e até mesmo a possessão permanecem apenas nas palavras, sem aproveitar o potencial fílmico daquilo.

E faz isso com a consciência limpa de quem abandonou qualquer desejo de se aprofundar, porque sabe que não precisa se dar ao trabalho. Afinal, qualquer atuação exagerada alinhada à defesa das ideologias que seu público defende já é o suficiente para torná-lo o filme de algoritmo perfeito. Um filme que vai ser divulgado como obra-prima simplesmente por saber dar vazão às escolhas moralistas de um nicho que espera ansiosamente por obras que possam ser usadas como propagando na sua bendita luta do bem contra o mal.

Conseguiria engolir, se pelo menos Nefarious fosse uma propaganda bem feita…


Nefarious já está em cartaz nos cinemas brasileiros.

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Foto: Pôster de Nefarious / Divulgação
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