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Crítica: Coisa Mais Linda – Entre bossas, praias e feministas

Nova aposta da Netflix desafina, mas também diverte e gera reflexões atuais.


27 de março de 2019 - 02:57 - Flávio Pizzol
[Esse texto não contém spoilers, mas pode ter muitos trocadilhos com elementos musicais. Caso aconteça, me desculpem…]

Todo mundo já está cansado de ver um texto sobre cinema brasileiro falar o quão importante é, dentro de uma indústria nacional que sempre investe nas mesmas histórias, uma obra tentar falar sobre algo diferente. Pode ser uma região pouco explorada do país, uma lenda ou até uma época, desde que o resultado seja um novo ponto de vista. E, por mais que mantenha algumas características tradicionais da narrativa televisiva, Coisa Mais Linda ganha status de aposta da Netflix fazendo exatamente isso na construção do seu retrato elegante, musical e feminino sobre o Rio de Janeiro da década de 50.

A história acompanha Malu, uma paulista que deixa a sua vida pra trás e se muda para a antiga capital do país com o objetivo de abrir um restaurante ao lado do marido. Tudo muda quando ela descobre que foi roubada e abandonada no meio de uma sociedade conservadora que se importa demais com a vida alheia. Sozinha, mas decidida a dar a volta por cima, Malu reúne quatro amigas e decide transformar o antigo projeto em um clube de música que pudesse misturar paixões avassaladoras, pessoas de todos os tipos e uma cultura sonora efervescente.

É uma premissa simples que, como foi dito, não foge do clássico eixo Rio-São Paulo e repete muito do que a televisão já criou em relação a essa época. No entanto, ainda assim, Coisa Mais Linda abraça sim alguns níveis de subversão narrativa quando coloca as mulheres como protagonistas em uma época dominada exclusivamente por homens. Essa é a mudança que lança um novo olhar sobre algo que já foi adaptado inúmeras vezes em projetos audiovisuais, mostrando outros lados de momentos históricos e comprovando, por exemplo, que tópicos atuais já estavam em discussão naquela época.

É justamente dentro dessa dinâmica que a série criada por Heather Roth (I Was a Greenhouse) e Giuliano Cedroni (O Roubo da Taça) encontra sua vivacidade. Afinal de contas, é impossível tentar ignorar ou fingir que o subtexto feminista e inclusivo é uma das partes centrais de todas as subtramas dessa primeira temporada. Ele é o responsável por dar fôlego a série, enquanto passa por sequências que abordam – sem medo ou meias palavras – elementos pesados como o estupro, a violência domiciliar, os ambientes de trabalho machistas, a ausência de liberdade, os desafios que surgem apenas porque a personagem é mulher e até a vivência de alguém que completa seu combo com o fato de ser negra e mãe solteira.

São sequências que, mesmo sendo pesadas, já nascem conectadas de maneira inerente ao contexto da série. Mais do que isso, são peças necessárias na construção do retrato dessa época. Entretanto, uma das coisas mais interessantes é ver o texto da série abordar tudo isso de maneira contundente sem esquecer de cadenciar a levada entre o drama e a leveza. Coisa Mais Linda é uma obra dramática na maioria do tempo (não pensem o contrário), porém sabe que pode flertar com o humor em sequências pontuais. Os ápices dessas tentativas talvez sejam os ótimos discursos estilo Mrs. Maisel que Malu faz nas noites do clube. Inclusive, na minha humilde opinião, tais momentos poderiam entrar na trama mais cedo, visto que melhoram muito o texto instável da protagonista.

A parada é que, mesmo gostando bastante do tom e da construção social do projeto, também é impossível ignorar que Coisa Mais Linda tem alguns problemas que a acompanham desde os primeiros instantes. A organização temporal e geográfica da trama é bizarra, a direção demora pra encontrar o estilo certeiro, a fotografia oscila entre o estourado excessivo e o escuro demais, a dublagem raramente se encaixa nas atuações, algumas personagens sofrem com desvios de personalidade um tanto quanto bruscos e a montagem vacila em coisas básicas. Esse último caso, por exemplo, pode ser notado quando uma personagem está conversando no bar e, de repente, aparece falando sobre outro assunto, em outro cenário e com personagens diferentes, criando uma narrativa dispersa e bagunçada. Mesmo não acreditando que vou falar isso, acredito que falta aquela tomada aérea bem padronizada que ao menos indique a mudança de ambiente e situação…

A boa notícia é que a maior parte dessas pisadas fora da partitura são pontuais ou começam a se diluir com o passar do tempo, melhorando o resultado como um todo. O único elemento que persiste é o estilo novelesco, mas vale ressaltar que ele passa longe de ser um grande problema dentro de uma obra que, indiscutivelmente, tem cara de novela da Globo. Claro que isso influencia nas atuações exageradas, porém o tom condiz com o todo mesmo dividindo opiniões. É uma escolha proposital que nomes de gabarito como Maria Casadevall (Ilha de Ferro), Pathy Dejesus (Rua Augusta), Fernanda Vasconcellos (3%), Mel Lisboa (Presença de Anita) e Ícaro Silva (Elis) seguem sem muita preocupação – mas muita química – num concerto onde até mesmo o arco mais maduro da série reúne a maior quantidade de reviravoltas folhetinescas possível.

Só é uma pena que o final de Coisa Mais Linda ainda guarde espaço para uma última desafinada que poderia ter sido evitada, se a série não insistisse na tentativa de criar ganchos vazios. A possível volta do apenas citado Pedro é uma uma sugestão que não leva a nenhuma consequência ou surpresa palpável, como uma tentativa de roubar o clube. Já os últimos minutos se apoiam em uma sequência de violência que, mesmo fazendo sentido pra um personagem específico, sofre tanto com uma construção corrida quanto o fato de não oferecer o perigo real e imediato que um cliffhanger desse tipo deveria ter. É fraco e pouco condizente com uma série que, no mínimo, acertou na composição dos seus discursos.

Para sorte da própria série e do público que dedicou seu tempo aos sete episódios, as passagens citadas acontecem bem no finalzinho e não influenciam a experiência crescente que vinha carregando o show. Uma experiência que, eventualmente, divide opiniões quando percorre os acordes dissonantes que marcam a musicalidade da Bossa Nova, mas mantém o encantamento graças a elegância da reconstituição visual “cinquentista”, ao seu fator de entretenimento, a um fundo musical de muito bom gosto e, acima de tudo, a letra cheia de discussões necessárias e atuais. Em palavras menos musicais: Coisa Mais Linda erra ao ponto de ser mediana, mas compensa a passagem com uma belíssima e inebriante viagem por um Rio de Janeiro que sempre será lindo.


OBS 1: Palmas para a direção de arte, o figurino e todos os elementos que ajudam a levar o espectador para dentro da época retratada.

OBS 2: A trilha exagera em alguns momentos, mas não deixa muita margem para críticas quando o assunto são as músicas originais e/ou as regravações escolhidas para finalizar a imersão. Um acerto sem dúvida nenhuma!