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Filmes

Crítica: A Favorita, o ódio aos jogos de poder

Yorgos Lanthimos ganha a crítica e público em seu filme mais "normal"

5 de fevereiro de 2019 - 11:15 - Tiago Soares

É surpreendente que A Favorita, filme mais “normal” do diretor de O Lagosta e O Sacrifício do Cervo Sagrado seja aquele que mais tenha conquistado público e crítica. Na maioria das vezes, Yorgos Lanthimos é reconhecido como um dos cineastas mais originais da década, ao mesmo tempo em que por vezes é julgado por não se conter em suas próprias histórias.

Lanthimos se mostra como aquela pessoa que odeia tudo e todos. Se em O Lagosta (filme indicado ao Oscar de melhor roteiro original que lançou o diretor ao mundo), ele demonstra seu ódio aos relacionamentos atuais e em O Sacrifício do Cervo Sagrado ele demonstra seu ódio ao âmbito familiar – principalmente aqueles rodeados de falso moralismo, em A Favorita ele traz o desprezo aos jogos de poder – que porventura atrapalham laços tanto amorosos como familiares.

A única coisa pela qual demonstra amor é por seu trio de atrizes em atuações impecáveis, merecidamente lembradas nesta temporada de premiações. O trio ajuda a contar a história da rainha Ana (Olivia Colman), na Inglaterra do século 18, que vive sendo influenciada pela confidente, conselheira e amante Sarah Churchill (Rachel Weisz), Duquesa de Marlborough . Seu posto é então ameaçado pela chegada de sua prima Abigail (Emma Stone), que começa a receber atenção privilegiada da rainha.

O diretor grego sempre foi um observador e aqui não é diferente. A câmera de Lanthimos  passeia pelos castelos exuberantes e vestidos espalhafatosos que trazem verossimilhança a obra. Com panorâmicas não convencionais, parece que estamos a todo tempo praticando voyeurismo e bisbilhotando os jogos de poder e sedução que acontecem pelas paredes das majestosas construções. Em dado momento, o diretor usa da pouca luz para que a atuação de seu trio protagonista seja ressaltada.

As situações corriqueiras não fogem da loucura já características das obras de Lanthimos, mas aqui o diretor parece muito mais contido e seguro da história que quer contar. As vezes menos é mais e o diretor parece entender isso, ao deixar seu trio soberbo brilhar em cena. A Favorita é profundo em suas conjecturas, muitas delas refletidas no personagem vivido com maestria por Nicholas Hoult. Desprovido de amor, o diretor parece trilhar sua carreira pelo absurdo, e A Favorita pode não levar nada no grande prêmio do cinema, mas já mostra a evolução e amadurecimento de um grande cineasta.