AODISSEIA
Filmes

Crítica: O Sacrifício do Cervo Sagrado

O novo suspense perturbador de Yorgos Lanthimos.

14 de fevereiro de 2018 - 10:06 - Tiago Soares

Meu carinho com o diretor  Yorgos Lanthimos é mais que pessoal. Seu filme anterior The Lobster (O Lagosta), foi a primeira crítica que escrevi e foi publicada aqui no Odisseia. Ligações a parte, me impressiona o modo como o grego sempre surpreende em suas tramas absurdas. Desde Dente Canino, seu primeiro filme de destaque, passando por The Lobster (indicado a melhor roteiro original ano passado) e agora O Sacrifício do Cervo Sagrado, é de se admirar a coragem de Lathimos de brincar com o absurdo.

O diretor não poupa esforços em entregar um absurdo visual, mesclando posições de câmera de maneira pontual, ao mesmo tempo que cada palavra do roteiro sai de forma natural, por mais mundana que seja. Acompanhamos a jornada de Steve um cardiologista respeitado, casado com Anna e que tem dois filhos: Kim e Bob. Steve tem um grande apreço por Martin, um jovem cujo o pai morreu em cirurgia, exatamente quando Steve o operava. As relações se estreitam e Steve passa a aproximar Martin de sua família, até que em certo momento o garoto não recebe mais a atenção de outrora e acaba planejando uma espécie de vingança.

Como nada nos “mundos” criados por Lanthimos é tão palpável, somos jogados em uma trama amplamente metafórica. A importância da família e das relações é sempre abordado de maneira fria e não dando margem a sentimentos. O cinismo do diretor é uma de suas maiores qualidades. Eu não faço ideia de que tipo de mundo ou ambiente Lanthimos viveu, mas suas relações com certeza não foram das melhores.

O grego trata a humanidade como uma espécie de peso, desprovida de qualquer empatia ou cuidado com o próximo. O foco está justamente nas coisas que não importam como um simples jantar ou café da manhã do dia seguinte. Para trazer isso à tona nada melhor que Colin Farrell (figura carimbada do diretor) fazendo um papel daqueles inexpressivos (algo que afirmava sobre o ator antes , até ver outros trabalhos dele). Nicole Kidman é quem traz a sensação de importância, sem perder a frieza de uma mulher que se tornou o que é pelas consequências.

Quem rouba a cena é o Martin de Barry Keoghan. O ator e sua aparência peculiar ditam a narrativa, como se Lanthimos quisesse tornar seu filme mais estranho e com o perdão da palavra “despirocado”. Assim como na sua obra anterior, o drama está presente muito mais pela situação do que pelas atuações. O riso forçado e desagradável parece percorrer as obras do diretor, tornando O Sacrifício do Cervo Sagrado um retrato sobre o que é família e como o amor incondicional é interpretado.

Ao mesmo tempo, Lanthimos brinca com os erros do passado, sempre mencionando que eles vão voltar pra você na mesma medida. O diretor parece acreditar na lei da compensação e não tem receio de concluir suas obras em ambientes de caos. Não há finais felizes.