I Saw the TV Glow – Crítica | A nostalgia brilha

Eu lembro da sensação de pavor ao assistir ao episódio 51 da primeira temporada do “Castelo Rá-Tim-Bum” vendo o monstro-alienígena verde do Sr. Victor, munido apenas da desculpa de arrancar as crianças de frente da televisão. Assistia diariamente ao programa na TV Cultura, ao ponto de construir sozinho uma maquete do castelo para brincar. Mas o que eu quero dizer com este relato tão pessoal? Existe um momento na vida da criança e/ou adolescente em que ela deseja que o mundo do seu filme/série/programa de TV favorito seja o seu mundo. E isso pode acontecer por diversos fatores.

Em “I Saw the TV Glow“, por exemplo, mais novo filme de drama e suspense da prestigiada A24, essa perda da noção da realidade é consequência da negligência e da profunda conexão de uma amizade, marcada por gostos parecidos, quando se fazer amigos é uma tarefa um tanto quanto complicada. Jane Schoenbrun (“We’re All Going to the World’s Fair“, 2021) assume a direção e o roteiro, com Emma Stone na produção, além de Justice Smith (de “Observadores“, 2021) e Brigette Lundy-Paine (de “A Semente do Mal“, 2023) nos papéis principais.

Cena de "I Saw the TV Glow", novo filme da A24.
Foto: Reprodução.

A história é contada a partir de um ponto de vista de narrador-personagem (em alguns momentos), e segue a vida de Owen (Smith, e Ian Foreman como a versão jovem), um solitário rapaz do ensino fundamental que, num evento — chocho — da escola conhece a misteriosa Maddy (Lundy-Paine) e desenvolve uma curiosa aproximação, que os leva a um interesse comum numa perturbadora série de TV intitulada “The Pink Opaque”. Só que ficção e realidade se entrelaçam, Maddy desaparece e algo parece ameaçar o correr natural do tempo.

I Saw the TV Glowé um filme para ser sentido. A capacidade racional de compreensão pode ficar toda atrapalhada, mas o ser, enquanto um espectador, fica envolto, abalado e nostálgico com a crueza do filme. Não são “finais explicados” que fazem da obra o que ela é; mas o que ela é tem muito mais a dizer quando não se há explicação. Tendo isso em mente, o projeto é um deleite!

Foto: Reprodução.

Com um ritmo muito mais lento do que se costuma ver hoje em dia, a ambientação é minuciosa e pacientemente construída. Temos um excelente primeiro ato, com a apresentação de personagens multifacetados e dignos de nossa empatia, além de excepcionalmente críveis; um segundo ato ameaçador e estonteante; e um último completamente pirado, mas igualmente dramático.

A fotografia de Eric Yue evoca misticidade e envolve o filme numa paleta que transmite uma sensação única, ao passo que muito se aproxima das cores da bandeira bissexual. Além disso, a música consegue se encaixar perfeitamente em cada momento, com direto a uma participação da cantora Phoebe Bridgers, numa canção original (incrível, por sinal) com a banda Sloppy Jane, que entra num momento-chave da trama.

I Saw the TV Glowbrinca com as memórias de seus espectadores, do melhor jeito possível. Apesar de todos nunca gostarem sempre dos mesmos personagens, das mesmas histórias e filmes, todos sentimos um certo nível de saudade quando lembramos dos momentos de inocência da tenra idade. E mesmo com as diferenças, sempre tinha alguém (ao menos uma pessoa) com quem era possível se identificar, montando juntos, a partir disso, uma ideia de mundo que era menos cruel.

Foto: Reprodução.

Se o filme assume um argumento incrível é o de se debruçar sobre o decorrer da vida de seus protagonistas. Temos, portanto, personagens introduzidos como “fora do meio”, em consideração do contexto escolar, numa odisseia rumo a independência. E quando a única coisa que te faz ser alguém visível nesse mundo, visível para alguém, é um programa de TV? O dilema do medo da rejeição (principalmente pelo cenário familiar conturbado de cada um da dupla) é o centro e o motor de tudo o que acontece.

O programa “The Pink Opaque” não se torna uma alternativa de entretenimento, mas uma realidade e uma fuga, ao ponto de não ser possível mais distinguir o que é real do que é ficção; o que se acha que aconteceu do que realmente foi. Com isso, Schoenbrun constrói seu suspense dramático de identidade singular, mas de eficácia atordoante.

Brigette Lundy-Paine em "I Saw the TV Glow"
Foto: Reprodução.

I Saw the TV Glow” fala sobre aceitação, amadurecimento, nostalgia e identificação através de imagens intimistas e uma narrativa com margem para muitas interpretações. Com uma originalidade invejável, artifícios funcionais e muita dose de psicodelismo, retrata os maiores desafios e frustrações do indivíduo que é excluído por não seguir o ritmo do rio; enquanto, por outro lado, incentiva cada espectador a fazer brilhar aquilo que há de melhor dentro de nós.

 


“I SAW THE TV GLOW” AINDA NÃO TEM PREVISÃO DE ESTREIA NO BRASIL, MAS ESTÁ DISPONÍVEL PARA ALUGUEL PELA AMAZON.


 

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