Marinheiro das Montanhas – Crítica | Navegando por Dentro de Si

marinheiro das montanhas
Foto: Divulgação Gullane

Karim Aïnouz, cineasta brasileiro famoso por filmes como a Vida Invisível e Madame Satã, está prestes a lançar nas salas de cinemas (dia 28 deste mês) dois novos documentários, um deles é Marinheiro das Montanhas, um projeto intimista e de cunho profundamente pessoal que nunca perde a essência política tão característica de seu realizador.

Qual a trama de Marinheiro das Montanhas?

Com cinquenta e quatro anos Karim decide conhecer, pela primeira vez, a pátria de seu pai, com quem ele manteve pouco contato ao longo da vida. Durante a viagem, ele reflete sobre suas memórias de infância enquanto aproveita para tecer considerações sobre o cenário político do local no passado e no presente, traçando paralelos com a história de opressão e revolução do nosso Brasil.

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Foto: Divulgação Gullane

O que achamos do filme?

O documentário se apresenta como uma espécie de diário de viagem misturado com uma carta de amor para sua falecida mãe, por quem o diretor, claramente, nutre um carinho imenso. Ao passo que sua câmera tudo registra, ele nos narra suas experiências e impressões sobre os locais. Desde a travessia de barco até os momentos finais, ele nos descreve sua jornada na alfandega, os hotéis em que fica hospedado, as ruas e travessas percorridas, bem como as pessoas que encontra.

A narração em off (quando aquele que está falando não aparece em cena) é um recurso controverso no audiovisual, os mais puristas chegam a defender que jamais deveria ser utilizada por supostamente quebrar uma das regras do cinema “show, don’t tell!” (mostre, não conte!), segundo a qual realizadores competentes deveriam comunicar suas mensagens utilizando-se de elementos próprios da sétima arte (imagens, cores, sons), sem precisar narrar tudo para o espectador.

Mas bons cineastas conseguem quebrar essas regras, sem desperdiçar a magia do cinema, é o caso de Aïnouz, que usa a narrativa em off não para explicar obviedades ou descrever exatamente aquilo que está sendo mostrado em tela, mas sim para dar voz aos pensamentos e ressaltar o caráter íntimo de Marinheiro das Montanhas.

Outra escolha criativa que evidencia esse aspecto de pessoalidade é a escolha por uma filmagem quase caseira, mas não confunda caseira com amadora, a fotografia apesar de singela, é delicada e passa a sensação de que estamos ao lado do narrador, vendo aquilo com nossos próprios olhos. Em dado momento, uma senhora lhe pede para que ele mostre a beleza daquela vila e é exatamente isso que o diretor faz.

Apesar de ser uma empreitada particular, a experiência não é limitante, os sentimentos expressados tocam quem assiste e é possível se identificar, ou ao menos se sensibilizar, com o saudosismo em relação à mãe, a curiosidade pela juventude dos pais e a descoberta de suas próprias raízes.

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Foto: Divulgação Gullane

Os registros da viagem são alternados com fotos de família – nos momentos em que ele remanesce sobre suas vivências – e arquivos históricos – quando ouve relatos dos moradores ou tece comentários sobre o passado local. Essa segunda vertente do filme recorda os marcos temporais na trajetória da Argélia, debruçando-se em torno de questões políticas como imperialismo, revoluções e golpes de estado vividos pelo seu pai lá, enquanto sua mãe vivia aqui, a época da ditadura militar. Separados por um oceano, mas ambos resistindo contra o autoritarismo governamental e os reflexos da colonização – que ainda perduram nos dois lugares.

Mas a intenção, no entanto, não é transformar a obra em uma aula de história panfletária. Em suas andanças o diretor filma diálogos corriqueiros e conversa trivialidades com os moradores, trazendo as informações de forma natural para a discussão proposta, afinal o melhor retrato de um local são seus habitantes. Um belo exemplo disso é quando, ao visitar a aldeia de seu pai, um local afastado da capital, o cineasta é questionado se o filme passará na televisão, pois só assim aquelas pessoas conseguirão assisti-lo. Nenhum comentário adicional é tecido, apenas essa frase já basta para nos fazer refletir acerca do acesso à cultura em regiões marginalizadas, dispensando quaisquer considerações adicionais.

É lá, também, que ele conhece uma prima, que lhe conta a respeito da mitologia daquele povoado e como eles acreditam que o mundo tenha sido criado. A garota lembra-o de sua mãe e deixa-o encantado, ele, então, imagina dirigir uma ficção científica estrelada por ela. Vale mencionar esse encontro, porque essa é de longe a melhor passagem de Marinheiro das Montanhas.

Em uma obra de pequena escala, mas grande impacto, que combina passado e presente, Aïnouz parte de seu microuniverso para analisar e refletir sobre um macrouniverso, afinal nossas narrativas particulares não estão dissociadas de um contexto histórico, muito pelo contrário, somos o reflexo dessa ancestralidade.


Marinheiro das Montanhas chega ao cinemas no dia 28 de setembro

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