Heartstopper (1ª Temporada) – Crítica | Otimismo e leveza numa história de muitas cores

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Existe um “q” de “mesmisse” quando de fala em criar um enredo adolescente. Este, porém (e felizmente) não é o caso de Heartstopper, uma série fofa e descontraída que chegou fresca no catálogo da Netflix, quebrando a linha de produção que aposta no exagero dos clichês e nas previsibilidades. Um grande exemplo é mais recente temporada de Elite, que em nada inova no arco dos personagens e no universo criado como um todo, além de enfiar quase que goela abaixo atores e atrizes mais velhos interpretando jovens de dezessete, dezoito anos, acreditando ser possível criar uma mínima verossimilhança. Porém, parece existir algo ainda capaz de esquentar nossos corações no vasto acervo da plataforma.

Baseada numa graphic novel de mesmo nome, da autora Alice Oseman, que também assina o roteiro da série, Heartstopper acompanha a vida colegial de Charlie (Joe Locke) que, num certo dia, após as férias, acaba por conhecer o rapaz Nick (Kit Connor). E assim começa uma bela aproximação que vai se desdobrando até um pouco mais que a amizade.

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Foto: Reprodução.

Tudo bem que pode não ser o enredo mais original de toda a história, mas isso não é necessariamente um problema para o diretor Euros Lyn, que sabe bem como conduzir os episódios de uma forma cativante e quase que didática! Quase nunca um projeto que tenha um pano de fundo LGBTQIA+ consegue bem se desenvolver sem trazer um peso desenfreado, ou um melodrama, muitas vezes, desnecessário. Porém, ciente dos pesares e sem deixá-los de lado, a direção caminha para um lado mais otimista, ilustrando com cores, animações e dinamismo a jornada da autodescoberta.

Aqui temos o carisma do estreante Joe Locke, que vive um jovem confiante de si, apesar de ainda lidar com algumas sombras de discriminação e bullying. De um outro lado, vemos o já conhecido Kit Connor (“Rocketman“, 2019), apresentando-nos um rapaz confuso sobre sua identidade, aprendendo a lidar com a pressão e, indiretamente, a aceitação social. Dois talentos, com muita química em tela e que parecem viver cada momento que o roteiro pretende mostrar aos seus espectadores.

Não é de se estranhar, por exemplo, que, durante um episódio ou outro, faça-se uma associação com o longa “Com Amor, Simon” (2012), também baseado numa obra literária, mas que, como Heartstopper, prefere se ater no que é mais colorido. E por falar em cores, a direção de arte é excepcional, trazendo sempre uma paleta saturada e alegre, com cores vibrantes e de muito contraste, além de se unir com a montagem e criar únicas cenas que mesclam o live-action e o cartoon, trazendo a sensação de jovialidade e prestando homenagem ao tipo de arte que a série tomou como inspiração, numa brincadeira que lembra o clássico das tardes “Diário de Um Banana” (2010).

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Fonte: Reprodução.

Talvez o que possa soar incômodo é o fato que os oito episódios disponibilizados pela Netflix, são bem curtos, em comparação com outros seriados. Apesar disso, a história flui de forma muito natural, vai direto ao ponto e passa sua mensagem da melhor forma possível, tendo tempo ainda de sugerir subtramas, que podem, facilmente, serem mais exploradas numa próxima temporada. A interação do trio Elle, Tao e Isaac (Yasmin Finney, William Gao e Tobie Donovan, respectivamente) é crível e verdadeira, mesmo o personagem de Donavan não sendo tão aprofundado como os dos demais.

Uma agradável surpresa, é a participação da premiada Olivia Colman como Sarah Nelson, mãe de Nick. Mesmo que breve (tendo curtas linhas, em seis episódios), Colman consegue, com suas expressões e seu olhar, demonstrar ternura e acolhimento em pontos cruciais da vida do personagem de Kit Connor, sobretudo no episódio final, numa consolidação do apoio maternal/parental que deveria ser exemplo em todos os lares.

E Heartstopper não triunfa apenas numa direção criativa ou num elenco empático. A realidade, às vezes, não é tão alegre quanto pensamos que possa ser. Ainda são altas as taxas de morte de pessoas LGBTQIA+; ainda existe homofobia e transfobia em todo o país. Assumir-se ainda traz consequências que não mais deveriam existir. E a série retrata bem algumas dessas dificuldades, de forma branda, talvez, mas pelo menos “não-impossível“.

Se existe o bullying ou o preconceito com a sexualidade, também existe alguém disposto a lutar junto, rumo à autoconfiança; se existe a pressão por ser alguém que não é, também existe quem espere junto, para que tudo venha naturalmente, no momento certo.

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Fonte: Reprodução.

A grande lição de Heartstopper é valorizar o processo de autodescoberta, não insistir em vivermos às custas do que pensam, seja para manter amizades ou aparências. A vida só se torna mais colorida quando podemos expressar nossa forma de ser, pensar e agir. Sem amarras e receios. E nesse processo, não é se preocupar com os momentos cinzas que virão, mas visar os coloridos, que permanecerão, apesar de tudo.

Dito isso, Heartstopper é um romance adolescente fofo e eficiente, que, mesmo com aparência de “história batida”, comunica-se de forma madura e atualizada. Com uma direção dinâmica, muitas cores e criatividade, cria um exemplo social positivo e alcançável, a partir de um elenco cativante e emocional, ensinando que vivências autênticas não param corações; mas motivam.


Heartstopper já está disponível no catálogo da Netflix

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