AODISSEIA
Séries

Years and Years: Uma sessão de terapia em família

Um versão familiar de Boyhood que não esperou quinze anos pra encerrar as gravações.


1 de novembro de 2019 - 01:54 - Flávio Pizzol

Uma das grandes minisséries dos últimos anos, Years and Years mistura política, diversidade, tecnologia e vida familiar da maneira mais honesta e impactante possível.


Temos que admitir logo de cara que 2019 foi um grande ano para as minisséries. Tanto que seria quase impossível listar todas as “produções curtas com histórias fechadas” que geraram barulho, conquistaram o coração do público ou chamaram a atenção da crítica especializada. No entanto, dentro desse bolo que nos apresentou obras-primas do nível de Olhos que Condenam e Chernobyl, ainda existe espaço para muitos programas incríveis passarem despercebidos. E esse talvez seja o caso da maravilhosa Years and Years.

Posicionada narrativamente em um futuro próximo ao nosso, a história acompanha as transformações sociais, políticas, tecnológicas e econômicas do mundo através do ponto de vista de uma família britânica de classe média-alta. Conectados pela avó, os membros super diversificados dos Lyons precisam sobreviver às imposições de uma sociedade cada vez mais restritiva, enquanto enfrentam tanto dilemas pessoais, quanto a ascensão de uma extremista ao poder.

Entendo que a premissa possa parecer simplória ou repetitiva, porque eu mesmo achei isso quando li sobre a série pela primeira vez. No entanto, as críticas positivas me levaram até a obra e o resultado torceu meu braço de uma maneira tão poderosa que senti a necessidade de espalhar a palavra por aqui. Só que, considerando os pontos negativos quase inexistentes de Years and Years, eu decidi fugir do comum e organizar a crítica em tópicos que reúnam bons motivos para mergulhar nesse universo distópico mais realista do que gostaríamos.


Um universo de textos ricos e previsões assustadoras

“Este mundo fomos nós que construímos”

Em primeiro lugar, acima de qualquer coisa que será falada nesse texto, precisamos deixar claro que a minissérie criada e inteiramente escrita por Russell T. Davies (Doctor Who) conta com um dos roteiros mais ricos, ácidos e bem construídos do ano. Uma rede de tramas interligadas que mergulha em um convívio familiar muito comum dentro da nossa sociedade e usa o futuro para analisar o nosso presente, funcionando ora como uma sessão de terapia em grupo, ora como um aviso sobre como nossas decisões atuais influenciam o futuro.

No primeiro caso, temos um texto que engloba inúmeros assuntos que fazem parte do nosso dia-a-dia dentro e fora de casa. Sem parecer rasa em nenhum instante, Years and Years funciona como uma reunião de relatos – afiados e extremamente honestos – que misturam política, problemas econômicos, traição, paternidade, casamento e mais alguns temas bem atuais através dessa ideia de que tudo está conectado de alguma forma. É quase uma representação narrativa da lei de Newton que fala sobre ação e reação, já que qualquer escolha vai ter uma consequência seja no seu convívio familiar ou no mundo.

Ao mesmo tempo, Davies preenche seu roteiro com elementos tecnológicos, futuristas e distópicos que não só remetem ao seu trabalho em Doctor Who, como também revelam um ótimo analista sociopolítico. Isso porque, além de um retrato honesto sobre uma família britânica, Years and Years cumpre seu papel de ficção científica quando se trata de tecer previsões acerca do nosso futuro como sociedade. Entre discussões sobre “deepfake” e paralelos com refugiados, a série parece chegar tão perto daquela que pode ser a realidade dos próximos anos que amplia a experiencia como algumas doses muito bem-vindas de drama e até terror. A parada é tão certeira que a produção foi acelerada por medo de algumas das previsões se tornarem reais


Um quebra-cabeça muito bem montado

“Para onde eu estou indo não existe vida ou morte. Só existem dados”

Apesar da direção dividida por Simon Cellan Jones (Jessica Jones) e Lisa Mulcahy (Red Rock) não tentar fugir do básico na maior parte do tempo, Years and Years funciona com tamanha perfeição graças a uma montagem certeira da dupla Billy Sneddon (Veep) e Jonathan Lucas (A Noiva Cadáver). Afinal de contas, estamos falando de um projeto ambicioso que depende, querendo ou não, do desenvolvimento de diversas linhas narrativas e personagens em apenas seis episódios. Em outras palavras: é um projeto que tinha tudo para ficar embolado.

O resultado só não acaba sendo justamente esse, porque o texto e a edição sabem muito bem o que precisa ser mostrado para chegar ao seu objetivo central. A união precisa dessas duas partes permite que as histórias sejam muito bem comprimidas, garantindo que apenas um frame tenha força suficiente para retratar momentos de grande importância. Tudo costurado com alta classe por transições seguras como as grades dos bairros violentos, um ritmo que prende a atenção do espectador sem nenhum esforço e ótimos paralelos visuais que agrupam tramas completamente distintas de acordo com a similaridade temática.


Um espacinho onde diversidade está garantida

“Deixe as pessoas decidirem, mas só os inteligentes”

Diferente do que a personagem responsável pela frase acima prega, Years and Years não separa seus personagens por conta de uma única – e idiota – característica. Muito pelo contrário, a série faz questão de incluir o máximo de diversidade possível em sua história. Ou seja, entre as dezenas de personagens que ganham alguma importância durante os seis episódios é possível encontrar homens, mulheres, brancos, negros, ateus, religiosos, homossexuais, heterossexuais, idosas preconceituosas, cadeirantes, chineses, refugiados e até mesmo terra planistas. Considerando que um dos objetivos da série é analisar a nossa sociedade através de um olhar futurista, Years and Years acerta em cheio quando decide mostrar o mundo como ele é.

Ao mesmo tempo, por motivos mais do que óbvios, isso permite que a série retrate diversas vozes e se conecte com parcelas diferentes dos espectadores. No entanto, se engana quem pensa que o roteiro só faz isso para lacrar, seguir tendências ou ampliar seu público. Além de adicionar esse tal toque de realidade ao contexto da série, a diversidade se torna um tema realmente importante no decorrer dos episódios. Ela faz parte das discussões  entre os personagens, ganha novos contornos com a questão dos refugiados e ainda exige que alguns dos protagonistas criem reflexões morais em torno do tema para que a família possa se entender. Afinal, querendo ou não, todos fazem parte dos Lyons…


Camadas, camadas e mais camadas

“Absolutamente tudo que deu errado é culpa de vocês”

Outro trunfo de Years and Years está certamente ligado ao fato de que tanto a história quanto os personagens possuem inúmeras camadas dentro de suas respectivas construções narrativas. Por mais que a série seja bem direta e se desenvolva sem muitos rodeios, o texto vai apresentando novas informações, características ou peças no decorrer dos episódios com o objetivo de movimentar a trama, atiçar a curiosidade e manter a atenção do espectador ligada o tempo todo. É funcional e ligeiramente viciante acompanhar as surpresas e reviravoltas que cada camada reserva para os protagonistas.

Simultaneamente, a série ganha muitos pontos por conseguir criar personagens que pareçam seres humanos de verdade. No universo criado por Davies, todos são multidimensionais e evoluem junto com a narrativa por menor que seja o seu papel. Esse realismo onde ninguém é completamente bom ou mal cumpre seu papel na construção de uma ligação complexa entre eles, mas também ajuda na conexão do espectador com os tipos retratados na tela. Afinal, eles acertam, erram, guardam rancor, perdoam e tem dúvidas com qualquer pessoa da vida real.

O Stephen, por exemplo, faz um percurso que transforma um possível pai do ano em um sujeito facilmente odiável. Ele parece ser alguém burro que não aprende com os próprios erros, mas nunca chega ao ponto de ser um Barry Allen unidimensional e parado no tempo. O texto desenvolve o personagem com muito cuidado, colocando as motivações dele na mesa para o espectador compreenda suas escolhas. Você pode não concordar, mas entende as condições sociais e as linhas de raciocínio que o levaram até ali.


Uma família de verdade

“Sabe qual é a coisa mais estúpida que você pode fazer? Se apaixonar por um Lyons”

É lógico que no centro de tudo isso está a família Lyons e seus gloriosos intérpretes, visto que boa parte da complexidade oferecida por Years and Years se perderia sem um elenco tão bem escolhido. E em primeiro lugar, no meio de tantos nomes que compõem o núcleo principal, vale destacar a maneira como Anne Reid (Boneco de Neve) conecta todas as peças como a matriarca ácida da família Lyons. Ela fala o que dá na telha sem pensar muito e ganha alguns pontos na escala de ódio por isso, mas também acaba sendo amável, justa e muito preocupada com os seus parentes. Um exemplo de complexidade que, mesmo com algumas falas preconceituosas, nunca perde a chance de ajudar sua família.

Entre as gerações seguintes, o destaque fica com a personalidade cheia de opostos construída por Rory Kinnear (Penny Dreadful); o sarcasmo justificável de Ruth Madeley (Brexit); o fôlego incansável e apaixonante de Jessica Hynes (Todo Mundo Quase Morto); o amor incessante que coloca Russell Tovey (Flash) no posto de exemplo a ser seguido; a presença de cena poderosa que acompanha todas as cenas de T’Nia Miller (Obediência); a versatilidade dramática de Maxim Baldry (As Férias de Mr. Bean); a solidariedade que exala das participações de Sharon Duncan-Brewster (Sex Education); e as habilidades de conexão que extrapolam a tela do computador graças ao carisma da novata Lydia West.


O lado absurdo da política de Years and Years

“Sabe como é a gestão dela? Um caos total. Eles não esperavam ganhar. São idiotas, cara. Não existe plano, nada. Só pânico”

Em paralelo, Vivienne Rook funciona como uma espécie de antagonismo relativamente maniqueísta em relação a Inglaterra e ao mundo. Representando os problemas que podem ser gerados pelo extremismo, ela é uma versão satírica de Donald Trump que, por coincidência ou não, repete muitas das características que os brasileiros podem reconhecer num tal de Jair Bolsonaro que surgiu do nada para vencer nossas eleições de maneira um tanto quanto improvável.

E caso você precise de alguns exemplos comparativos, Viv Rook (assim como Trump e Bolsonaro) constrói seus argumentos a partir de generalizações esdrúxulas, ganha discussões através de gritos ou frases de efeito por não ter preparação para falar sobre coisas técnicas básicas, faz promessas que não condizem com seu cargo, usa as tão conhecidas fake news sem nenhum pudor, foge dos debates e ainda cria seu canal de comunicação particular para mostrar a verdade supostamente escondida pela imprensa.

Paralelos absurdos e assustadores que a grande Emma Thompson (Razão e Sensibilidade) domina com uma precisão fantástica. Sua composição revela uma mulher sem limites que se divide entre a ambição e a imbecilidade, enquanto toma decisões fascistas que destroem a sociedade britânica de dentro pra fora. Entretanto, é impossível negar que Emma também carrega consigo doses de charme e carisma que justificam suas vitórias. Ao contrário de suas inspirações reais, ela realmente sabe como falar e convencer as pessoas de que se trata da única opção.


Apenas decisões corajosas (de verdade) são permitidas

“Cuidado com esses homens. Os piadistas, os trapaceiros, os palhaços. Rindo vão nos levar ao inferno”

No entanto, acima de qualquer elemento discorrido nesse texto, o principal trunfo de Years and Years está ligada a coragem presente nos momentos-chave da narrativa. Isso significa que, mesmo passando por alguns caminhos clássicos e pouco inventivos durante o desenvolvimento narrativo, o texto não perde a chance de chocar o espectador com escolhas inesperadas e emocionantes que tiram a série de um ostracismo quase inexistente.

Seguindo o que costuma acontecer na vida real, o roteiro de Davies não tem medo de abraçar o inesperado, tomar decisões corajosas e dar algumas porradas bem grandes no espectador. Você se prende aos personagens, torce por eles e, gostando ou não, precisa vê-los enfrentar o mundo sem garantias de vitória. E esse acaba sendo o tempero que finaliza da maneira mais poderosa possível essa sessão de terapia cheia de estruturas complexas, personagens maravilhosos e previsões que deveriam deixar qualquer ser humano com medo. Uma aula de narrativa emocionante e reflexiva que coloca Years and Years entre os destaques absolutos de ano incrível.