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X-Men: Fênix Negra – O final mais genérico e blasé possível

Sabe aquele filme que só pode ser classificado como "mé"? Então...


12 de junho de 2019 - 02:38 - Flávio Pizzol

Antes de começar essa crítica, convido todos os leitores a viajarem comigo para o ano de 2006. Mais especificamente para o momento em que a tão conhecida e valorizada Saga da Fênix foi utilizada em segundo plano como parte da conclusão da primeira trilogia dos X-Men. Uma adaptação que não fazia jus ao brilhante material original e acabou se tornando um dos filmes de heróis mais odiados dos últimos anos. Agora, treze anos depois, chegou a hora de Jean Grey e seu alter-ego ganharem o foco sob a promessa de que o grande fã Simon Kinberg conceberia uma trama muito mais completa e fiel. No entanto, a verdade é que, surpreendendo um total de zero pessoas, X-Men: Fênix Negra não passa de um filme genérico, repetitivo e vazio que precisava de muito mais tempo para existir.

Essa contextualização faz com que seja muito fácil colocar toda a culpa no próprio Kinberg (que esteve aqui na CCXP e repetiu a promessa acima com todas as letras), mas isso seria inegavelmente injusto. A grande questão aqui é que a maior parte das coisas que fazem falta na nova jornada da mutante mais poderosa da história em busca de autocontrole (e essa é basicamente a sinopse) deveriam ter sido construídas anteriormente. Com isso, mesmo adicionando vários elementos que remetem aos quadrinhos e completam a história de maneira agradável, a ausência de coerência no desenvolvimento dos personagens é decisiva na entrega de um filme sem sustentação emocional.

fênix negra fera magneto

A maior consequência disso é que vemos um esforçado Simon Kinberg estrear na direção com suas mãos completamente atadas. É claro que o fato do roteiro também ser escrito por ele acaba mantendo várias dessas parcelas de “culpa” nas suas costas, mas não dá pra ignorar que X-Men: Fênix Negra ainda é o ponto onde culminam todas transições questionáveis que cercaram o arco da Mística desde Primeira Classe, a formação rasa do amor entre Jean e Ciclope, as sugestões mal aproveitadas e a inexistência de um senso de família entre os mutantes. Elementos essenciais dos quadrinhos que fazem muito mais falta do que a Mística vilã ou o triângulo amoroso com o Wolverine.

É a supressão dessas coisas que constituem a essência da Saga da Fênix é o que tornam esse filme pobre e vazio, reduzindo até mesmo os caminhos que o roteiro poderia trilhar pra tentar se salvar. Sem opções viáveis, o texto segue seu percurso simplório e genérico onde repete padrões (alguém tenta perseguir a Jean, ela se rebela e isso gera alguma consequência violenta), cai em clichês que vão das reviravoltas óbvias até as frases que já foram usadas em outros mil filmes e desperdiça toda a subtrama dos aliens ao reduzi-los a um grupo que visa a dominação planetária. E por mais que esse elemento espacial continue sendo uma novidade muito bem-vinda dentro da franquia, a apresentação corrida dos fatos, a exposição barata e os personagens sem empatia não mexem com a torcida do público, não geram medo e não funcionam como antagonistas decentes.

fênix negra ciclope xavier james mcavoy

O resultado, como já vimos em algumas outras ocasiões, é um longa anti-climático que não consegue cumprir seu papel de conclusão com eficiência. Não vou negar, por exemplo, que as refilmagens organizadas pela Disney após a compra da Fox podem ter atrapalhado o todo, mas vou repetir que é possível sentir falta de um arco bem planejado. Os quadrinhos idealizam a Fênix como a maior vilã das histórias até ali, apresentando a mesma com uma calma muito parecida com aquela que o MCU mostrou ter com Thanos. Não estou defendendo que o Kevin Feige poderia ter feito isso direito ou qualquer coisa do tipo, porém admito que fiquei pensando se o tempo não poderia influenciar na forma como a raça alienígena é jogada dentro da trama, as ameaças propostas não apresentam nenhum perigo real e os possíveis momentos de impacto passam sem arrancar nenhuma lágrimas, vibrações ou qualquer outra emoção.


Leia mais

– A quinta edição do Dropseia falu sobre o primeiro trailer de X-Men: Fênix Negra. Confira aqui!

– Nós fizemos um texto sobre o painel da Fox na CCXP. Dá uma olhadinha aqui.


Por isso fiz questão de começar esse texto dizendo que seria um tanto quanto injusto colocar toda a culpa na direção de X-Men: Fênix Negra. Como eu já disse, Kinberg realmente se esforça no trabalho por trás das câmeras, faz algumas escolhas positivas dentro do visual e constrói sequências de ação que funcionam em uma análise separada de toda a experiência. A questão é que tudo está guardado dentro do mesmo saco e nenhum desses acertos consegue superar justamente o vazio emocional deixado pelo longa. O longa escolhe ser indiferente em relação a si mesmo, passar longe de qualquer sentimento e essa é a receita para ser esquecido.

fênix negra x-men mutante

E essas escolhas, obviamente, fazem com que até o elenco – sempre elogiado nos filmes do X-Men – tenha que suar mais do que o normal para tirar algo interessante do texto. Sophie Turner (Loucura do Tempo) é quem opera a maior quantidade de milagres na tentativa quase suicida de adicionar camadas a jornada da Fênix Negra e extrair algum peso de uma metáfora com a esquizofrenia que o roteiro cita quase como um easter egg. James McAvoy (Vidro) também coleciona acertos na apresentação de um lado mais “cinza” do Professor Xavier. Tye Sheridan (Jogador Nº 1), Alexandra Shipp (Com Amor, Simon), Michael Fassbender (Steve Jobs) e Nicholas Hoult (A Favorita) ocupam o segundo plano, mas são presenteados com bons momentos nas rápidas discussões sobre aJean e nas atuações em conjunto dos mutantes. E até Jennifer Lawrence (Passageiros) consegue emendar algumas falas decentes antes de encerrar uma participação que já vinha sendo marcada por um bocado de má-vontade.

No entanto, mesmo com esses acertos razoáveis, várias ressalvas precisam ser feitas em relação ao elenco. Muitos mutantes chegam muito perto de passar despercebidos porque seus arcos são dependentes de elementos que o roteiro pincela na velocidade da luz, alguns personagens (especificamente Mercúrio e Noturno) continuam sendo peças importantes para a ação cujos os arcos beiram o ridículo ou o incoerente, e outros seres revelam, no mínimo, um péssimo trabalho de casting. E, sim, eu estou falando de Jessica Chastain (A Grande Jogada) sendo completamente desperdiçada em um papel pobre e vazio que qualquer outra atriz poderia interpretar sem criar expectativas que seriam eventualmente quebradas.

fênix negra sophie turner jessica chastain

E talvez seja essa pobreza narrativa tão repetida no texto que resuma X-Men: Fênix Negra como um todo. Afinal de contas, estamos falando de uma produção que não gera nenhum tipo de questionamento, reflexão, diversão ou vibração dentro de um contexto de encerramento. Um longa que, mesmo não sendo o pior exemplar da franquia, passa longe de ser uma despedida que faça jus a importância que os X-Men tiveram para a indústria do entretenimento. Um filme que tecnicamente pode nem ser tão pavoroso assim, mas escorrega feio ao escolher os caminhos mais genéricos possíveis e acaba padecendo dentro de um vazio digno de um filme que sequer precisava existir. Infelizmente…


OBS 1: Todo mundo já sabia que a maquiagem da Mística estava piorando a cada filme graças a vaidade de Jennifer Lawrence, mas convenhamos que a preguiça passou do limite aqui.

OBS 2: Ainda tô tentando engolir aquela versão assassina do Noturno que surge do nada no terceiro ato…

OBS 3: Como diria nossa amiga Adrielli (sigam ela no Twitter aqui e aqui), um filme dos X-Men sem um único “Oh Scott” não tem como ser bom…