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Westworld 3 expande o universo na tentativa de se renovar, mas só consegue imitar Person of Interest e provar que não tem muito mais pra falar.


As primeiras temporadas de Westworld pareciam estar conectadas em torno de um produto bastante original. Algo que, mesmo sendo uma refilmagem do longa homônimo de 1973, poderia se tornar algo original dentro da televisão. No entanto, as coisas saíram do controle com o passar do tempo (quem ler meus textos anteriores – aqui e aqui – vai perceber como eu fui gostando cada vez menos). A série foi se perdendo em suas próprias linhas temporais e enfraquecendo a parte filosófica de sua narrativa até começar sua reinvenção através da expansão do universo. O problema é que esse novo capítulo pode ser resumido como uma cópia básica do melhor trabalho de um dos seus criadores.

Em outras palavras; Westworld 3 apresenta diversos elementos inéditos dentro do seu universo particular e tira a série do seu status quo, porém não consegue fugir do Jonathan Nolan já havia feito em Person of Interest.

“Ah, mas eu não sei o que é Person of Interest…”

westworld 3

Tudo bem. Isso não é estranho, porque estamos falando de uma série procedural (aquelas com o caso da semana) de televisão aberta que nunca fez parte dos streamings disponíveis no Brasil ou foi indicada a muitos prêmios importantes. Ainda assim, estamos falando de uma série muito boa que, graças ao trabalho de J.J Abrams como produtor, ressuscitou uma dinâmica que fez sucesso em Lost: os fóruns de discussão onde fãs se reuniam pra conversar sobre as pistas deixadas em cada episódio. Algo que a própria primeira temporada de Westworld também fez muito bem.

A parada é que a história de Person of Interest possui muitas similaridades com a trama de Westworld 3.

Para quem nunca ouviu falar sobre a série em questão, ela acompanhava um programador cheio da grana e um ex-agente da CIA em missões que tentavam impedir crimes revelados antecipadamente por uma inteligência artificial que vigiava – em segredo – os EUA inteiro depois dos ataques de 11 de Setembro. Um tema delicado, mas bastante atual que, desde 2011, dialogava com vários elementos e conceitos filosóficos importantes para Westworld. Principalmente nessa terceira temporada…

westworld 3

Só pra listar algumas das maiores similaridades, já tínhamos inteligências artificiais que sabiam tudo sobre as pessoas. Tínhamos máquinas que sussurravam no ouvido de seus mestres o que precisava ser feito para que os objetivos fossem conquistados. Tínhamos máquinas lutando entre si com o objetivo de causar ou evitar o fim da humanidade. Tínhamos reflexões sobre a humanidade presente em máquinas, robôs ou IA’s. Tínhamos inclusive essa mesma discussão filosófica em torno da dicotomia controle x liberdade que assume papel central em Westworld 3.

Muitas dessas repetições já existiam no começo dessa jornada na HBO, mas pareciam ser só um gosto pessoal do irmão mais novo de Christopher Nolan. Assim como Damien Chazelle gosta de falar de música, ele gosta de falar de robôs, inteligências artificiais e mundos vigiados. E tá tudo bem. Até mesmo porque, nessa época, Jonathan aproveitava o frescor de mentes novas (incluindo sua esposa, Lisa Joy) e a verba de um canal fechado pra construir dicotomias interessantes, mexer com a cabeça do espectador e entregar uma série que merecia atenção. O problema é que ele parece estar se esvaziando e voltando para um ponto que já havia investigado com muito mais profundidade e qualidade.

É claro que quem nunca assistiu Person of Interest não vai se incomodar com esses detalhes ou sofrer com esse “autoplágio”. Da mesma forma que quem não tinha assistido os longas antigos do Scorcese não se incomodou com as imitações impostas por Todd Phillips em Coringa. Algo natural, mas que não tira a validade do que estou dizendo porque tal repetição não está ligada apenas a Person Of Interest. Se você assistir qualquer outra obra que siga a mesma temática, vai perceber que Jonathan Nolan não chega perto do ápice estipulado pelas primeiras temporadas de Westworld. Ele fica estagnado nesse ponto que já foi explorado em pelo menos cem obras anteriores.

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As cenas de ação continuam incríveis. A direção de arte derruba o queixo de qualquer um. A trilha sonora composta por Ramin Djawadi (Game of Thrones) preenche a série com diversos sentimento através de suas notas. Os episódios em si são, de fato, visualmente deslumbrantes, mas a filosofia por trás de tudo acaba não entregando algo novo ou impactante. O que, de maneira mais clara e direta, transforma Westworld em uma série rasa que fala, fala e fala sem falar alguma coisa importante. Ou, se preferir: roda, roda e não não sai do lugar.

Eu já cantei na crítica da temporada anterior que isso poderia acontecer aqui em Westworld 3. A fórmula já mostrava sinais de desgaste e o texto parecia um cachorro correndo atrás do próprio rabo até os últimos minutos explodirem a cabeça do espectador. O problema é que aqui não existe esse jogador surpresa que salva a temporada quando o apito está prestes a soar, e isso acaba escancarando os problemas de um roteiro cheio de clichês, convenções narrativas, coincidências, Deuses Ex Machina (ironicamente) que apresentam parques de última hora, soluções fáceis e discussões pouco extraordinárias. 

Nesse contexto apenas eficiente, o elenco acaba recebendo a missão de equilibrar a balança. Evan Rachel Wood (O Seu Jeito de Andar) é uma força da natureza que convence qualquer espectador a segui-la igual o Caleb. Thandie Newton (2012) luta pra manter a harmonia entre força e vulnerabilidade, enquanto se torna uma personagem sem objetivos. Ed Harris (Mãe!) mantém a loucura em dia, mas vê seu personagem perder a importância aos poucos. Tessa Thompson (Vingadores: Ultimato) aprisiona o olhar do público em cada aparição como uma Charlotte Hale cheia de emoções. E Vincent Cassel (Jason Bourne) transmite o sendo de ameaça com precisão até revelar suas motivações pouco convincentes.

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Atores incríveis que se dedicam e fazem o possível com o material que receberam, porém não tem força suficiente para segurar uma trama que se torna cada vez mais batida e menos inspirada. O novo protagonista, Caleb, é um bom exemplo disso. Aaron Paul (El Camino) faz um bom trabalho, mas não isso não muda nada no fato de que seu personagem esconde a trama mais clichê de todos os tempos em suas memórias bagunçadas.

É verdade que essa temporada deixou um pouco da pretensão de lado e apostou na criação de um tempo mais linear, porém preciso dizer que Nolan e Joy não conseguiram resistir completamente. O texto não só mantém essa essência confusa na apresentação de Caleb, como faz isso da maneira mais desnecessária possível. Porque a verdade, no final das contas, é só uma: ele é um personagem comum, sem nada demais.

Não adianta bagunçar todas as peças quando estamos falando de um quebra-cabeça sem graça, sem carisma e sem impacto. As temporadas anteriores eram prepotentes, mas pelo menos entregavam uma catarse decente ao invés de um personagem sem fôlego para ser protagonista, escancarando justamente a falta de propósito dessa estrutura narrativa.

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E é por isso que ele funciona como um exemplo desse roteiro falho que não chega a lugar nenhum, nem convence no lado emocional. Eu não me conectei com ele ou com a trama proposta por Westworld 3, porque nunca senti verdade no que estava assistindo. Um dos poucos personagens que conseguiu me transmitir alguma emoção no último episódio foi o Bernard. Mas tenho quase certeza que a culpa recai mais sobre o trabalho sempre incrível de Jeffrey Wright (Dias Sem Fim) do que no roteiro, considerando que ele arranca leite de um plot completamente vazio.

Só que isso não é suficiente para uma série do porte de Westworld. Essa não é uma recompensa digna pra quem ficou assistindo os oito episódios longos, repetitivos e muitas vezes arrastados dessa temporada. Nolan e sua equipe até tentam criar algum impacto escalando membros do elenco de Person of Interest ou colocando Pink Floyd pra tocar na última sequência, mas só comprovam de vez que estão criando uma autocópia sem rumo certo. Admito que isso pode ser um efeito do caráter transitivo de Westworld 3, mas estou pendendo mais pra possibilidade da série não ter muito mais pra dizer…


OBS 1: Person of Interest é uma das minhas séries favoritas e, mesmo pouco conhecida, conquistou um lugar merecido na nossa lista de Séries da Década.

OBS 2: Curiosamente, Westworld também está na mesma lista graças ao fato da votação ter acontecido antes dessa temporada.

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Westworld (3ª Temporada)

6

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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