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Filmes

Verão de 84 – Uma dose de nostalgia, sangue e surpresas

Sendo uma verdadeira mistura de gêneros, terror independente surpreende por suas camadas escondidas.


11 de setembro de 2019 - 10:46 - Flávio Pizzol

Lembre-se: todo assassino em série é vizinho de alguém…


Um terror independente muito parecido com Stranger Things que foi exibido pela primeira vez em Sundance quase dois anos antes de sua estréia oficial não é exatamente uma obra que cria muitas expectativas. E, de fato, uma olhada rápida no material promocional deixa a sensação de que Verão de 84 não passa de mais uma produção padronizada que aproveita a nostalgia dos anos 80 como plano de fundo para histórias adolescentes. E, por mais que uma parte dele realmente pegue carona nesse espírito, a mistura de gêneros bem conduzida, o visual apurado e as surpresas escondidas nas entrelinhas o transformam em algo bem mais interessante.

O longa – escrito pela dupla de iniciantes Matt Leslie e Stephen J. Smith – mistura essa vibe nostálgica (que parece ser obrigatória atualmente) com algumas pitadas de medo constante e teorias da conspiração para contar a história de quatro adolescentes que começam a investigar um dos vizinhos após desconfiarem que ele pode ser um temido serial killer que aterroriza a região há mais de um ano.

O roteiro segue um caminho simples e básico que, enquanto abraça propositalmente alguns clichês típicos da sétima arte, se divide em duas partes através de sua temática. De um lado, Verão de 84 pode ser visto como um daqueles clássicos coming age movies que falam sobre crescimento e ritos de passagem para a vida adulta, substituindo a formatura ou a última festa do ensino médio por uma última grande “brincadeira” entre amigos. E, apesar da carga mais sombria tentar roubar o lugar da leveza comum nesse subgênero, é muito fácil localizar inúmeros estereótipos e padrões dignos de John Hughes e sua turma.

No entanto, mesmo gostando muito do que o filme se propõe a fazer, eu preciso admitir que esse é o ponto onde está localizado o elo mais fraco da narrativa: os personagens, em sua maioria, estereotipados. O texto parece estar mais interessado na criação de um contraste entre os adolescentes preparados para enfrentar qualquer coisa e os pais que usam as chances da Guerra Fria acabar com o mundo como desculpa para se desligar da realidade, do que na oportunidade de realmente explorar a vida dos protagonistas. Uma opção que até aponta para direções interessantes, mas revela diversos pequenos problemas em relação a distribuição de importância entre os quatro amigos, a construção de backgrounds que não influenciam a trama de verdade e o uso extremamente pobre da menina que assume o perfil de “garota mais velha endeusada pelo protagonista”.

Entretanto, do outro lado da moeda, Verão de 84 acerta em cheio e se apresenta como um thriller que sabe usar os clichês na construção da tensão. É muito interessante notar a maneira como o roteiro usa com eficiência a repetição de escolhas comuns dentro do gênero e as referências de moralidade do público como parte da narrativa a partir do momento em que decide atrasar a entrega de provas conclusivas contra o possível assassino. Sem muita pressa, Leslie e Smith flertam com a ideia de ser só a imaginação do garoto ao mesmo tempo em que abrem espaço para que aquela seja uma realidade muito assustadora, usando a percepção do próprio espectador para conduzir a trama de maneira nublada. Em outras palavras: as crenças e supostos conhecimentos cinematográficos de quem está assistindo podem tanto colocar o “suspeito” – muito bem interpretado por Rich Sommer (Wet Hot American Summer) – no papel de assassino, quanto o inocentar em prol, por exemplo, da espera por uma reviravolta natural nesse tipo de produção.

Essa é uma sacada que ajuda muito no desenvolvimento da relação entre os protagonistas-mirins e na manutenção constante do suspense, porém não transforma o roteiro em algo especial ou fora do comum. Isso porque, na verdade, o texto aqui serve mais como uma espécie de palanque simples onde os quase iniciantes François Simard, Anouk Whissell e Yoann-Karl Whissell (responsáveis como equipe por Turbo Kid) podem exibir seus talentos como diretores independentes. E, considerando o orçamento do filme e tudo mais, é realmente difícil negar o fato de que o trio faz sim um ótimo trabalho de criação visual.

O design do bairro, o granulado da fotografia, a trilha sonora sintetizada, a câmera passeando lentamente pela rua e o bom aproveitamento espacial na construção da tensão são algumas peças que acabam se destacando dentro da forma como o trio (uma formação incomum no cinema) explora a nostalgia presente no verão de 84, transita pelos diversos gêneros propostos sem perder a fluidez e conquista o espectador – de uma vez por todas – com a entrega de ótimas sequências de suspense. Só pra exemplificar, digo que o diálogo do protagonista com o possível assassino na entrada da casa logo depois que a espionagem é revelada talvez seja um dos momentos mais tensos de 2019.

Isso sem contar com uma sequência final que funciona quase como coroação da união entre direção assertiva, roteiro eficiente e atuações seguras (incluindo os adolescente e outros rostos pouco conhecidos), reunindo todos os elementos narrativos e técnicos nos quinze minutos finais mais surpreendentes e alucinantes dos últimos anos. É lógico que não cabe a minha pessoa destrinchar o que acontece, mas posso adiantar se trata de um momento que conecta – de maneira precisa, por sinal – a ideia desse rito de passagem que vai muito além do beijo na garota com doses generosas de terror psicológico, gore e coragem.

Mais do que isso, esse é o momento onde o filme amarra suas pontas, mostra seu verdadeiro objetivo e deixa claro que passa longe de ser apenas de uma grande homenagem a Janela Indiscreta, Super 8 ou Conta Comigo. É verdade que a narração in off força um pouquinho a barra durante a conclusão, mas isso não muda o quanto Verão de 84 mexe com a mente do espectador quando revela sua ânsia de ser tanto um retrato metafórico do medo constante que permeava a época, quanto um estudo sobre a possível proximidade dos assassinos. E num mundo onde diversos criminosos usam seu charme pra se misturar na sociedade ou até mesmo alcançar posições de poder, não existe terror maior do que perceber “como é fácil um lobo se vestir em pele de cordeiro em uma cultura na qual o belo é bom e o feio é mau” (Ilana Casoy).