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Cheio de identidade, Um Dia com Jerusa dialoga sobre temas como memória, negritude e velhice de maneira simples, porém poderosa


Será que um único dia pode mudar uma vida toda?

Eu lembro que em, A Piada Mortal (sim, a clássica obra de Alan Moore e Brian Bolland), o Coringa tentava comprovar que um dia muito ruim poderia deixar qualquer pessoa louca. É claro que Um Dia com Jerusa não tem nada a ver com histórias em quadrinhos, mas, se você tirar o fator caótico que guia o vilão da DC, pode encarar ambos como uma análise das influências geradas por um dia específico.

A diferença, como já deve ter ficado claro, é que o longa de Viviane Ferreira se propõe a criar um retrato singelo do cotidiano de duas mulheres negras para mostrar que esse único encontro, organizado pelo acaso, pode mudar o rumo de tudo.

Mas calma aí… Antes de falarmos sobre o encontro que dá nome ao filme e todos os temas que o cercam, precisamos falar (obviamente) sobre Silvia e Jerusa. A primeira é uma mulher homossexual que trabalha com análise de mercado enquanto espera pelo resultado de um concurso. Já a segunda é uma fotógrafa de 77 anos que mora sozinha.

Um Dia com Jerusa

Foto: Divulgação

Graças ao trabalho de Sílvia, elas se encontram e acabam passando juntas o dia do aniversário da idosa. Um acontecimento que transforma Um Dia com Jerusa num grande bate-papo sobre a vida que vai da história de São Paulo (mais especificamente do Bexiga, um bairro muito conhecido) até a experiência de ser negro no Brasil. Um pacote completo que ainda inclui carnaval, história, comunicação, solidão e muitas memórias.

É preciso exercitar a memória. É por ela que nos libertamos”

O maior acerto de Viviane, na minha opinião, é transportar isso tudo pra tela sem cair em muitas complexidades narrativas ou estéticas. Um Dia com Jerusa escolhe ser uma produção simples que deposita toda sua força nos diálogos entre Silvia e Jerusa. E faz isso sem medo, porque sabe que a a sua maior fonte de riqueza está nas memórias que dominam as personagens principais.

De certa maneira, isso me fez pensar muito em Narciso em Férias. Em como o documentário deixava, acertadamente, Caetano Veloso falar da forma mais livre possível, confiando no impacto de suas memórias durante a ditadura.

Um Dia com Jerusa

Foto: Divulgação

As protagonistas de Um Dia com Jerusa não tem sequer um décimo da fama de Caetano, é claro. Mas, em contrapartida, dividem inúmeras semelhanças com o público, conquistando nossa empatia com muita facilidade. Afinal, as duas são idênticas a milhares de brasileiras que fazem parte da vida de quem está do outro lado da tela.

E o filme, em mais um jogada certeira, usa isso como combustível temático. Viviane sabe como reforçar a normalidade daquelas mulheres, acompanhando com muita sensibilidade os seus pequenos gestos, suas atividades diárias, suas dúvidas e suas reações. Sempre preocupada em criar relações entre a vida de cada uma delas (o fato de Silvia gostar de História, por exemplo) e os rumos da trama.

Eu gosto dessas escolhas porque elas abrem espaço para as memórias ocuparem o centro do palco e brilharem ao lado das atuações de Débora Marçal e Léa Garcia (O Maior Amor do Mundo). Elas são as estrelas desse teatro cheio de verdade que conduz Silvia e Jerusa – cada uma do seu jeito – por uma poderosa jornada de libertação, amor ao próximo e identidade.


Um Dia Com Jerusa foi conferido no Festival de Vitória


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Um Dia com Jerusa (2019)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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