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Um Amor, Mil Casamentos é uma mistura de gêneros que trapaceia e só diverte por causa do nonsense


Os filmes de casamentos compõem um sub-gênero bastante clássico das comédias românticas. O cinema (principalmente britânico) adora fazer com que esses eventos cheios de pompa se tornem palco de gestos românticos, términos bizarros e revelações de última hora que divertem e emocionam o espectador. Um fato comprovado por títulos como Quatro Casamentos e Um Funeral, Missão Madrinha de Casamento e Noiva em Fuga.

Ao mesmo tempo, a premissa de fazer um personagem viver o mesmo dia ou situação repetidamente também construiu um status interessante na sétima arte desde que Feitiço do Tempo fez história. Tanto que ninguém precisa pensar muito para lembrar de produções parecidas, incluindo tanto bons exemplares (A Morte Te Dá Parabéns, Boneca Russa) quanto peças dispensáveis (Nu, 2:12, Antes que Eu Vá).

Algumas obras tentam misturar os dois mundos, mas reunir dois formatos tão reconhecíveis e cheios dos seus próprios clichês geralmente resulta em duas opções: ou você vira uma grande repetição sem nenhuma surpresa, ou encontra uma maneira inovadora de fugir do comum. Questão de Tempo, por mais que não se apegue exclusivamente a nenhuma dessas duas premissas, cumpre o último objetivo com primor. Já Um Amor, Mil Casamentos pode até encontrar seu lugar no grupo positivo, mas faz isso através de trancos, barrancos e uma trapaça que não pode ser ignorada.

um amor, mil casamentos

Afinal, segundo a própria Netflix, o longa – que é uma refilmagem do francês “Plan de Table” – acompanha a seguinte trama: “diferentes versões de um dia se repetem para Jack, que tem que lidar com muita confusão e um possível romance na festa de casamento da irmã”. É basicamente a descrição de um loop temporal acontecendo durante uma festa de casamento, logo é normal que o espectador já comece a sessão esperando a mistura de sub-gêneros citadas nos parágrafos anteriores. 

No entanto, ao contrário do que se espera, tal encontro entre premissas só acontece de fato depois da metade do filme, gerando nada mais do que uma montagem acelerada que tira sarro da posição das cadeiras. Isso faz com que todas as outras possibilidades fiquem restritas a pequenos vislumbres ou piadas pós-créditos. É verdade que todos esses momentos são absolutamente hilários, mas perdem o valor narrativo por não fazerem o devido sentido dentro da premissa.

Por mais que Um Amor, Mil Casamentos se venda como esse filme de loop temporal, ele não segue nenhuma regra clássica do gênero. Não tem várias versões do mesmo dia, não tem um protagonista que se lembra do que aconteceu anteriormente e usa isso pra quebrar o loop, e não tem um objetivo a ser cumprido ou um mistério a ser descoberto. A mudança temporal está ali só pra impulsionar uma reviravolta e criar uma sugestão que existe apenas na narração, visto que todo o papo sobre acasos e improbabilidades se torna vazio sem o aproveitamento das diversas versões.

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Concordo que uma parte desse descontentamento surge junto com a quebra de expectativa, porém uma outra parte se manteria intacta em qualquer circunstância. Mesmo se não tivesse lido a sinopse e entrado no filme esperando ver uma espécie de Feitiço do Tempo no meio de um casamento, eu continuaria argumentando que Um Amor, Mil Casamentos faz mal uso do elemento temporal justamente por não transformar sua premissa em um verdadeiro elemento narrativo. O público é obrigado a engolir a ideia de que as coisas mudam por conta de uma troca de lugar, visto que a informação fica restrita ao narrador e mais uma ou duas linhas de diálogo. Falta mostrar mais do que falar.

Se ele conseguisse integrar um pouco mais sua premissa e manter o foco nas verdadeiras qualidades, provavelmente funcionaria muito bem como uma comédia que arranca boas risadas. Claro que o funcionamento do humor é bastante pessoal, mas eu (pessoalmente) consegui me divertir com as doses de nonsense que o texto e a direção de Dean Craig (Morte no Funeral) injetam na narrativa. Em outras palavras, talvez seria possível fazer o filme funcionar apenas como uma grande e surtada festa de casamento.

Isso enquadraria Um Amor, Mil Casamentos em um subgênero bem mais simples: aquele onde a produção se passa em festas que dão errado. Parece uma opção mais pobre (e talvez seja), mas não errônea porque é exatamente isso que o longa acaba sendo no final das contas. Principalmente quanto se leva em conta que o lado emocional sofre com diversas sequências vazias e o fator romance fica preso na falta de química dos protagonistas. O que sobra são algumas doses bastante genuínas de nonsense que o transformam numa comédia de erros boba, galhofa e preenchida por filosofias baratas dignas dos romances estrelados por Adam Sandler. Só não se engane num detalhe: isso não é defeito! 

Aproveitando o bom timing cômico de Craig (tanto na direção, quanto no texto) e seu elenco carismático, Um Amor, Mil Casamentos acerta na maioria das vezes em que brinca com estereótipos e situações típicas de casamentos através desse filtro super exagerado. É uma comédia arriscada que extrapola as barreiras da realidade a fim de criar situações tão absurdas que arrancam risadas. É um meio-termo estranho entre a sutileza das comédias britânicas e um humor quase escatológico que raramente agrada todo mundo, mas possui certa autenticidade.

E foi justamente isso que ficou martelando na minha cabeça depois que o filme terminou. O tempo fragmentado (assim como todo o conceito do acaso) me soou como uma muleta narrativa que Craig insiste em usar – de maneira forçada – por ter vergonha de escolher caminhos mais simplórios, sendo que explorar essas bizarrices dignas de um casamento dividido entre britânicos e italianos conservadores não seria um demérito. Não faria Um Amor, Mil Casamentos entrar pro hall de clássicos do gênero “casamenteiro”, mas, no mínimo, resultaria num passatempo menos desorganizado e esquecível.

Quem sabe isso não aconteça quando os lugares da mesa forem trocados, não é?

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Um Amor, Mil Casamentos (2020)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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