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A versão live action de Tom e Jerry sugere que vai ser movida pela nostalgia, mas acaba sendo apagada pela preguiça dos seres humanos


As loucas perseguições mudas entre Tom e Jerry fizeram parte da infância de muita gente, e comigo não foi diferente. Não sei dizer quantas vezes liguei a televisão no SBT e fiquei horas assistindo a primeira grande criação da Hanna-Barbera.

E foi por causa dessa memória afetiva que eu realmente tentei gostar dessa nova versão dos personagens. Fiz isso com todas as minhas forças, mesmo achando que estava diante de uma ideia ruim que só recebeu luz verde graças ao sucesso de Sonic.

Tom e Jerry

Foto: Divulgação

Tentei tanto que passei os primeiros (bons) minutos do longa tentando encontrar um jeito de explicar o quão divertida era aquela mistura entre o live action e aquela animação meio 2D. Estranha, porém engraçada e razoavelmente fiel ao visual original.

Entretanto, apesar de realmente gostar da ideia por trás da realidade paralela onde humanos convivem com animais animados, fui obrigado a desistir pelo simples fato do longa insistir em esconder o que realmente importa: Tom e Jerry.

Digo isso porque as perseguições entre os dois funcionam bem. É um show de deformações, objetos voadores, tornados destruidores, onomatopeias e mais uma porção de elementos que transformaram o material original num sucesso instantâneo. Em outras palavras, é cartunesco sem nenhuma vergonha.

Só que o começo do problema está justamente na maneira como todo o contexto live action parece existir pra inibir isso. Pra esconder Tom e Jerry, enquanto sugere, nas entrelinhas, que eles não teriam capacidade de segurar o filme sozinhos. E mesmo achando isso um absurdo total, eu tentei engolir.

Tom e Jerry

Foto: Divulgação

Posso até dizer que cheguei perto graças ao lado canastrão que se sobressai na atuação de Michael Peña, mas esse é o mais próximo que o lado “real” consegue se aproximar da liberdade oferecida pelos cartunesco. O resto do tempo é preenchido por uma série de decisões que só foram me deixando cada vez mais desconfortável.

Digo mais: é quase insuportável ver Tom e Jerry perderem o posto de estrelas para uma trama tão boba e genérica quanto essa. Afinal, se descontarmos os animais, o que sobra é uma malandra sem graça tentando salvar um casamento sem química dentro de um hotel comandado por pessoas sem senso de humor.

Sei que o filme foi pensado para o público infantil, mas isso não pode ser usado como justificativa pra variedade de momentos constrangedores e preguiçosos que preenchem a projeção. Mas o longa faz exatamente isso…

Ele usa a desculpa do “ser infantil” pra construir uma trama pobre onde tudo é batido. Os vilões óbvios, o casal que não se entende, a trambiqueira que cai de paraquedas no emprego dos sonhos, as emoções telegrafadas,  o hotel destruído pelas confusões… Literalmente tudo isso está dentro de um pacote que já foi usado com mais inventidade por, no mínimo, uma dezena de produções que passavam na Sessão da Tarde.

Tom e Jerry

Foto: Divulgação

E é extremamente broxante ver isso abafar justamente a dinâmica colorida e surtada que poderia (talvez, quem sabe) fazer a família inteira rir em conjunto. Só pra efeito de comparação, estamos falando de algo que, apesar dos problemas, Sonic não faz em momento algum.

Mas, em Tom e Jerry, esse é um resultado hipotético que não chega perto de se tornar realidade. Existem algumas risadas pontuais, mas elas ficam perdidas no meio de um filme que fica preso entre as tentativas bagunçadas de prender a atenção dos pequenos e as possibilidades perdidas de acessar – de verdade – a nostalgia dos adultos.


OBS 1: Quase dei uma nota quatro pela nostalgia, mas aí a cena pós-créditos deixou claro que a essência do filme estava no lugar errado. Como você faz o público esperar sete minutos de crédito por uma piada sem graça que sequer envolve os supostos protagonistas?


Nos EUA, Tom e Jerry foi lançado diretamente na HBO Max. Aqui no Brasil, ele pode ser apenas conferido nos cinemas.


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Tom e Jerry (2021)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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