TITANE – Crítica | A insana busca pelo amor

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Consciente de sua insanidade, Julia Ducournau mistura body horror ao drama surrealista em Titane


O New French Extremity foi um movimento/subgênero do horror que pegou o fim dos anos 90 e o início dos anos 2000. Nele, alguns cineastas franceses em sua maioria, usavam da violência extrema, seja ela psicológica ou física, para trazer uma espécie de subtexto da época. A diretora Julia Ducournau bebeu bastante da fonte em seu primeiro filme Raw (2016), ao trazer uma trama sangrenta, com acenos a amadurecimento, libertação, dentre outros conceitos puramente femininos.

Agora, o vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes se utiliza da mesma inspiração, mas diferente do calmo desenvolvimento do primeiro filme de Ducournau, Titane começa com os dois pés na porta em uma mega introdução que lembra os tempos áureos de Gaspar Noé, desde o som de carro balbuciado pela protagonista (que lembra muito a trilha de Irreversível), até a estranheza de sua narrativa.

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Foto: Divulgação Mostra de São Paulo 2021

Mas, qual o enredo de Titane?

Um violento acidente de carro deixou longos e duradouros efeitos colaterais em Alexia, uma criança que carrega uma placa de titânio em seu crânio. Tempos depois, já adulta, Alexia (Agathe Rousselle) se torna uma modelo de showroom de carros, e começa a ter atração sexual por eles.

Paralelo a isso, uma série de assassinatos começa a ocorrer no sul da França.

O que achamos do filme?

Titane é um daqueles filmes que quanto menos soubermos, melhor. Julia Ducournau está interessada no terror contínuo – e no primeiro ato de quase 40 minutos – não tira o pé do acelerador (com o perdão do trocadilho). Mas por mais insano que seja, desde planos sequência a sintetizadores, a cineasta está fortalecendo sua protagonista, dando-lhe atitudes impulsivas e tornando-a uma assassina fria, mas descuidada.

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Foto: Divulgação Mostra de São Paulo 2021

É importante dizer que poucas obras tratam de uma certa voracidade a psicopatia feminina, sendo mais comum focar na figura masculina. A excentricidade toma conta, mas nossa suspensão de descrença está tão lá em cima que a locomoção de um corpo duas vezes mais pesado que Alexia, a demora da chegada da polícia e principalmente sexo com um carro, nem nos afeta.

Aos poucos todo esse desespero vai desaparecendo, e Titane pisa no freio para nos contar outra história, a de Vincent (Vincent Lindon), que perdeu seu filho anos atrás. Nesse momento, o opressor ou a opressora no caso, fica alguns minutos na condição de oprimido, sem perder a coragem. Ducournau liga essas duas vidas repletas de solidão e em busca do amor verdadeiro (independente de qual seja), para nos tirar do vale da singularidade, e trazer-nos para a importância da feminilidade.

Claro que nesse processo de desconstrução, Titane não abandona o body horror e o campo da simbologia, ao mesmo tempo em que aplica uma inversão de valores a Alexia, alguém acostumada a tirar vidas, de repente consegue gerar outras, já que a de Vincent também mudou totalmente com sua presença.

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Foto: Divulgação Mostra de São Paulo 2021

A trilha sonora endeusa Alexia e sua importância na vida daqueles personagens, pois mesmo diante de atitudes chocantes e perturbadoras, ela é uma agente de mudança. Titane é um filme propositalmente antipático (se é que existe um bom sentido para a palavra), mostrando que Julia Ducournau possui controle absoluto de sua segunda obra.

Assim como em Raw. a diretora trata da perversidade feminina e de como ela pode ser benéfica para a vida da mulher, como se estivesse afirmando: “chegou a hora de pensar em si mesma, em suas próprias vontades”. Felizmente, Alexia ouviu seu monstro interior.


Filme visto na 45ª Mostra de São Paulo, que acontece entre os dias 21 de outubro e 03 de novembro de 2021.

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