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Ampliando seu universo para outros tempos, The Umbrella Academy volta com uma temporada mais coesa e emotiva

Confira a crítica da 2ª temporada de Umbrella Academy na Netflix


Eu não acredito que o gênero dos super-heróis está saturado ou qualquer coisa assim. Mas só posso dizer isso porque algumas produções insistem em procurar caminhos diferentes. Em outras palavras: é sempre bom assistir algo que tenha um cheirinho de novidade, que injete frescor em histórias tão parecidas.

E isso The Umbrella Academy fez com o devido sucesso no ano passado. Sua temporada de estréia (acima da média) ultrapassou alguns limites e conquistou uma nova legião de fãs, garantindo que equipe que dá nome ao programa voltasse para uma nova missão.

Dessa vez, os irmãos Hargreeves viajam para 1963 com o intuito de fugir de um apocalipse. O problema é que, graças a bagunça na linha do tempo, o fim do mundo não descansa e persegue eles até o passado na forma de uma guerra nuclear. Com isso, os super-heróis são obrigados a encontrar uma maneira de impedir mais um desastre, enquanto crescem como seres humanos e como família.

The Umbrella Academy

Parece cafona em certos pontos de vista, mas o resultado, como deve ter ficado claro no título, é muito superior ao da primeira temporada. Um trabalho imperdível que passa pelos sete estágios da evolução narrativa.


Caso você esteja lendo esse texto antes de terminar a temporada, os sete estágios não fazem parte de uma teoria. É só uma referência ao oitavo episódio da segunda temporada de The Umbrella Academy.
Dito isso, pode continuar que não tem spoilers 🙂

1. Negação

O primeiro estágio faz com que a 2ª temporada de The Umbrella Academy se negue a mudar, mantendo assim seus alicerces estilísticos.

Em palavras mais diretas, a primeira decisão acertada da série na Netflix é manter a qualidade do que tinha funciona muito bem na primeira temporada. Isso inclui as viagens no tempo, a ação estilizada que parece ter saído diretamente dos quadrinhos, os personagens bizarros e a trilha sonora cheia de canções que fizeram o público dançar junto com os protagonistas.

Talvez você não classifique essa escolha exatamente como uma evolução, mas essa manutenção dos acertos é decisiva pro sucesso da série. Essas são as raízes que permitem o crescimento promovido pela segunda temporada.

The Umbrella Academy

2. Coceira Evolutiva

Sabe as dores do crescimento? Ou aquela coceira que acompanha os pelos recém-surgidos? As franquias também passam por algo similar.

Esse é o segundo estágio.

Talvez você já tenha ouvido alguém dizer que tal filme de origem não é bom, mas que a ideia pode resultar em uma continuação melhor. É um raciocínio bem comum.

Eu usei ele diversas vezes na esperança de que um boa ideia consiga ser aproveitada sem as obrigações de uma apresentação. Isso porque a obrigação de mostrar um universo completamente novo geralmente vem acompanhado por obstáculos que atrapalham a experiência. Entre eles, as explicações excessivas.

Steve Blackman (Legion), Jeremy Slater (Renascida do Inferno) e toda a equipe de roteiristas e diretores envolvidos na segunda temporada de The Umbrella Academy entenderam que haviam passado por esse momento e poderiam se concentrar apenas na evolução agora.

Sem a necessidade de apresentar cenários, regras ou personagens, a série pode só seguir em frente. Com isso, o didatismo (que só aparece de maneira bem prática e direta no começo da amnésia de Vanya) passa a dar lugar para novas camadas em todos os aspectos.

The Umbrella Academy

3. Sede extrema de viajar

O primeiro passo dessa evolução passa pela vontade de mostrar mais coisas. De apresentar novos lugares. De expandir o universo.

The Umbrella Academy começa seu processo de evolução apresentando mais conceitos (sejam eles grandes, como os sete estágios, ou pequenos, como o motivo do interesse de Reginald na lua); ampliando a importância da Comissão na trama, de forma que sua existência não fique restrita ao Cinco; e apostando em uma viagem no tempo mais robusta, que preenche todos os dez episódios.

Inclusive, lançar os protagonistas na década de 60 é muito bom para eles. A mudança brusca de cenário influencia diversas transformações na trama, começando pelo surgimento de planos de fundos mais interessantes. Afinal, os heróis deixam de ser meros fantoches do pai para carregar histórias individuais conectadas com tal período temporal.

Claro que o vício em heroísmo que move o Diego ou a necessidade de submissão do Luther poderiam ser desenvolvidos em qualquer tempo, mas alguns deles realmente tiram proveito das regras que preenchiam o passado. É o caso de Vanya com a sexualidade, Alisson com o ativismo social e Klaus com o movimento hippie.

Coisas importantes para a época que ajudam a mostrar novas facetas da família Hargreeves.

The Umbrella Academy

4. Individualismo nada excessivo

Algo muito importante quando quem realmente importa, no final das contas, são os personagens.

The Umbrella Academy tem uma grande história de fim do mundo, mas, se pensarmos bem, conseguimos ver que ela só existe para injetar urgência na temporada. Lá no fundo, isso não passa de um apoio para o desenvolvimento das histórias individuais de cada membro da equipe.

Essa já era a dinâmica da primeira, mas a 2ª temporada cumpre a tarefa com ainda mais precisão. Parece que todos os envolvidos (dos diretores aos atores) se tornaram mais próximos dos personagens e, automaticamente, ficaram mais confortáveis na hora de mexer com seus limites, seus desejos e seus traumas de uma maneira que enche os olhos.

Todos eles aprendem algo. Evoluem em algum aspecto psicológico ou físico. Buscam maneiras de mudar o status quo que havia sido estabelecido na primeira temporada.

A Vanya – cujo desenvolvimento é uma das coisas que mais me incomodou no ano anterior – talvez seja o melhor exemplo disso. Ela cresce tanto que sua versão livre consegue dar a volta por cima, se sobressair e conquistar a torcida do público sem muita dificuldade.

The Umbrella Academy

5. Emoções agudas (sem paranoia)

No entanto, isso só é possível, porque The Umbrella Academy promove uma mudança de foco que é muito bem-vinda. As conspirações familiares que preenchiam a primeira temporada, obrigando os irmãos a descobrirem a andarem mais pra trás do que pra frente, se tornam peças de segundo plano, enquanto a família toma as rédeas de sua própria vida.

Antes eles não passavam de consequências dos atos nefastos e mal explicados de Reginald Hargreeves. Agora, eles são donos da sua própria vida.

Os reflexos do passado ainda existem, mas são assombrações que, sem alterar a hierarquia, ganham um lugar ao sol apenas nos momentos pontuais em que o desenvolvimento dos personagens exige isso.

Parece ser algo simples e muito pequeno, mas essa decisão faz com que seja muito mais fácil se apegar emocionalmente aos heróis, Afinal de contas, eles se tornam seres humanos que erram, acertam, se apaixonam, se arrependem e evoluem.

6. Coadjuvantes controlados

Se você procurar no manual de instruções para fazer continuações, vai perceber que toda boa sequência precisa ter novos personagens. The Umbrella Academy não tenta fugir dessa regra.

E nem deveria, já que os novatos ajudam a enriquecer tanto os mistérios da trama principal, quanto as histórias pessoais de cada um. São coadjuvantes que tem importância e, na maioria dos casos, um nível de desenvolvimento bem próximos dos protagonistas.

The Umbrella Academy

A Lila é uma dessas que chega muito perto de se tornar personagem principal, enquanto a Sissy e o Ray se mantém mais em segundo plano. O que não é, de jeito nenhum, problemático.

Todos eles tem seus papéis e cumprem sua missão no desenvolvimento de camadas inéditas e mais ricas entre os Hargreeves. A maioria está ligada ao amor, mas também possuem ramificações sociais que parecem ter se inspirado nas histórias clássicas do X-Men.

Entretanto, a maior prova do bom trabalho feito com esses novatos está no fato de que as sequências de despedida são muito intensas. É fácil sentir que existe uma conexão verdadeira entre os personagens e se emocionar com o afastamento. Seja ele temporário ou eterno…

7. Fúria Homicida

Também conhecida como uma vontade gigantesca de superar sua versão anterior (vide o Cinco…), esse é o estágio que consagra a 2ª temporada de The Umbrella Academy como superior ao seu ano de estreia da série na Netflix.

Os estágios anteriores comprovaram que ela está maior e, de quebra, ainda mostram alguns avanços em relação ao foco e ao desenvolvimento dos personagens. Porém falta falar de um detalhe decisivo: o equilíbrio entre os episódios.

E é importante falar isso, porque a primeira temporada tinha várias instabilidades em relação ao desenvolvimento da trama e dos personagens. Alguns protagonistas tinham mais peso do que outros sem precisar, os episódios do meio (assim como em várias séries da Netflix) pareciam desnecessários e diversas discussões pareciam terminar sem adicionar nada.

Agora não… Agora The Umbrella Academy acertou em cheio.

Todos os personagens tem importâncias similares (até o Ben ganha mais peso de maneira coesa e acertada), Todos os episódios tem acontecimentos importantes. A maioria absoluta dos diálogos revela algum elemento necessário pra trama ou pro desenvolvimento individual.

The Umbrella Academy

E o resultado é que tudo funciona melhor.

A ação empolga mais. As sequências de emoção acertam com mais força. A diversão é multiplicada.

A única coisa que parece deslocada e me incomoda durante a temporada são os Suecos. Vilões ou capangas que, curiosamente, são caracterizados apenas por sua fúria homicida. Ou em outras palavras: uma vontade cega de matar.

É o único momento em que The Umbrella Academy escolhe fugir da sua receita do sucesso e fazer o oposto do tinha feito como Hazel e da Cha-Cha. Dois vilões que matavam à sangue frio, mas também tinham boas doses de carisma e algum desenvolvimento.

A ideia de fugir do padrão é válida, mas não parece se encaixar em uma temporada onde todo mundo possui muito mais camadas do que uma mera relação familiar. Até rola uma prova de humanidade no final, mas não é o bastante para salva-los do posto de “elo fraco da corrente”.

A situação só não fica pior para o lado dos nórdicos porque eles não tem força para derrubar uma leva de episódios que é mais organizada, emotiva e empolgante. Uma temporada que acumula acertos suficientes para superar os sete estágios, divertir como um bom exemplar do gênero de super-heróis e garantir sua superioridade.

Agora só falta esperar (ansiosamente) pra ver se a próxima temporada consegue repetir tal façanha…


2ª temporada de The Umbrella Academy já está disponível na Netflix!

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The Umbrella Academy (2ª Temporada)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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