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The Old Guard é um bom filme de ação cercado por uma discussão sobre imortalidade que merecia mais espaço


Mesmo sem existir, a imortalidade sempre marcou presença na história do mundo. Entre lendas e acontecimentos históricos, existem diversos relatos sobre buscas por poções, pedras filosofais e fontes da vida. E não estamos falando só sobre o passado, já que vários pesquisadores e intelectuais continuam trabalhando em torno desse conceito até hoje.

Na cultura pop não é diferente. A diferença é que, em livros, séries e filmes, a ficção permite que imortalidade seja real em seu universo particular, criando questionamentos interessantes sobre a humanidade. Alguns personagens veem tal poder como benção, outros como maldição. Alguns sofrem com o tédio, enquanto outros (como Dorian Gray, por exemplo) enlouquecem entre tentativas de manter a juventude.

Várias obras já abordam o tema, montando uma espécie de clube do qual The Old Guard se tornou membro efetivo. Afinal de contas, desde a primeira, o blockbuster da Netflix deixa claro que sua proposta gira em torno relação entre o ser humano e a eternidade. Não é uma missão fácil, mas, por incrível que pareça, a adaptação da graphic novel homônima de Greg Rucka e Leandro Fernandez consegue adicionar algumas novidades razoáveis a discussão.

The Old Guard

Na história, Andy é a líder de um grupo de mercenários imortais que convive com o tédio depois de séculos participando de guerras pelo mundo. Tudo muda quando uma nova imortal surge ao mesmo tempo em que o grupo precisa lidar com uma organização disposta a destruí-los.

O choque entre esses dois acontecimentos inicia uma nova onda de reflexões na protagonista, mas também ajuda The Old Guard a se desenvolver sem fugir das cartilhas padronizadas. Como Nile e Merrick (o antagonista interpretado por Harry Melling, o Duda Dursley da saga Harry Potter) não sabem tudo sobre o grupo, ambos se tornam os guias do público através de uma mitologia nova e relativamente complexa.

Inclusive, a participação dela fica quase restrita a fazer perguntas didáticas durante os primeiros quarenta minutos da produção. Por coincidência (ou não), esse é o tempo que o filme demora pra engatar.

Não estou dizendo que as explicações são desnecessárias. Até porque o contexto por trás de The Old Guard possui alguns detalhes muito relevantes pro decorrer da trama. O mais importante deles é o fato de que os imortais podem morrer. Só que não estamos falando sobre a existência de uma bala especial ou de uma pedra espacial rara, e sim de um fim natural.

The Old Guard

Algo sem explicação que o filme, surpreendentemente, escolhe manter assim. Indo na contramão dos diálogos que davam o máximo possível de explicações a cada frase ou flashback, o texto escolhe o caminho do divino e deixa o espectador criar suas próprias teorias. Talvez esse fator de mortalidade ganhe alguma justificativa na continuidade do material original, mas por agora, o que importa é esse foi o momento onde a produção me prendeu de verdade.

Foi o ponto de virada onde as explicações saíram de campo pra dar lugar a diálogos mais livres. Conversas preenchidas por discussões interessantes e até um pouquinho de tensão motivada pela morte.

É curioso observar como a maioria das produções sempre apela pra magias, objetos mitológicos ou algum daqueles artifícios citados acima, porque existe uma necessidade narrativa de enfraquecer personagens imortais. Sem esse enfraquecimento, não existe conflito. Não existe nada que faça a história andar.

Então admito que gostei da forma como a possibilidade do fim foi inserida e utilizada nas inúmeras vezes em que algum dos protagonistas foi alvejado por tiros. Você sabe que as chances de fulano morrer são pequenas, mas aqueles cinco segundos antes da respiração voltar injetam a dose suficiente de suspense na experiência.

The Old Guard

Indo além, eu gosto principalmente da maneira como isso oferece novidades para as discussões em torno dos benefícios e prejuízos da imortalidade. Da forma como esse pequeno detalhe faz The Old Guard parecer mais fresco. Menos repetitivo.

Boa parte do público deve discordar que essa a parte mais importante, considerando que estamos falando de um bom e velho filme de ação. Uma daquelas produções que coloca sequências de pancadaria e tiroteio em primeiro plano sem ligar pra história,

Não posso dizer que não é, mas também não consigo falar que é. Até porque as cenas de ação passam longe de deixar o espectador boquiaberto. Possuem ideias legais e sacadas visuais que chamam a atenção, mas contrabalanceiam isso com diversos problemas.

Quer um exemplo?

A inexperiência com grandes sequências do tipo ficam evidentes tanto no elenco, quanto na direção de Gina Prince-Bythewood (A Vida Secreta das Abelhas). Observe como os trechos protagonizados pela Charlize Theron (Tully) possuem menos cortes – e, automaticamente, mais fluidez – do que os momentos em que o restante do grupo está na liderança.

The Old Guard

A inspiração em John Wick fica evidente, porém, na execução, de The Old Guard às vezes se aproxima mais de Michael Bay ou Busca Implacável. Em outras palavras: é brutal, sangrento e até divertido, mas nem por isso fica menos confuso e derivado.

Por mais que convença o público de que os protagonistas estão juntos há muito tempo, falta alguma coisa que realmente deixe os olhos vidrados. Talvez seja por isso que os diálogos sobre imortalidade me marcaram bem mais. Inclusive, gosto bastante de como Prince-Bythewood conduz aqueles momentos de intimidade, destrinchando os laços e explorando a relação de cada um com seu poder.

Eu sei que os diálogos não chegam aos pés de Entrevista com Vampiro ou qualquer outra obra séria sobre o tema, mas possuem camadas que me convenceram. Pequenos instantes que abordam a importância da companhia, o amor, o luto e a ansiedade pelo fim.

The Old Guard

Lógico que somente essas discussões não têm força pra salvar The Old Guard. O conceito soa vago em diversos momentos (como se o roteiro fosse escrito pensando em quem já conhece o material), enquanto fica claro que vários pontos poderiam ter recebido um desenvolvimento mais aprofundado. De maneira mais direta, digamos que a própria discussão merecia mais espaço.

Mas, ainda assim, o pouco que foi bem feito me conectou com os personagens durante o clímax. Deixou aquele gostinho de quero mais. Aquela vontade de ver a franquia se expandir para que a mitologia possa ser mais trabalhada e as discussões bem aproveitadas. Junto com uma ação cada vez melhor, é claro…


OBS 1: É bem provável que The Old Guard tenha continuação.

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The Old Guard (2020)

7

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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