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Um dos piores filmes da história da Netflix, The Last Days of American Crime é uma tortura longa, vazia e repetitiva.


O modelo de negócio da Netflix gira em torno da quantidade de assinantes. O sucesso de suas produções é contabilizado pela quantidade de assinaturas mantidas ou adquiridas por conta daquele produto, deixando a qualidade dos filmes e séries em segundo plano. Tanto que é comum ver alguém dizendo que a Amazon acerta muito mais, porque sua concorrente parece dar luz verde pra qualquer coisa que tenha potencial para juntar fãs.

Isso pode soar ruim para uma grande parcela do público, mas não tem dado necessariamente errado pra Netflix. Eles são só um estúdio que lança todas as tentativas mundialmente, abrindo espaço para as decepções chamarem mais atenção do que diversas bombas que os grandes estúdios de Hollywood escondem no mercado de home video americano.

A verdade é que, sem a necessidade de brigar por bilheterias em um época onde o cinema é cada vez menos requisitado, o serviço de streaming pode se dar ao luxo de fazer os tipos mais diversos de apostas, dando liberdade total pros seus produtores de conteúdo. Algo que parece ser positivo quando Martin Scorcese finaliza O Irlandês sem precisar cortar cenas a pedido de executivos, mas que não funciona tão bem quando o que sai do papel é The Last Days of American Crime. Uma obra tão sofrível que nem a própria Netflix se deu ao trabalho de traduzir o título.

The Last Days of American Crime

Mas antes de crucificar o filme (que certamente está na lista de piores que assisti nos últimos cinco anos), vamos falar sobre a trama dele.

Adaptação da graphic novel homônima de Rick Remender e Greg Tocchini, The Last Days of American Crime acompanha Graham Bricke, um ladrão de bancos que acabou de perder o irmão, durante a semana anterior a instalação de um sinal sonoro que bloqueia a mente de quem tenta fazer algo ilegal. Ou seja, um sistema coercitivo que vai acabar com o crime nos EUA. Mas o que pode ser catastrófico para muitos se torna uma grande oportunidade quando Bricke é abordado por um casal de ladrões disposto a cometerem o último assalto da história.

Essa premissa já deixa claro The Last Days of American Crime é uma grande repetição. Os pontos de vistas trabalhados podem até ser diferentes e levemente interessantes, mas todos os temas que o longa tenta abordar parecem copiados de outras produções que os desenvolveram com mais eficiência. A ideia do último golpe é mais velha que o próprio cinema, a vingança surge como um elemento mais recorrente na filmografia do diretor Olivier Megaton (Colombiana: Em Busca de Vingança) e a contextualização política não passa de uma mistura genérica de Minority Report com Uma Noite de Crime.

E só pra não dizer que o longa ignora os discursos sociais que poderiam surgir nesse cenário, vou admitir que o filme tenta falar sobre a obsolência da polícia, o valor do ser humano em relação a tecnologia e o controle imposto pelo governo. Se a gente forçar um pouquinho é possível fazer um paralelo com algumas propostas que cogitam o controle da internet, mas estaremos falando que sugestão que nunca é evidenciada. O filme atira pra todo lado sem tirar um tempo pra realmente explorar qualquer um desses temas.

The Last Days of American Crime

E, no meio desse caos narrativo, The Last Days of American Crime ainda se perde em outros problemas cuja origem está ligada principalmente ao roteiro preguiçoso de Karl Gajdusek (Oblivion). O protagonista é desinteressante, os coadjuvantes apelam pra trejeitos afetados sem necessidade e as motivações são muito simplórias. Isso sem contar com uma narração super didática que desaparece assim que as explicações acabam.

Um pacote que, junto com a direção genérica de Megaton, só pode gerar um resultado: o desperdício imediato dos talentos de Edgar Ramirez (American Crime Story), Anna Brewster (Luther) e Michael Pitt (Hannibal). Mas calma que esse é só o começo da jornada de sofrimento que assistir a “nova aposta” da Netflix.

Digo isso porque, pra piorar, The Last Days of American Crime possui quase duas horas e meia de duração. É um filme longo que demora muito pra engatar graças a diversas subtramas desnecessárias (incluindo a história de um policial que poderia ser substituído por qualquer figurante sem perda), cenas de sexo que não adicionam nada ao todo e sequências de exposição que arrastam a experiência.

E, só pra deixar claro, eu não tenho problema com a duração de um filme, desde que ele tenha história para preencher todo esse tempo. The Last Days of American Crime poderia alcançar os mesmos objetivos com bem menos de duas horas. Falta um trabalho de montagem que seguisse as palavras de Stephen King e deixasse apenas o essencial. Quer um exemplo? Acompanhar tomadas aéreas de um carro passeando pelas paisagens do Canadá por quase dois minutos não é importante. É o tipo de ideia que só deixa o filme muito maior do que precisava.

The Last Days of American Crime

O resultado é um filme de assalto que se vende através da ação desenfreada, mas entrega sequências desse tipo em menos de 20% do seu tempo. A produção não tem um terço da agilidade típica de outros longas do gênero. Saem, por exemplo, aquelas quebras temporais que brincam com o plano, entram horas de cenas que estabelecem o universo sem explorá-lo devidamente. É um processo lento e arrastado que exige muita paciência do espectador.

E aí, depois de tanto tempo de enrolação, quando o filme finalmente consegue chegar em algum lugar, já não tem mais fôlego. As cenas de ação em si nem são tão visualmente incomodas quanto outras que o diretor tirou do papel na franquia Busca Implacável, porém nenhuma delas tem força pra servir como recompensa para quem segurou o sono até aquele ponto. A quantidade de sangue até pode impressionar, mas não gera impacto suficiente pra salvar o estrago.

Inclusive, preciso que gostaria muito de ter acertado quando disse na rádio que o problema seria assistir duas horas e meia dessas longas cenas picotadas que marcaram a carreira de Olivier Megaton. Se o problema do filme fosse esse, nós teríamos no mínimo a tentativa de fazer um filme de ação escapista. Mas The Last Days of American Crime nunca se entrega de vez a entretenimento para alcançar esse posto. É só uma sessão de tortura pretensiosa que não consegue mostrar a que veio. Um longo martírio inchado por diálogos sofríveis e clichês nada impactantes.

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The Last Days of American Crime (2020)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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