AODISSEIA
Séries

The Act – A vida não é um conto de fadas

História de Dee Dee e Gipsy Blanchard é contada de maneira fiel e visceral


3 de junho de 2019 - 13:39 - Tiago Soares

Absurda. É uma das palavras que sintetizam bem a história em que a primeira temporada de “The Act” é baseada. É só colocar Dee Dee e Gipsy Blanchard em qualquer site de busca para saber do que estou falando. Fugindo da violência física e expositiva, a minissérie do Hulu opta por um caminho mais poético, mas não menos interessante e abusivo. A relação doentia entre mãe e filha é tratada sem rodeios, como de fato foi, culminando no assassinato de Dee Dee pelas mãos de Gipsy e seu amante Nick.

Na história real, Dee Dee Blanchard é aparentemente uma mãe dedicada que cuida da pequena filha doente. O que não sabíamos é que ela sofria de síndrome de Münchhausen, uma doença mental em que uma pessoa inventa condições de saúde para chamar atenção para si. No caso, a matriarca tinha uma variação da mesma e atraia para a filha essa exposição. Gipsy era tratada como criança, mesmo sendo maior de idade e obrigada a ficar em uma cadeira de rodas mesmo podendo andar. Querendo sair dessa condição, a única opção que a jovem encontrou foi assassinar a mãe com a ajuda de Nick, alguém que conheceu na internet e que assim como a mãe, também possuía problemas mentais graves.

The Act caminha pela exatidão dos fatos, desde ambientação, construção de personagens e veracidade. Tal feito não seria possível sem o dinamismo do comando dos criadores Nick Antosca e Michelle Dean em parceria com a fotografia sempre vibrante de Zack Galler. O trabalho do trio é tão importante, que a pequena cidade de Greene County no Missouri, parece habitada apenas pelas duas. Tamanha destreza não seria possível sem o talento das protagonistas Patricia Arquette e Joey King. A primeira já tinha brilhado e ganhado prêmios no ano passado por “Escape at Dannimora” e com certeza corre na dianteira por vários deles também neste ano. A segunda ainda não tinha mostrado a que veio, muito devido as produções de qualidade duvidosa, mas Joey King encontrou um papel para chamar de seu. A atriz imita a voz e os trejeitos de Gipsy numa uma atuação poderosa, muitos vezes sem precisar falar ou se mexer.

A reconstituição dos fatos se deve a um trabalho absurdo de produção, fazendo com que os oito episódios pareçam um grande filme. Falando nisso, a história já foi contada em um documentário da HBO chamado “Mamãe Morta e Querida”, do qual você pode assistir fazendo uma comparação ferrenha com a série, pois a riqueza de detalhes é absurda. É importante destacar os coadjuvantes, espectadores ávidos e traumatizados dessa história. Chloë Sevigny e AnnaSophia Robb fazem as vizinhas mais próximas, em participações pontuais e competentes, mas o grande destaque fica por conta do ameaçador e perturbado amante de Gipsy. O Nicholas Godejohn de Calum Worthy é estranho na medida certa, além de evidenciar sua psicopatia latente desde o início.

Utilizando de um fato recente, já que o caso ocorreu em 2015, “The Act” caminha para ser uma nova antologia que ficará marcada não apenas pela técnica, mas por emocionar seu público. Cenas como a do assassinato e as das explorações sofridas por Gipsy são muitas vezes difíceis de olhar, o que não muda o fato de que devem ser contadas.