AODISSEIA
Filmes

Ted Bundy – O mal encarnado numa biografia questionável

Com o subtítulo de A Irresistível Face do Mal, longa não consegue superar o documentário.


23 de julho de 2019 - 13:14 - Flávio Pizzol

Com um ótimo documentário e um filme questionável, Ted Bundy volta aos holofotes e se torna o criminoso mais comentado do ano.


Não sei exatamente porque, mas assassinos em série parecem atiçar a curiosidade das pessoas em níveis acima do normal. Talvez seja uma consequência da violência exagerada que acompanham tais histórias ou o simples fato desses acontecimentos parecerem deslocados da realidade, mas a questão é que vários deles já possuem seus nomes gravados na cultura pop. Agora, depois de Dexter, Hannibal e tantos outros nomes sedentos por sangue, esse ano trouxe Ted Bundy – um personagem real – de volta aos holofotes com o peso de uma série documental da Netflix e da cinebiografia Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal (em inglês, Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile).

Obras essas que, por sinal, são dirigidas pela mesma pessoa: Joe Berlinger (Paradise Lost). E eu decidi começar o texto falando disso, porque a descoberta desse fato tende a posicionar ambas as obras como peças complementares. Algo que, nesse caso, passa muito longe de ser uma realidade, visto o filme parte de um ponto de vista diferente, estabelece as relações de jeitos diferentes, constrói a narrativa de maneira diferente e tem até mesmo objetivos diferentes. Inclusive, vale ressaltar que, enquanto o documentário usa as fitas de uma entrevista com Bundy como elemento central, o filme é creditado como uma adaptação do livro de Elizabeth Kendall sobre a sua própria convivência com o assassino.

Então pode até ser que as duas produções funcionem de maneira similar na apresentação do carisma e outras características externas de Bundy, mas as narrativas seguem caminhos quase opostos por conta dessas fontes distintas. É por isso que a melhor opção talvez seja correr da possibilidade de assistir os dois muito próximos, evitando ao máximo certas comparações – inevitáveis dentro da minha análise – que podem prejudicar a experiência. Posso garantir, por exemplo, que o filme funciona melhor sem o documentário, visto que este perde força quando colocado lado a lado com uma narrativa que possui muito mais tempo pra explorar detalhes e nuances da história.

Feito os esclarecimentos mais importantes, podemos começar a falar com mais foco sobre Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal. Ou um longa que, como toda cinebiografia padrão, explora os trechos mais importantes da vida de seu protagonista, construindo aos poucos as facetas e características que marcaram um dos assassinos em série mais notórios dos EUA. O único adendo é que o filme, seguindo o material usado como base, usa o romance do mesmo com a jovem mãe solteira Liz Kendall como o ponto de partida e elemento central da trama.

Essa mudança de perspectiva injeta novos ares a obra, incluindo até mesmo a transformação de Liz em uma espécie de co-protagonista que muitas vezes rouba os holofotes de Bundy. No entanto, por mais positivo que isso seja, as comparações (eu avisei que elas eram inevitáveis) com o documentário lançado pela Netflix no começo do ano ainda colocam algumas coisas em cheque, principalmente nesse romance que assume, com toques de estranheza, uma função central no desenvolvimento da trama.

No caso de Liz Kendall, isso não acontece com tanta frequência, porque ela não é uma parte tão importante assim da série documental. Dessa forma, ver um policial entregando fotos decisivas para ela sem que isso tenha sido citado na outra obra pode ser facilmente tratado como algo não mostrado e ser deixado de lado com a mesma velocidade com que surge em cena. Já em relação ao Ted, o choque de informações fica mais problemático, já que o longa apresenta – com algum peso – peças decisivas que não poderiam ter passado batidas num documentário tão rico e complexo.

Essa é o caso, por exemplo, da relação dele com o desenho da filha da Liz. A conexão de Bundy com essa folha de papel é tão grande no filme que fica difícil acreditar que não tenha sido citada por nenhum entrevistado na obra. Algo que piora quando se percebe que o responsável por “quebrar” tal relação é um dos personagens mais importantes do documentário, enquanto a autora do livro adaptado não poderia ter presenciado um momento restrito a Ted, um promotor e as paredes de uma cela de segurança máxima. É difícil comprar que ele tenha contado isso pra ela (possibilitando a inclusão no livro e, posteriormente, no filme), mas não tenha citado uma atitude tão firme nos seus próprios relatos.

Entretanto, é bom deixar claro que esse tipo de questionamento só vai surgir na mente de quem assistiu o documentário, funcionando como uma armadilha infalível que tira a força de um filme que pode estar exagerando em certas coisas em nome da narrativa, ou diminui o fôlego de um documentário que decidiu não abordar tais coisas. Eu acredito que a primeiro opção seja mais provável, porém, ainda que eu goste de falar sobre esses detalhes, ficar martelando em comparações não vai adicionar nada a essa análise. A melhor opção é confiar na versão de Liz Kendall e dar, no mínimo, o benefício da dúvida ao roteiro de quase iniciante Michael Werwie.

A grande questão aqui é que, mesmo com todas essas dúvidas deixadas de lado, o longa acumula diversos problemas técnicos e narrativos. Não dá pra ignorar, por exemplo, o fato de que Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal é um filme apressado que atropela muitos acontecimentos, deixa informações importantes no ar e abre mão de pontos decisivos na construção dos personagens em nome da necessidade de resumir a história. Quem não conhecer um pouquinho da história de Bundy (seja através do documentário ou não) pode até demorar pra se encontrar graças, não só ao roteiro, como a uma edição extremamente picotada e a uma direção com pouco domínio do formato.

Em outras palavras: Joe Berlinger é um profissional muito experiente que domina o personagem, a história, os fatos e os momentos-chave graças a sua longa pesquisa sobre Bundy, porém demonstra ter algumas carências decisivas na construção de uma narrativa cinematográfica que se apropria muito pouco da sua veia documental. E as consequências disso podem ser sentidas, entre outras coisas, na maneira como o longa vacila na estruturação das motivações de Bundy.

Enquanto o documentário mostra o próprio protagonista falando que é guiado por uma sede de sangue quase sobrenatural que domina ele, o filme mistura isso com uma espécie de esperança ligada ao amor da sua vida. Até acredito, levando em consideração o ponto de vista de Liz, que ele possa ter falado algo parecido, mas nesse caso o objetivo seria de dar corda para uma manipulação que era muito presente nas atitudes do assassino. E o filme até trabalha esse fator da influência de Bundy sobre os outros, mas erra quando não consegue equilibrar essas atitudes com a vontade de matar e os possíveis sentimentos. Eu até poderia acreditar que Ted tinha tudo isso guardado dentro de si, mas a confusão da direção transforma o que poderiam ser traços de complexidade em algo banal e incoerente diante do próprio conceito de psicopatia.

Toda essa organização narrativa cheia de indecisões e pequenas incoerências reflete obviamente nas atuações, sendo prejudicial na maioria das vezes. Zac Efron (O Rei do Show) é constantemente atrapalhado por isso, mas consegue ter fôlego suficiente para se salvar graças a recriação do charme, do carisma e do olhar fixo de Bundy em momentos reais que são impactantes por si só. Por outro lado, Lily Collins (Simplesmente Acontece) sofre bem mais, porque o seu papel narrativo está intimamente ligado a essa subtrama de romance que acaba se mostrando um dos elos fracos do filme. Então, mesmo se esforçando pra extrair o melhor daquele texto, ela ainda fica um pouquinho abaixo do que já mostrou que pode fazer em outras oportunidades.

O roteiro até se esforça para organizar uma informação-chave como uma reviravolta bastante funcional, porém o impacto não tem a força necessária para renovar as energias da personagem. Ela fica estagnada em um ponto confortável e simplório, assim como o restante dos coadjuvantes famosos que aparecem por poucos minutos ou não conseguem se destacar em seus papéis vazios. E olha que estamos falando de uma lista relativamente longa que inclui nomes como John Malkovich (Bird Box), Jim Parsons (The Big Bang Theory), Kaya Scodelario (Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar), Haley Joel Osment (O Sexto Sentido) e Dylan Baker (The Americans).

Mesmo quando o filme assume a proposta de colocar Ted e Liz como antagonistas que precisam de um confronto final digno de faroeste, a relação não tem força ou sustentação para injetar na cena o peso necessário. O resultado é um momento de clímax que, mesmo fazendo pleno sentido dentro da proposta do do longa, não consegue gerar nenhuma emoção no espectador. E, mais do que nunca, nesse ponto da narrativa não importa se aquela sequência foi baseada na realidade ou não, porque a culpa do seu não funcionamento” é exclusiva das escolhas feitas pelo texto e pela direção nos dois primeiros atos.

E, sim, eu achei justo excluir as atuações dessa lista porque uma quantidade razoável de momentos isolados interessantes mostram o quanto Efron e Collins se entregaram aos papéis e se esforçaram. São os dois e essas cenas específicas que salvam Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal (ainda não consegui aceitar esse título…) de ser uma experiência pavorosa. Entretanto, infelizmente, essa conclusão que escolhe caminhar sobre a tênue linha do anti-clímax deixa claro que a maior parte do que funciona e prende o espectador na poltrona está ligado mais a persona extremamente chamativa de Ted Bundy do que às qualidades técnicas do filme em si.


OBS 1: Continuo indicando o documentário. É, sem nenhuma dúvida, uma as melhores coisas que eu vi esse ano, tanto como série quanto como obra de não-ficção.

OBS 2: Como o pôster revela, o longa foi adquirido pela Netflix no festival de Sundance. Estreou no catálogo americano do serviço de streaming em maio, mas vai ser lançado nos cinemas aqui no Brasil. Ainda não foi divulgado se ele entrará no catálogo nacional da Netflix depois.