AODISSEIA
Séries

Supernatural (14ª Temporada) – O escorregão antes do final

Uma temporada descompassada que prepara a série para um final com potencial...


4 de junho de 2019 - 02:53 - Flávio Pizzol
[Atenção: Essa crítica tem spoilers que nem os condenados ao inferno gostariam de receber…]

Quase todo mundo que me conhece sabe que minha relação de mais de uma década com Supernatural faz com que eu seja um defensor da longevidade da série. É claro que também admito os pontos negativos, mas geralmente tende para o lado dos elogios sobre como a série entendeu cada vez mais o seu público com o passar do tempo e usou a criatividade para se adequar, sobrevivendo assim por tantos anos. Agora que a série está chegando em seu – confirmado – fim iminente, vou ser obrigado a soltar (pela primeira vez) uma quantidade maior de palavras negativas que acumulei durante uma 14ª temporada mal organizada e descompassada.

A trama desse penúltimo ano lida, como sempre, com os irmãos Winchester e seus colaboradores tendo que enfrentar algum vilão bizarro. Dessa vez, o antagonista é o Arcanjo Miguel que, usando o corpo de Dean como receptáculo, veio de uma dimensão pós apocalíptica com o objetivo de destruir o nosso universo. Não tem nada de muito novo, mas, ao tempo, tem algumas novidades que mexem com certos pontos que os roteiristas não conseguem trabalhar com a eficiência necessária.

Mesmo não sendo o maior problema dessa vez, algo que chama a atenção logo de cara é a maneira como a ausência do Dean como herói interfere nos roteiros de Supernatural. É claro que isso vai acontecer naturalmente quando algo muda o status quo do melhor personagem, mas essa temporada deixa claro que os roteiros não sabem escrever nada dele fora do círculo de heroísmo. Ou até sabem escrever bons momentos de vilania e só não conseguem manter isso por muito tempo, precisando criar inúmeros artifícios e soluções narrativas absurdas para justificar sua troca constante de lados.

E eu digo isso, porque o começo da temporada é um dos melhores da série inteira. Ter a figura de Dean como um vilão (mesmo não sendo de fato ele) é um diferencial que ainda não tinha surgido até aqui. Dean tem muitas nuances emocionais e é muito mais completo como personagem do que Sam, mas estar do outro lado de maneira inédita injetou novos ares para a série e a própria atuação de Jensen Ackles (Smallville). Tanto que alguns dos melhores momentos desse 14° ano surgem dessa dinâmica, incluindo o dramático episódio em que Dean sugere se matar para deter o arcanjo preso em sua mente. É um momento pesado que constrói com eficiência uma ameaça grande no meio da temporada, mas que acaba sendo deixada pra trás por necessidade do roteiro.

Esse mesmo elemento também influencia naquele que, pra mim, é o grande problema da temporada: a péssima construção dos vilões. Miguel, por exemplo, é um antagonista extremamente superficial e simplório. Ganha algumas camadas externas através do uso de Dean como receptáculo, mas tem uma motivação básica que se perde um pouquinho mais a cada substituição de corpos que leva o Winchester mais velho para o lado bom da mesa. É a mesma coisa que acontece – de um jeito ainda mais inferior – quando a reta final decide descartá-lo em prol da transformação de Jack em um vilão que, teoricamente, deve se estender para a próxima temporada. Em outras palavras: fica sensação de que Supernatural acabou sua temporada no meio e começou um interlúdio nos últimos seis episódios.

Algo que passa muito longe de funcionar, porque a transição do próprio Jack é falha. Seu desenvolvimento como parte da família ocupa um tempo bacana e funciona em relação a torná-lo querido por parte do público, mas a jornada é óbvia e a colagem das peças tão boba que até o espectador mais esperançoso começa a perceber que não vale a pena investir alguma emoção em alguém cujo o caminho está traçado. Isso tira o impacto da principal virada da temporada e deixa uma responsabilidade grande nas mãos dos roteiristas, já que Jack precisa de mais substância pra merecer, no mínimo, o benefício da dúvida que acrescentaria camadas ao seu clímax.

Pra isso, os textos de Supernatural precisam estar prontos para mostrarem doses bem menores de covardia e sequências anticlimáticas. Não dá aceitar, por exemplo, que a série ache bacana matar uma personagem importante fora da câmera. Tudo bem que queriam gerar um possível gancho, mas a obviedade o enfraquece e torno tudo em uma solução pobre. Por mais que essa nova versão da Mary seja uma personagem bastante problemática e mal aproveitada, o peso dela para Sam, Dean e Jack é indiscutível. Ela merecia mais no momento do seu adeus, assim como Jack merecia que esse momento fosse construído menos como um mistério e mais como uma peça decisiva de sua transição como vilão. Da mesma forma, Dean também merecia enfrentar Miguel depois de tudo que sofreu e não ver ele ser vencido por outro numa cena anti-climática que só serve como promessa ou preparação para algo mais.

Isso tudo sem contar que o cardápio de vilões da 14ª temporada ainda inclui uma subtrama envolvendo o Nick que só está aqui pelo simples motivo de que Supernatural não consegue abrir mão da presença de Mark Pellegrino (13 Reasons Why). Ele é um ótimo ator, tem carisma pra mais de metro e funciona perfeitamente na série, mas já passou da hora de ceder seu espaço para outras opções. Acaba sendo mais cansativo do que prazeroso ver ele ser Nick, Lúcifer, um assassino psicopata e uma alucinação de Jack na mesma temporada. Um cansaço ampliado, obviamente, pelo fato da trama do Nick em busca de vingança ser muito ruim.

Só que a parte mais interessante é notar como, mesmo em temporadas tão problemáticas narrativamente, Supernatural ainda consegue entregar bons momentos. É uma série que sabe flertar com a comédia na medida certa, subverter monstros da cultura pop pra ampliar suas histórias e, acima de tudo, usar criatividade pra brincar com seus próprios padrões e/ou clichês. Além disso, essa temporada tem um episódio em particular que deixa claro que a série é mestre na arte de manipular as emoções do público, principalmente através da nostalgia. O episódio em questão é aquele que conta com a volta de Jeffrey Dean Morgan (The Walking Dead) no icônico papel de John Winchester numa trama corrida, que cria poucas consequências pra história geral e não faz jus as expectativas que os fãs tinham com tal volta. Entretanto, a questão é que, apesar de tudo isso, o final do episódio acessa a nostalgia como poucos, mexe com o íntimo de que acompanha a série há tanto tempo e arranca lágrimas intensas.

Algo que a própria série preparou com o desenvolvimento contínuo desse peso familiar que, desde cedo, pode ser visto como elemento central de Supernatural. Um sentimento puro que se estende a relação do elenco com o restante dos funcionários (uma família de verdade), passa sem pressa ao amor de todos os envolvidos para com os fãs e chega as atuações sempre honestas de Ackles, Jared Padalecki (Gilmore Girls), Misha Collins (Timeless) e, atualmente, Alexander Calvert (Quase 18). Uma carga emocional que chega a ótimos momentos no último episódio, graças ao retorno sempre incrível de Chuck com seus diálogos metalinguísticos. Uma carga emocional que, independente de qualquer coisa, vai acompanhar cada episódio da próxima – e derradeira – temporada.


OBS 1: Mil desculpas pela demora com esse texto…