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Com o carimbo de qualidade da HBO, Succession fala sobre o poder dos privilegiados e como vivem os mais afortunados entre a ojeriza e a total ausência de amor próprio


Ver gente rica fazendo coisas de gente rica. Succession poderia muito bem ganhar essa definição dos meros mortais que a assistem, mas vai além. A complexidade de seus personagens mesquinhos beira ao ridículo. Acompanhar a família Roy, donos de vários conglomerados do entretenimento como sites, jornais, revistas, canais de televisão e sabe lá Deus o que mais, é mais divertido do que repulsivo.

Não me leve a mal, não que as atitudes de cada um daquela família nojenta não causem repulsa, mas, há um cuidado para que os personagens sejam fortes e grandes, mesmo que suas ações sejam completamente desprezíveis. Do mais bobo ao mais poderoso, existe um sentimento de luxúria, ao mesmo tempo em que são corrompidos pelos seus desejos mais íntimos e impuros.

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Comandando a linha de sucessão está Logan Roy (Brian Cox, magnífico), patriarca e líder da família que não aceita um “não” como resposta. Se o dinheiro compra tudo e todos, Logan está disposto a pagar o preço. O filho preterido Kendall (Jeremy Strong) vem logo abaixo (as vezes bem abaixo), querendo assumir o lugar do pai, mas sem forças suficientes para tentar qualquer golpe, devido ao medo que tem da grande figura.

O do meio Roman (Kieran Culkin) é um dos mais doentios, apesar de momentos de pura leveza. O combo dos filhos (que merecem ser citados, afinla quem liga pro Connor?), fecha com a única mulher, a caçula Shioban, ou Shiv (Sarah Snook), que começa mais afastada do jogo pelo poder, mas aos poucos ganha gosto pela coisa ao lado do noivo e futuro marido Tom (Matthew Macfadyen). Comendo as migalhas que caem da mesa dos Roy está Greg (Nicholas Braun), recém chegado e sobrinho-neto de Logan. Ele faz as vias do público, ao mesmo tempo em que cumpre qualquer ordem sem pestanejar.

Criada por Jesse Armstrong e tendo a produção de Adam Mckay (que inclusive dirige o piloto), a estética de Succession se aproxima bastante dos filmes do diretor, com a câmera inquieta, por vezes distante, e às vezes sufocante. O texto ágil mostra dinamismo e certo controle de quem o detém. A facilidade com que os núcleos interagem e se fundem não é cansativa, apesar de estarmos diante de uma série complexa.

Não é recomendado por exemplo, fazer uma maratona da produção da HBO, mas digeri-la com o cuidado necessário. A trama segue a família Roy não apenas na briga pelo trono, mas suas falcatruas que deturpam nossa noção de certo e errado e a sociedade como um todo. São bilionários que controlam boa parte daquilo que vemos, ouvimos e até pensamos.

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Com o cinema social e a luta de classes em alta, Succession vai na contramão. Não há ascensão de classes mais baixas, não existem ricos contra pobres, menos favorecidos contra os mais favorecidos. São ricos contra ricos, poder contra poder, manipulação contra manipulação. Se afastar disso parece ser o melhor caminho, ou se aproximar da TV pra ver de perto.

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Succession

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Tiago Cinéfilo
Estudante de Comunicação e editor deste site. Criador, podcaster e editor do "Eu Não Acredito em Nada", o podcast de terror da Odisseia.

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