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Stranger Things 3 – O melhor que Hawkins pode oferecer

Netflix entrega a melhor temporada de série dos últimos cinco anos...


8 de julho de 2019 - 18:33 - Flávio Pizzol
[Atenção: Pequenos spoilers podem ter escapado do Mundo Invertido e tomado conta esse texto.]

A primeira temporada de Stranger Things conquistou o público imediatamente com seu clima oitentista e, mesmo com alguns problemas, garantiu o início de uma franquia milionária pra Netflix. O segundo ano chegou consertando diversos escorregões anteriores, mas deixou pra trás um desenvolvimento estranho e tantos outros erros novos. Agora, depois de uma espera um pouquinho mais longa, a terceira temporada equilibra tons, gêneros e núcleos dentro de uma fórmula perfeita.

E tudo começa com uma trama – bem mais enxuta que a do ano anterior – que acompanha as férias de verão da turma. Uma época de tranquilidade e romance que começa a se desestabilizar quando as típicas coisas estranhas voltam a assombrar Hawkins através de experimentos russos e uma nova versão do Devorador de Mentes. Isso obriga nossos heróis de todas as idades a se separarem para resolver mistérios e enfrentar vilões que podem ameaçar o país.

No entanto, o grande diferencial da temporada é que dessa vez a separação não é metafórica. Os episódios conduzidos pelos irmãos Matt e Ross Duffer (Wayward Pines) realmente começam com os protagonistas divididos em, no mínimo, cinco núcleos: Hopper e Joyce; Will, Lucas e Mike; Max e Eleven; Dustin, Steven e Robin; Nancy e Jonathan. É claro que maioria desses pequenos grupos tende se juntar o mais rápido possível, porém isso não muda o panorama geral de uma decisão que mexe com as dinâmicas da série, melhora as histórias e os arcos individuais, brinca com as possibilidades oferecidas por algumas interações menos comuns e permite que coadjuvantes e personagens novos (destaque para Robin, Aleksey e a maravilhosa Erica) brilhem. Isso tudo sem contar que a separação em questão prepara o terreno para que os encontros tão esperados se tornem momentos de verdadeiro clímax emocional, representando algo que esperado dentro e fora da telinha.

stranger things eleven max

Mesmo assim, vale ressaltar que nenhuma dessas vantagens seriam possíveis sem a organização narrativa que Stranger Things demonstra ter depois de se complicar na segunda temporada. Aqui eles conseguem, por exemplo, fazer com que os diversos núcleos sejam construídos, desenvolvidos e finalizados paralelamente sem embolação ou atropelo. Nenhum deles é mais importante para o ato final do que o outro, assim como nenhum deles carrega destaques negativos. Os grupinhos conseguem conquistar o público a partir de suas características próprias e manter a atenção sem cansar graças a três aspectos decisivos: a trama mais concisa. a opção por interações que ajudem na evolução narrativa de cada peça e a qualidade dos personagens em si.

Esse último aspecto, por motivos óbvios, também depende das habilidades de um elenco que só melhora. Entre as “crianças”, Millie Bobby Brown (Godzilla – Rei dos Monstros) e Noah Schnapp (Abe) demonstram um crescimento da capacidade dramática tão notável que roubam o protagonismo para si mesmo quando esse não é objetivo da série. Isso faz com que Finn Wolfhard (It: A Coisa) e Caleb McLaughlin (High Flying Bird) tenham que correr atrás para aproveitar seus momentos de destaque, enquanto a ótima Sadie Sink (O Castelo de Vidro) brilha nas interações com Eleven e o irmão. Gaten Matarazzo (The Blacklist) solidifica seu status de alívio cômico fofo, carregando uma parte importante da série ao lado dos também incríveis Joe Keery (A Grande Jogada), Maya Hawke (Little Women) e Priah Ferguson (Atlanta). Em um núcleo meio deslocado, Charlie Heaton (Os Novos Mutantes) e Natalia Dyer (Velvet Buzzsaw) cumprem seus papéis sem erros. E, pra completar, Dacre Montgomery (Power Rangers) ganha um arco de verdade e rouba alguns holofotes no último ato da temporada.

stranger things hopper joyce

Já entre o elenco adulto, o destaque lógico continua nas mãos de Winona Ryder (Cisne Negro) e David Harbour (Hellboy). Eles tem química, talento e energia suficiente para injetar vida na subtrama mais batida de Stranger Things, mas também sabem como aproveitar a companhia muito bem-vinda de Brett Gelman (Fleabag) e Alec Utgoff (Operação Sombra: Jack Ryan). Por fim, lembram do já citado destaque que personagens secundários pouco aproveitados receberam graças à divisão em núcleos? Cara Buono (Cidades de Papel) e Cary Elwes (Jogos Mortais) talvez sejam os melhores exemplos de aproveitamento sutil e certeiro dos pequenos momentos onde se tornaram peças centrais da trama.

Além disso, o texto de Stranger Things costura cuidadosamente todas essas tramas paralelas e personagens com um equilíbrio entre tons e gêneros que facilita bastante o trabalho da equipe. O resultado é uma temporada que consegue reunir de maneira ainda mais divertida e coerente o espírito de aventura oitentista, a vibe familiar, o romance adolescente, a comédia, o suspense de espionagem, as grandes cenas de ação e o terror, melhorando inclusive o balanceamento em relação as temporadas anteriores. E a prova disso está na maneira como o cuidado dos Irmãos Duffer pode ser sentido com a mesma proporção nas perseguições dos monstros, nas piadas bem posicionadas e até nos diálogos singelos que acontecem no chão do banheiro.

Todas as peças são importante nesse quebra-cabeça e a direção – que passa pelas mãos dos próprios Irmãos Duffer, Shawn Levy (Gigantes de Aço) e Uta Briesewitz (Westworld) – reflete isso com muita precisão. É só prestar atenção em como a paleta de cores ganha alguma leveza com a chegada das férias, como a câmera acompanha com uma sensibilidade ímpar os momentos de descoberta da Eleven (com o Mike e com a Max) ou como o timing cômico da edição permite que um momento musical bizarramente fofo e engraçado atravesse uma sequência de perseguição extremamente tensa sem perder o ritmo. Tudo com importância para evolução dos personagens ou amarração da trama.

Só que, ainda que os acertos estejam presentes em todos os gêneros, é impossível negar que os diretores se divertem e se destacam mais quando mergulham no universo do terror. Um caminho que faz parte da identidade da série desde o começo, mas foi ganhando mais espaço com o desenrolar da história até chegar ao seu ápice em uma temporada que investe pesado tanto em cenas sangrentas e visualmente impactantes, quanto na construção da atmosfera. Em outras palavras, Stranger Things entende o poder do gore, porém prefere fazer o espectador sentir um medo mais duradouro através dos personagens do que apelar para sustos baratos.

Uma escolha incrível (e corajosa em relação aos filmes de terror atuais) que depende muito do talento do elenco, mas também passa por outros aspectos decisivos, como a qualidade dos vilões. E por mais que essa temporada aposte em muitos capangas sem motivações, políticos corruptos ou russos pouco desenvolvidos, os diretores sabem como fazer o público sentir o peso das ameaças. E num produto cujo o ponto forte são os personagens carismáticos não existe mais tenso do que sentir que algum dos seus favoritos pode morrer na próxima pancadaria ou encontro com o monstro. Como alguém que sentiu isso várias vezes, posso dizer que essa sensação de que nem os protagonistas são intocáveis injeta força quando o foco da temporada está no suspense ou na tensão.

Mas o jogo definitivamente não para por aí, porque uma grande série não pode encerrar sua leva de episódios sem derrubar tudo com um ápice emocional. Principalmente depois que os episódios anteriores investem pesado em situações que aumentam o apego do público com o personagens. Stranger Things abre espaço no meio de suas referências cada vez mais pontuais (outro acerto da temporada) para fazer esse trabalho só pelo prazer de arrancar emoções genuínas – dentro e fora da tela – durante o último episódio. Era a cereja que faltava para completar um bolo preparado com muito carinho para ser o melhor que Hawkins tem para oferecer. Uma experiência completa que arrancasse gritos, risadas e lágrimas em cada um dos seus oito pedaços muito bem organizados, deixando ainda aquele bom e velho gostinho de quero mais.


OBS 1: Não sei se a crítica conseguiu refletir o quanto eu gostei dessa temporada, então vou resumir em uma frase: fazia tempo que eu não gostava tanto de uma série…

OBS 2: Caso você tenha cometido o erro de chegar nesse ponto desse texto sem ter visto a temporada, recomendamos o texto de retrospectiva do Geek Guia.