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Space Force tem um elenco carismático e piadas atuais, mas não consegue ser mais do que uma versão militar e inferior de The Office


Os EUA é muito militarizado. Sua própria história ficou muito ligada a isso depois que o país foi peça importante nas duas guerras mundiais e se tornou “o cabeça” outras tantas batalhas. Um contexto que, na minha opinião externa e completamente leiga, parece ter sido ampliado pelo governo de Donald Trump, um homem sem noção que ignora a ciência e adora fazer ameaças através do Twitter.

Considerando tal cenário e o fato desse mesmo presidente ter lançado uma Space Force na vida real, não é nada bizarro ver Greg Daniels (Upload) e Steve Carell (O Virgem de 40 Anos) se reunindo em torno da essência de The Office com o objetivo de tirar sarro dessa parcela do jogo político e, obviamente, dos homens por trás dele.

E, se você pegar os alicerces da história de Space Force (a série, não a instituição real), pode realmente notar algumas semelhanças com o maior sucesso da carreira de seus criadores. Afinal de contas, a nova aposta da Netflix acompanha Mark Naird, um general de quatro estrelas que recebe a missão de liderar uma nova empreitada chamada justamente de Space Force. O problema é que a nobre missão de colocar “coturnos na lua até 2022” acaba sendo deixada de lado por esse chefe que não acredita na ciência e seus funcionários destrambelhados.

As viagens de Space Force

Space Force

Uma premissa familiar que, assim como The Office, se desenvolve através de um humor cotidiano e amplamente baseado em estereótipos comuns. Tudo bem que aqui temos versões “militarizadas” de Michael Scott, Dwight Schrute, Jim Halpert, Pam Beesly e outros habitantes da Dunder Mifflin, mas isso importa muito pouco quando a fonte das atitudes apresenta tantas semelhanças. A diferença é que saímos de um escritório normal para uma instalação militar que, além de flertar com clichês comuns, também estende suas brincadeiras a elementos típicos de longas mais politizados sobre o exército.

Logo, seguindo o que acontece em outras séries com essa mesma dinâmica sem reinventar a roda, Space Force gira em torno de dois fatores principais: o absurdo (ou nonsense para os mais íntimos) das situações e o confronto direto entre personalidades diferentes.

O primeiro ponto começa com o exagero da burrice, da irritabilidade e das atitudes idiotas de boa parte dos coadjuvantes, mas fica óbvio de verdade na maneira como a série amplifica coisas que já são absurdas por si só, como é o caso da descrença na ciência. Essa pode ser uma missão difícil graças a realidade cada vez mais louca em que estamos vivendo (vide a parada do desinfetante sugerido pelo Trump), mas o pior é que a série chega bem perto de ultrapassar com chimpanzés fazendo caminhadas lunares.

Space Force

Já o segundo aspecto, por sua vez, funciona quase como uma extensão dessa tarefa central, abraçando principalmente os contrastes entre o Naird (que fala boa parte dos absurdos anti-ciência) e o cientista-chefe interpretado por um John Malkovich (Bird Box) no piloto automático. Não tem nada necessariamente inovador, mas é um caminho que a série usa pra espetar o presidente e desenvolver os elementos mais críticos do seu subtexto. É verdade que muitas situações deixam isso de lado em nome de um humor bem mais idiota, porém ninguém vai negar que o foco está nos políticos e afins.

Eu admito que não ri tanto quanto esperava, mas a comédia é algo muito pessoal. Quem gostar da proposta e, principalmente, do equilíbrio estranho entre críticas inteligentes, sacadas exageradas e a idiotice em sua versão mais pura, vai se sentir no paraíso. No entanto, vale alertar que uma parcela bem grande do público internacional pode ficar perdida em certos momentos que giram em torno de conceitos ou fatos especificamente americanos.

Space Force

Não estou criticando Space Force por falar sobre o seu país de origem ou pelo fato de não ter me feito rolar de rir, afinal estamos falando de uma série americana que pretende ser mais do que uma sitcom que arranca gargalhadas frouxas. Também não estou dizendo que a série não tem graça. Estou dizendo que o texto se perde mais do que deveria na sua dinâmica, apostando em piadas que vão parecer deslocadas em qualquer parte do mundo.

Essa escassez de harmonia entre os tipos de comédia quebrou minha imersão diversas vezes, porém o que mais me incomodou foi a falta de unidade entre os episódios. Entre passagens temporais bizarras, a série parece escolher caminhos divergentes a cada capítulo e isso quebra a continuidade dos relacionamentos, atrapalhando bastante o desenvolvimento dos personagens. Eles ficam boiando no meio de uma trama que ignora o que aconteceu antes para enquadrar as atitudes dos personagens no que vai acontecer. A relação de Naird com a filha, por exemplo, vai do amor genuíno ao combate ferrenho sem nenhuma preparação narrativa e isso deixa um gosto amargo na boca.

Space Force

“Ah, mas Space Force é comédia. Ela pode ter episódios soltos…”. Poderia, se sua essência estivesse mais próxima de sitcom sem amarras que encerra suas tramas em um episódio. Mas, como eu já disse, não é isso que acontece. A série depende muito da evolução dos seus personagens pra contagiar o espectador e construir um subtexto que não canse ou soe repetitivo.

Pra piorar, as tentativas de se diferenciar através da direção ou do seu valor de produção não apresentam muito sucesso. A série tem cenários grandiosos, estrelas de cinema passando em cada esquina e uma pegada bem cinematográfica na condução do humor, porém não consegue transmitir a vitalidade, a acidez ou a agilidade que o texto parece ter. Não sei se vou conseguir explicar exatamente o que senti, mas o episódio dos jogos de guerra deixou claro como um texto pode ter boa parte do seu potencial desperdiçado por causa de uma realização que não se arrisca. É tudo muito padronizado, óbvio e insosso.

Space Force vale a pena?

Com isso, Space Force fica presa num limbo de indecisões estilísticas (não quer ser uma sitcom, mas não cria amarras; tem orçamento de filme, mas não faz nada pra sair do lugar comum) e acaba dependendo quase exclusivamente do carisma de Steve Carell (Vice) e algumas participações mais pontuais para funcionar. Eles fazem milagre com o material mediano que tem em mãos e tentam motivar o público a continuar na jornada, mas não conseguem evitar que a maratona seja truncada. Daquelas em que, ao invés de continuar cegamente, o espectador repensa todas a vezes se vale a pena o próximo episódio.

Space Force

Pra não ser totalmente injusto, Space Force apresenta detalhes inesperados no decorrer dos episódios e o final tenta amarrar as pontas de maneira sólida, mas o estrago causado pelos personagens mal construídos já tomou conta da base inteira. E aí tudo parece fora do lugar. Os saltos temporais quebram a narrativa, as subtramas que recebem mais foco não prendem a atenção, os relacionamentos evoluem sem peso algum e certos coadjuvantes tomam atitudes que não fazem o mínimo sentido.

Como se isso não fosse o bastante, Space Force ainda falha na entrega de reviravoltas óbvias e força o espectador a engolir um gancho mediano. Em outras palavras, a produção deixa todo o seu potencial (crítico e humorístico) escapar por um buraco na habitação lunar, se revelando como uma versão inferior de The Office que coloca o público na pele de astronautas despreparados que caminham por vazios existenciais sem saber exatamente o que está fazendo ali.

A série Space Force, está disponível na netflix

OBS 1: Não acreditar na ciência não é a parada mais absurda de Space Force e isso é realmente assustador.

OBS 2: Um presidente tão ligado a industria armamentista que manda algumas pro espaço só pra fazer propaganda. Só eu acho que o Brasil também faria isso se tivesse investimentos pra criar uma área espacial…

OBS 3: Infelizmente, Space Force acabou sendo o último trabalho do incrível Fred Willard. O ator – que faleceu duas semanas há duas semanas – aparece em alguns momentos como o pai senil do protagonista. Suas piadas abusam dos clichês, mas o carisma dele arranca alguns sorrisos nessas cenas.


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Space Force (1ª Temporada)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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