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Sonic: O Filme é uma adaptação genérica e bem bobinha, mas consegue divertir tanto os adultos nostálgicos quanto as crianças aceleradas do século XXI.


Depois de quase trinta anos correndo rumo ao sucesso em diversos consoles e plataformas, o ouriço azul que marcou a infância de toda a geração Z finalmente chegou aos cinemas. E fez isso cercado por muita curiosidade, graças as inúmeras polêmicas que surgiram desde o instante em que o primeiro trailer foi lançado. Resultado: a versão inicial e bizarramente antropomórfica do personagem foi substituída por uma opção mais fiel, caricata e até mesmo coerente com o tom da produção. Algo que pode ser confirmado com facilidade por qualquer pessoa que for assistir ao genérico, porém divertido Sonic: O Filme.

O longa, por motivos óbvios, acompanha a saga do personagem-título, um ser alienígena que precisa se esconder na Terra depois que alguns compatriotas malignos descobrem seus poderes de alta velocidade. Uma vida relativamente tranquila que sai dos eixos quando uma grande explosão de energia chama a atenção do governo e do vilanesco cientista Ivo Robotnik, dando início a uma perseguição que ainda envolve um policial que decide ajudar o pequeno e solitário Sonic.

Uma trama bastante simples que é usada como mero pontapé para uma comédia que, em termos de estrutura narrativa, pode ser classificada como uma versão para menores dessa proposta que arrancou aplausos em produções que vão desde Curtindo a Vida Adoidado até Deadpool. Em outras palavras, é um filme que aposta em piadas rápidas que geralmente envolvem a quebra da quarta parede, milhares de referências a cultura pop e mais uma porrada de easter eggs sendo lançadas na cara do espectador da maneira mais acelerada possível. Não tem nada de inovador e pode até ser considerado repetitivo por muita gente, mas funciona surpreendentemente bem dentro da proposta.

Algo que passaria longe de ser uma verdade, caso os produtores optassem por manter aquele primeiro visual. Eu acredito que os dentes humanos, a ausência de sobrancelha e as pernas alongadas criariam um vale da estranheza tão profundo que nenhuma piada conseguiria superá-lo, fazendo com boa parte do carisma do filme fosse perdido. É por isso que, encerrando esse assunto de uma vez por todas, a versão caricata merece ser tratada como uma proposta mais coerente pra essa vibe surtada e absurdamente divertida.

No entanto, por mais que arranque boas risadas e conquiste os adultos com algumas sacadas mais nostálgicas, temos que deixar claro que Sonic: O Filme é uma produção infantil sem grandes pretensões. Um ponto que precisa ser esclarecido porque ajuda na compreensão da maior parte das escolhas feitas pelo longa, incluindo o tom meio abobalhado e as inúmeras convenções de gênero que povoam o texto da dupla Patrick Casey e Josh Miller (Into the Dark). Lógico que isso não significa tratar as crianças como idiotas e simplesmente ignorar os erros do filme, mas permite sim que muita coisa seja vista com olhos “menos críticos”.

É o caso da estrutura repetitiva e padronizada; das coincidências que empurram o filme pra frente sempre que alguma dificuldade aparece; dos poderes que crescem como uma espécie de deus ex machina; da necessidade de amarrar tudo com uma grande lição; ou dos coadjuvantes humanos serem mais sonsos do que o normal pra ressaltar as virtudes do Xerife Wachowski. Problemas que podem mexer com a experiência de uma parte do público, mas que passam tão despercebidos pelo target real que merecem ser, de certa forma, perdoados. Inclusive, a divisão do filme em fases de jogo nem entra nessa discussão por ser uma decisão óbvia e facilmente aceitável.

O que eu não consigo perdoar é o fato de Sonic desperdiçar uma parcela considerável do seu potencial no momento em que decide restringir a aparição da ilha (e do universo do jogo como um todo) aos primeiros minutos da produção. Entendo que posicionar o filme inteiramente naquele cenário talvez fosse inviável, mas um melhor aproveitamento funcionaria como um diferencial bem interessante para o longa. Principalmente se levarmos em consideração que a opção apresentada é um filme genérico que se aproxima mais do que precisava de Smurfs e outras produções que misturaram humanos e computação gráfica sem muito sucesso.

Faltou ter coragem pra realmente mergulhar nos mundos apresentados em Sonic e isso reflete diretamente na direção limitada do estreante Jeff Fowler. Digo isso porque ele engrandece um texto funcional com boas sacadas visuais, acerta na dinâmica entre os personagens e entrega cenas de ação eficientes, mas fica o tempo todo preso a elementos narrativos extremamente óbvios. Indo da dupla de “policiais” diferentes até a aventura interiorana, todas as peças usadas aqui já foi filmadas com mais assertividade em outras produções, e isso enfraquece o longa como um todo. Vide, por exemplo, como as cenas que exploram a velocidade do ouriço não passam de uma versão barata do que Flash ou X-Men fizeram há pouco tempo.

Dr Robotinic Sonic

A consequência de tudo isso é que a obra precisa se segurar com muito mais força no único elemento que realmente prende a atenção do público: Jim Carrey (Kidding). Eu sei que ele não é o protagonista e concordo que Ben Schwartz (House of Lies) se esforça pra injetar personalidade no ouriço azul, mas é inegável que a parceria de Sonic com o apenas carismático James Marsden (Westworld) não consegue chegar aos pés do magnetismo oferecido pela atuação maravilhosamente caricata do comediante. Ele se entrega ao papel com o mesmo fôlego dos anos 90 e transforma Robotnik em um vilão incrível através de suas típicas caretas e dancinhas.

Só que, mesmo assim, ele não tem força ou tempo de tela suficiente pra carregar tudo nas costas, e é nesse ponto que um pouquinho mais da ilha faz falta. Tanto que as aparições desse universo e seus personagens fazem com que as cenas pós-créditos se tornem o ponto alto do filme, deixando tanto um gostinho de esperança para as continuações quanto um sentimento amargo em relação a algo que poderia ser muito melhor. Esse misto de alegria e tristeza me incomodou bastante, mas ainda seria injusto ignorar os minutos de diversão que Sonic oferece para as “crianças” nostálgicas de todas as idades. Algo que, nesse caso, pode fazer a corrida até o cinema valer a pena…

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6.5

Sonic ganha um longa infantil bobo e sem pretensões artísticas, mas também consegue ser razoavelmente divertido.

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