AODISSEIA
Séries

Smithereens é um exemplar pouco corajoso de Black Mirror

E isso o coloca na disputa dos piores episódios da série...


19 de junho de 2019 - 12:08 - Flávio Pizzol
[Atenção: Esse texto tem spoilers e eu só vou cortá-los se conseguir falar com o Mark Zuckerberg…]

Desde que Black Mirror foi comprada pela Netflix, um esporte rouba todos os holofotes a cada lançamento: culpar o serviço de streaming pela suposta queda de qualidade. Eu, como já deve ter dado pra imaginar, sigo um caminho quase oposto quando me forço a não entrar nesse jogo. Claro que entendo algumas reclamações ligadas a quantidade de episódios, contratação de novos roteiristas ou mudanças no tom, porém admito que gosto bastante de algumas histórias – como USS Callister – lançadas nessa leva e entendo que episódios abaixo da média podem fazer parte da vida de qualquer série. Infelizmente, Smithereens caminha por caminhos nada corajosos, escorrega um pouquinho nas essências e entra em alta velocidade nessa lista nada positiva.

A trama acompanha um motorista de aplicativo que espera todos os dias na frente de uma grande empresa de tecnologia com o objetivo de ser contratado por algum funcionário. Quando isso finalmente acontece, as coisas saem do controle e o obrigam a lidar – no improviso – com empresários sem coração, policiais apressados, frequentadores de uma rede social prima do Twitter e as pressões impostas pela sua própria mente.

A proposta de Smithereens possui, como sempre, alguns elementos interessantes e acerta principalmente na apresentação dessa ideia de que o medo retratado em Black Mirror está cada vez mais próximo do nosso presente. Com esse pé muito bem calcado na realidade, a direção de James Hawes (The Alienist) acumula alguns pontos positivos no desenvolvimento do clima, na construção do senso de urgência e no aproveitamento do seu protagonista. Mesmo sendo pouco conhecido do grande público, Andrew Scott (Sherlock) é um dos atores mais versáteis da sua geração e demonstra uma boa parte desse talento na maneira como controla a loucura do personagem. Isso pode parecer pouco, mas a dinâmica desenvolvida por Hawes e Scott cadencia a narrativa e se torna peça essencial no balanço de um episódio que não precisaria ser tão longo.

Smithereens black mirror andrew scott

No entanto, isso não muda o fato de que o episódio acumula problemas que vão dessa duração desnecessária até a resolução fraca, passando por dois atos iniciais que deveriam ser muito mais ágeis. Em outras palavras, o resultado é uma trama que demora pra chegar no que realmente interessa e decepciona bastante quando finalmente chega. Algo ruim que ainda ganha dimensões maiores graças a uma narrativa que se apoia e deposita toda sua expectativa num momento específico. E, nesse caso, um clímax frustante é igual a um castelo de cartas que se desmonta sem levar em consideração as bases bem construídas.

Sendo um pouquinho mais específico, a frustração que destrói Smithereens possui dois pilares: Billy Bauer e seu tão esperado diálogo com o protagonista. No primeiro aspecto, o problema central está na personalidade rasa do personagem interpretado por Topher Grace (Infiltrado na Klan). Bauer é um geek genérico que não passa de uma imitação de qualquer criador de aplicativo, nem possui nenhum característica que ofereça algo novo para o clímax do episódio. Ao mesmo tempo, a conversa final – que funciona como o objetivo a ser alcançado por quase uma hora – acaba sofrendo com essa escolha e perde sua força a cada fala onde as responsabilidades de ambos os lados são mal trabalhadas e/ou jogadas no colo de outra pessoa.


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Ao contrário do que a construção de expectativa sugere durante toda a história, Billy Bauer e Chris Gillhaney (o protagonista) não travam um embate de verdade. E, mesmo sob o risco de cair em uma solução clichê, digo que um pouquinho daquele antagonismo mais clássico cairia bem tanto em relação ao terceiro ato como um todo, quanto em relação ao dono da empresa que dá nome ao episódio. Gillhaney tem tons de cinza e algumas camadas que chamam atenção, logo precisaria de um adversário que possibilitasse algum contraste de ideias. Sem isso, o que sobra é uma conclusão anticlimática que ainda se nivela por baixo com uma temporada que não parece ter dado o devido valor a coragem.

Smithereens black mirror topher grace

Se perdendo completamente no final, Smithereens entrega os piores últimos minutos de Black Mirror por pura covardia. E, independente do fator Netflix, isso pode ser usado como argumento para quem defende que a série perdeu sua essência, já que a coragem é parte importante desde o início da sua trajetória. E sou obrigado a admitir que é triste ver uma série que já fez o primeiro ministro do Reino Unido transar com um porco por puro sadismo de seu antagonista, escolher uma conclusão tão nublada e facilitada como essa.

O meu ponto de esgotamento com o episódio foi ver essa trama com potencial para explorar inúmeras possibilidades ser resumida a polícia matando o protagonista do jeito mais óbvio possível. Ele poderia ter sobrevivido e forçado a rede social a mudar alguma coisa, poderia ter realmente se suicidado e chocado o mundo a certa dos efeitos diretos ou indiretos da internet e por aí vai. Mas não, Charlie Brooker (criador da série e roteirista de todos os episódios dessa temporada) preferiu colocar um fator externo e secundário, que só estava ali porque precisava estar por conta da verossimilhança, para resolver toda a confusão. É claro que eu não posso, como espectador, garantir que o suicídio ou qualquer outra solução seriam opções melhores, porém não paro de pensar que deixar a decisão na mão dele seria pelo menos uma saída mais honesta em relação a jornada do personagem.

Tudo bem que os segundos finais de Smithereens flertam – acertadamente – com a ideia de que ninguém se importou de verdade com aquilo, pinta algumas camadas de indiferença e vilania em Billy Bauer e reúne frames que funcionam dentro dessa temática dos males das redes sociais. Só que, mesmo tendo a cara de Black Mirror, isso chega tarde demais e sem o peso que o próprio episódio precisaria para não ser esquecível e descartável. Um desenvolvimento mais ágil e coerente, personagens impactantes e um final corajoso poderiam mudar muito coisa, evitando até mesmo que o episódio terminasse como um espelho quebrado que poderia ser trocado por qualquer coisa.