Siamak Etemadi
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Confira nossa entrevista exclusiva com o iraniano Siamak Etemadi, diretor de Pari

Como disse na introdução da entrevista com o diretor Bahman Tavoosi, a pandemia impediu que nossa cobertura fosse completada por entrevistas coletivas com alguns nomes incríveis.

Mas, como bons brasileiros que somos, e nós seguimos em frente e aproveitamos a chance de falar com alguns diretores estreantes cujos longas nos impressionaram. Incluindo esse que ganhou um espacinho tanto na minha lista de melhores, quanto na do Tiago.


+++ Entrevista com Bahman Tavoosi
+++ Texto sobre a coletiva de O Farol
+++ Confira todos os textos que fizemos durante a Mostra de São Paulo

A missão

Conversar com artistas que estavam exibindo seus primeiros filmes na Mostra de São Paulo, aproveitando alguns destaques da Competição de Novos diretores.


O filme

Pari

Foto: Divulgação

Permeado por política e questionamentos libertários, Pari é um poderoso drama sobre a força imparável do amor materno. Uma produção realista e extremamente emocionante que entrou, com muita folga, pro hall de grandes surpresas dessa edição.

Confira a crítica completa


O diretor

Siamak Etemadi nasceu em Teerã, no Irã. Estudou cinema em Atenas e foi assistente de direção em vários filmes, séries de TV e séries documentais. Também trabalhou como ator, tanto no teatro quanto no cinema. Seu curta Cavo D’Oro estreou no Festival de Locarno em 2012. Pari é seu primeiro
longa-metragem.

Descrição retirada do site da 44ª Mostra de São Paulo


A entrevista com Siamak Etemadi

A Odisseia:

Eu acredito que há algo muito pessoal em Pari, e é isso que torna o filme tão poderoso. Como você se sentiu durante a produção? É uma espécie de sentimento terapêutico?

Siamak Etemadi:

Este é o meu primeiro longa-metragem, então grande parte da minha concentração e esforços foram direcionados para manter o controle dos dias de filmagem. Fizemos uma preparação extensa e isso ajudou muito, especialmente nos momentos em que me sentia sobrecarregado e de alguma forma perdido.

Como você bem mencionou, o filme tem elementos pessoais e eu pude sentir fortes emoções e sentimentos por dentro. Mas eu sabia que meu trabalho era fazer o trabalho exigente que tinha em mãos, então, durante a filmagem, tentei não duelar muito com essas emoções agitadas. No entanto, parece terapêutico quando você vê algo profundamente pessoal para você, sendo moldado lá, na forma de uma história nos locais de filmagem.

A Odisseia:

Quais foram os momentos mais importantes (bons e/ou ruins) desse processo?

Siamak Etemadi:

O dinheiro é sempre um problema, especialmente se for seu primeiro filme. Você precisa convencer muito antes de começar. Colaborações são outro grande desafio. O cinema é uma arte colaborativa. Você precisa de artistas talentosos em todas as fases do trabalho para trazer sua experiência e imaginação para a mesa. E então todas essas informações devem servir a uma visão coerente, a sua visão. É uma grande curva de aprendizado saber quando ouvir seus colaboradores e quando empurrar com sua própria visão, apesar das divergências e dúvidas.

Como um novo cineasta, você precisa encontrar sua própria voz e evitar a mediocridade o máximo que puder. E isso não pode ser alcançado sem correr riscos e entrar em novos territórios, especialmente nesse mundo carregado de conteúdo louco.

Siamak Etemadi

Siamak Etemadi / Foto: Anna Psaroudaki

A Odisseia:

Fiquei muito interessado na forma como Pari foge das versões históricas e misteriosas da Grécia para mostrar um lado mais sombrio e realista das ruas. Como foi capturar esse lado mais político e social do país?

Siamak Etemadi:

Esta é a história de uma mãe à procura do filho desaparecido em Atenas. Ela se sente compelida a vasculhar o ponto baixo da cidade, para onde os sinais a levam. Ela se torna uma estranha em uma terra estranha. Tudo é novo para ela, emocionante e assustador. Assim, as paisagens urbanas tornam-se um novo material para decifrar, tanto como mundo exterior, mas também como reflexos de sua busca interior. Cada bairro está associado a uma etapa de sua jornada; o centro da cidade representa o status quo, Exarchia é o local da dissidência política, o distrito da luz vermelha é a área do blasfemo e do profano. É como se a cidade lhe mostrasse o caminho.

Há uma energia única em Atenas, desde suas pequenas igrejas até seus tumultos, entre suas ruelas decadentes e seus monumentos antigos. Ela oferece o equilíbrio certo dos opostos para a história; o moderno e o antigo, o sagrado e o revolucionário, o vibrante e o decadente. Atenas é a minha cidade, adoro-a e ouso dizer que, cinematograficamente, ainda não foi totalmente descoberta.

A Odisseia:

De certa forma, Pari fala sobre o amor de mãe que fica preso entre o Ocidente e o Oriente. Como é viver entre esses lados que muitas pessoas (erroneamente) insistem em tratar como antagonistas? Quanto desse amor seria necessário para aumentar a paz?

Siamak Etemadi:

Como Pari, eu já fui um total estranho em Atenas. Mas agora, depois de 25 anos morando aqui, minha identidade é moldada tanto por minhas raízes iranianas quanto por minha vida na Grécia. Por um lado, existem valores culturais de minha origem iraniana: seu estado islâmico, bem como sua poesia persa clássica, com temas de amor, saudade e renascimento. Por outro lado, há a cultura e os ambientes gregos: suas liberdades ocidentais e sua energia urbana, junto com suas antigas tragédias e seus insights psicológicos. Essas experiências se refletem na história, pois acho que o choque e a fusão das culturas dentro de Pari podem refletir uma experiência crucial de nossos tempos.

A imagem apresentada de mulheres muçulmanas pode ser superficial e estereotipada às vezes. Tentamos evitar clichês de muçulmanos aqui, e ocidentais ali. As limitações sociais de Pari foram a primeira camada com a qual brincar. Foi divertido quebrar. À medida que Pari segue os passos do filho, está tendo uma experiência de imigrante de forma mais condensada e intensa. Os desafios que enfrentamos quando nos mudamos para um novo país podem ser libertadores e emocionantes. Mas então, ela se depara com seus conflitos internos. Nesse aspecto, ela poderia ser de qualquer lugar; é universal.

Siamak Etemadi

Da esquerda para a direita: Kontantinos Kontovrakis (produtor), Shahbaz Noshir (ator), Melika Foroutan (atriz), Siamak Etemadi e Giorgos Karnavas (produtor) / Foto: Berlinale

É importante identificar o papel da sociedade nas lutas que enfrentamos, mas também devemos explorar nossos próprios erros. Qual é a fonte de nossas agonias existenciais, e que maneiras encontramos de adiar o embate com elas? Continuei fazendo essas perguntas sobre ela, o que levou a história em novas direções e, por sua vez, tornou a personagem mais atraente. Eu senti que, no fundo, esta é uma história sobre identidade. Se camadas de sua identidade atribuída forem removidas, o que sobrará? Se sua religião, sua língua materna, sua classe social, até mesmo sua maternidade não podem mais defini-lo, então quem é você?

A Odisseia:

Por fim, como você se sente ao ver seu filme no festival? E como é acompanhar a recepção de tão longe?

Siamak Etemadi:

É um prazer saber que seu filme está viajando para os mais longínquos cantos do mundo e tem a chance de ser visto por comunidades tão diversas. Eu adoraria compartilhar a experiência com o público brasileiro. Estar na sala de exibição e ver como os paulistas reagem ao filme, o que os chama a atenção, o que os emociona e o que não emociona teria sido um presente para mim como cineasta. Há muito a ser aprendido lá.

Mas este ano tivemos esta surpresa muito desagradável da pandemia. Então, por enquanto, parabéns a todos vocês, ao redor do mundo, que conseguiram manter os festivais de cinema, essa parte crucial de nossa arte, vivos.


OBS: A foto de capa foi retirada de uma entrevista em vídeo publicada pelo site Cineuropa.


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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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