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Séries: The Walking Dead (7ª Temporada/Parte 1)


13 de dezembro de 2016 - 09:00 - Flávio Pizzol

Quem serão os Salvadores dessa temporada?


The Walking Dead é uma das séries mais assistidas da televisão mundial, mas também pode ficar facilmente com o título de programa mais instável de todos os tempos. Apesar de todos saberem dessa verdade indiscutível, a chegada de Negan veio junto com uma dose de esperança que já está se esvaindo aos poucos. A própria audiência sofreu quedas consideráveis nos últimos episódios e ajudou a comprovar que não existe nenhum Salvador que possa tirar a série do seu poço de más decisões.

E olha que o primeiro episódio abriu essa temporada com o pé na porta. Foram 45 minutos de pura tensão, surpresas, violência e um trabalho impecável de desconstrução do seu protagonista, enquanto apresentava um vilão que reunia sarcasmo e medo em cada uma de suas atitudes imprevisíveis. Foi tão bom que eu terminei a exibição com vontade fazer algo incomum: escrever sobre o episódio de uma série de forma separada.

O mundo entrou em um misto de desespero e animação em torno do futuro do sétimo ano, mas o segundo episódio fez questão de colocar as expectativas no seu lugar. E, apesar do ritmo super lento, eu vou passar longe de falar que não gosto do episódio de apresentação do Reino. Pelo contrário: como fã dos quadrinhos originais que já conhece Ezequiel (Khary Payton) e sua importância para o restante desse arco, eu amei o que os roteiristas da série fizeram. No entanto, a condução do episódio já adianta uma boa parte dos problemas que vão ocupar essa primeira metade.

O primeiro deles é a velha e estúpida separação do grupo em núcleos distintos que precisam ocupar episódios inteiros apenas com o desenvolvimento de suas histórias particulares. Eu sei que já devia estar acostumado com algo que The Walking Dead tem feito com frequência desde a segunda temporada, mas não consigo enxergar nenhuma vantagem narrativa nessa decisão, além de algumas facilidades na gravação dos episódios.

E os problemas só vão acumulando com todas as péssimas decisões tomadas pelos roteiristas. Não existe sentido nenhum em quebrar o ritmo da ótima trama com Negan para apresentar Ezequiel, sabendo que ele não vai aparecer de novo nessa primeira metade. Não vale a pena ficar acompanhando uma personagem sem sal como a Tara, enquanto ela também apresenta um grupo inédito de amazonas que pode ou não voltar por agora. Até acompanhar o Daryl preso na sede dos Salvadores se torna a coisa mais maçante do mundo, porque o personagem nunca teve um pingo de aprofundamento emocional para segurar um momento tão intimista e poderoso.

Todas essas tramas poderiam ter sido simplificadas e divididas dentro de um mesmo episódio como acontece em outras séries cheias de núcleos diferentes, como Game of Thrones, Westworld e até o razoável oitavo episódio dessa temporada da própria The Walking Dead. Ao invés de fazer isso para enxugar e acelerar o desenvolvimento da série, os produtores preferem enrolar e ainda aumentar episódios que não precisariam ter uma hora de duração. A única vantagem aparente vai para os canais que ganham mais espaços para colocar comerciais, considerando que boa parte dessa adição é simplesmente gordura narrativa.

Mas calma que isso não quer dizer que a temporada não teve bons momentos após o primeiro episódio, sendo que o próprio Negan poderia ter salvado a série se não fosse ignorado por mais de um episódio seguido. O momento em que ele apresenta sua casa para o jovem Carl, por exemplo, é muito parecido com uma passagem já icônica da HQ e possui o ritmo de tensão perfeita para prender o espectador e mudar o status quo de, pelo menos, um personagem.

Jeffrey Dean Morgan (Batman vs Superman: A Origem da Justiça) é uma das melhores escalações de elenco feitas nos últimos anos e sua caracterização como Negan está perfeita, no entanto eu continuo com a impressão de que o roteiro quer sabotar o personagem quando erra a mão na dinâmica de seus diálogos. Todas as suas aparições são recheadas de sarcasmo e violência, mas essas explosões de raiva começaram a ficar menos poderosas em um certo momento da temporada pela ausência de mudanças no tom de voz. Falta aquela fala mais mansa e tranquila que vai gerar o impacto pelo contraste no momento em que ele fizer alguma ameaça maior. É mais ou menos a ideia de que você só valoriza a luz quando conhece o escuro e vice-versa.

Aceito que isso ainda não queimou um personagem que tem as melhores participações da temporada, mas já seria interessante que os roteiristas acendessem um sinal amarelo durante a escrita dos seus diálogos. Tudo o que eu não quero é ver um erro tão bobo colocar a última pedra sobre uma série que tem potencial e público para ser muito melhor. São várias besteiras que se acumulam e atrapalham um programa que não precisa apelar para manter a audiência, considerando que possui boas histórias, bons personagens e interpretes. Agora é esperar que a possível relação entre as comunidades em prol de uma rebelião diminua os espaços entre os núcleos e entregue episódios mais dinâmicos para efetivamente salvar a temporada do desastre.