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Crítica: Vikings 5ª Temporada | Primeira Parte

Mesmo sem Ragnar, Vikings entrega temporada mais segura e consciente do seu caminho

1 de Fevereiro de 2018 - 17:57 - Flávio Pizzol

Além de trabalhar com perfeição a trinca formada por história, religião e mitologia, Vikings sempre surpreendeu por estar em um constante processo de renovação. Independente da qualidade dos episódios, todas as temporadas – sem nenhuma exceção – são marcadas por grandes acontecimentos que tiram a série da zona de conforto. Na quarta temporada, o evento responsável por essa virada foi a morte do grande e poderoso Ragnar Lothbrok. Os episódios finais do último ano foram destinados a apresentar Ivar, empoderar Lagertha e ajustar o tabuleiro, mas não responderam a pergunta mais importante: o que seria de Vikings sem seu protagonista?

Para nossa sorte, a quinta temporada não demora para mostrar que a saída do personagem poderia ser positiva: perde-se uma figura carismática que tinha grande presença em cenas de ação e discussões religiosas, mas a narrativa em si ganha espaço para apresentar novos cenários e desenvolver, merecidamente, outras peças importantes nesse jogo de xadrez conduzido por Michael Hirst (The Tudors). Dentro disso, a quinta temporada apresentou uma trama que caminhava a passos largos, dividindo seus bons momentos de intensidade entre os dez episódios, para alcançar um ponto de chegada que já estava definido desde o início. Nenhum episódio soou chato ou desnecessário como acontecia nos anos anteriores.

Lagertha ganhou ares de protagonista ao assumir o trono de Kattegat com a importância que sempre mereceu, Bjorn assumiu o papel conquistador do pai e descobriu novas terras, Ivar mostrou as camadas que precisava para ganhar a simpatia do público, a Inglaterra apareceu com mais frequência e até mesmo Floki ganhou sua própria subtrama após ficar de lado na temporada passado. Ao contrário das outras histórias paralelas, a convivência entre humanos na suposta terra dos deuses não esclareceu sua verdadeira importância, mas permitiu que Gustaf Skarsgård (Expedição Kon Tiki) brilhasse ao incorporar a persona enlouquecida do construtor de barcos.

No entanto, como sempre aconteceu em Vikings, essa pressa que costuma ser vista como um ponto positivo também prejudica a construção de algumas situações. O nono episódio sofreu com isso quando precisou funcionar tanto como uma transição para a guerra final, quanto como o encerramento de diversas tramas. Aceito que Aethelwulf, por exemplo, nunca foi um personagem realmente querido, mas ver o “atual” rei da Inglaterra morreu de forma completamente aleatória para que a escolha do próximo rei encerasse o episódio foi forçado demais pra mim. É uma daquelas típicas escolhas narrativas que faz Vikings avançar o tempo sem muita preocupação.

Ainda assim, Vikings é uma série que sabe com deixar qualquer escolha, seja ela boa ou ruim, bonita de se assistir. O nono episódio volta a ser um destaque quando encerra suas três tramas principais com um paralelo visual incrível, mas o show não para por aí. O investimento monetário parece estar muito maior e as consequências são sentidas nas guerras perfeitamente coreografadas, no cenários ricos em detalhes e no figurino exuberante. Se necessário, o roteiro pode inclusive pensar em novas táticas de guerra (levando em conta a imprevisibilidade do Ivar) que tudo será reproduzido sem que câmera sequer soe confusa.

E, por último, preciso afirmar que o elenco continua tão afinado como sempre. Entre os destaques, Katheryn Winnick (A Torre Negra) continua sendo aquela mulher poderosa que rouba todos os holofotes mesmo quando o roteiro decide destruir a personagem – não, eu definitivamente não gostei da sua última cena na temporada; Alex Høgh Andersen (Guerra) mostra sua capacidade de atuação ao incorporar as diversas camadas de Ivar – da loucura imprevisível aos temores – com a mesma qualidade; Jasper PääkkönenPeter Franzén (True Blood) ganham espaço para evoluir como os irmãos Halfdan e Harald; e Jonathan Rhys Meyers (O Som do Coração) surge como uma novidade que tem presença tanto em cenas de ação quanto nas discussões religiosas. Ele não o Ragnar nem vai substituí-lo, mas cumpre um papel muito parecido quando contrapõe as crenças em alguns diálogos com os nórdicos e isso o torna um dos meus personagens favoritos até aqui.

Eles são as figuras que carregam a série nas costas e devem continuar por algum tempo graças a covardia de um último episódio que não conseguiu recompensar a antecipação construída para a grande guerra em Kattegat. O tempo picotado quebrou a padronização das guerras e desenvolveu os personagens, mas a ausência de um confronto real entre Ivar e Lagertha (não precisa rolar morte, mas pelo um mano a mano seria digno) se torna imperdoável diante do desenvolvimento desses dez episódios. Ainda assim, as perdas foram poucas dentro de um temporada ágil, segura e divertida de Vikings.