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Séries

Sherlock (4ª Temporada), conflito de emoções em Baker Street

Depois de uma longa espera...


21 de janeiro de 2017 - 11:01 - Flávio Pizzol

Depois de uma longa espera, Sherlock volta para uma quarta temporada emotiva, intensa e um pouquinho abaixo do esperado por todos os fãs.

Desde sua criação pelas mãos de Sir Arthur Conan Doyle (O Mundo Perdido), o detetive britânico, seus valentes ajudantes e seus clássicos casos já foram adaptados para HQs, séries, filmes, outros livros e até jogos de tabuleiro com diversos níveis de fidelidade. Nem todas merecem ser lembradas por muito tempo, mas a série da BBC ganhou o coração dos fãs com a atualização das histórias para o presente, o relacionamento divertido dos protagonistas e os dolorosos anos de espera entre cada temporada.

[Aviso: A presença de spoilers nesse texto é elementar, meu caro leitor!]

Pouco mais de um ano após a estréia do ótimo The Abominable Bride, a quarta temporada de Sherlock nos apresenta um detetive mais emotivo e perturbado com a suposta nova ameaça de Moriarty, seu grande arqui-inimigo desde sempre. Um contexto que, como sempre, mexe com a vida de Holmes, coloca a vida de seus amigos próximos em risco e desenterra fantasmas do passado sem perder o pique ou as características mais marcantes do programa.

As atuações afiadas dos protagonistas continuam sendo o grande destaque da série. Benedict Cumberbatch (Doutor Estranho) conduz as fortes transformações emocionais vividas pelo detetive nesses últimos episódios como ninguém e Martin Freeman (Fargo) consegue ficar brilhantemente divido entre as personas de fiel escudeiro e herói amargo, enquanto Una Stubbs (Golden Years), Mark Gatiss (Taboo) e Amanda Abbington (Crooked House) ganham destaques consideráveis como Ms. Hudson, Mycroft Holmes e Mary Watson.

A direção – comandada nessa temporada por Rachel Talalay (Supergirl), Nick Hurran (Doctor Who) e Benjamin Caron (The Crown) – apresentou certos problemas que serão discutidos mais pra frente, mas conseguiu manter a qualidade estética típica de cinema, a construção cuidadosa das pistaseaster eggs, a quantidade de tensão que precedem as reviravoltas principais e, principalmente, a utilização de vários recursos visuais que são inseridos na tela durante as deduções.

Da mesma forma, os roteiros escritos por Steven Moffat (As Aventuras de Tintim) e Mark Gatiss (Agatha Christie’s Poirot) entregaram ótimos diálogos, revelaram grandes surpresas, brincaram com o já clássico bromance da dupla protagonista e, logicamente, transportaram o espectador mais uma vez para esse mundo único, que incorpora as tecnologias na resolução dos casos sem esquecer de reverenciar o passado construído nos livros. A reunião dessas características criaram episódios divertidos e intensos que prepararam um terreno mais amargo com a morte prematura de Mary, voltaram as raízes com a perseguição minimalista ao serial killer construído maravilhosamente por Toby Jones (Capitão América: O Primeiro Vingador) e avançaram para terrenos desconhecidos – e cheios de uma tensão absurda – ao explorar a família Holmes sob a perspectiva pouco emotiva de Eurus (Sian Brooke).

Repito sem pestanejar que grandes vilões foram adicionados ao hall da série, as referências que já começam nos trocadilhos do título aqueceram os corações do público mais fanático e só restou a sensação de que podemos esperar muitos anos por outra temporada sem reclamar. Os três capítulos cumpriram suas respectivas propostas, mas algumas coisas me incomodaram na conexão entre os mesmos e merecem ser discutidos antes de um veredito.

 

O primeiro deles está justamente no contexto emocional que guiou toda a temporada, incomodou alguns fãs e adicionou uma carga dramática muito grande para substituir o humor um pouco mais constante do ano anterior. Isso incomoda uma parte de mim por remeter ao erros cometidos em Dexter na construção de um caminho bem parecido, no entanto precisamos lembrar que Sherlock Holmes não é nenhum psicopata que encontrou suas emoções do nada. Sua construção emocional tem ganhado espaço desde o casamento de Mary e John na terceira temporada, logo esse final de temporada funciona simplesmente como o ápice de uma mudança de personalidade que torna o detetive alguém melhor. Mesmo sem perder o lado frio de suas relações humanas, ele alcançou um nível mais elevado em relação a Mycroft e Eurus justamente por ser inteligente e emotivo ao mesmo tempo. Como Lestrade ressalta no final, ele é um dos bons e sua preocupação com o próximo no final apenas ressalta isso.

Apesar de funcionar como trampolim para a evolução do protagonista e ganhar uma vaga na lista de melhores vilões da série, a participação de Eurus me deixou um pouco mais inquieto por soar um tanto quanto brusca em uma temporada que, até então, estava girando em torno da morte de Mary, as consequências disso para seus amigos mais próximos e um possível retorno de Moriarty que revelava uma face mais inquieta de Sherlock. Eu sei que ela estava presente desde o primeiro episódio e a revelação de seu disfarce foi sensacional, mas todo o contexto de sua existência nunca havia sido citado anteriormente e pareceu uma saída forçada para levar o detetive ao seu ápice mais rápido.

Além disso, a edição mais movimentada (ou picotada, se preferir) dos episódios tentou representar um pouco dessa confusão mental vivida pelos personagens, mas escorregou feio e acabou sendo parcialmente descartada sem nenhum aviso prévio logo no episódio em que isso faria mais sentido pelo peso emocional das descobertas. Em outras palavras, o primeiro episódio abusou sem nenhum motivo de idas e vindas no tempo, sobreposições de imagem e transições que não tinham a cara do programa, enquanto o último descartou um recurso que ali poderia realmente significar algo. Resultado: uma confusão desnecessária na montagem dos capítulos.

No final das contas, esses pequenos problemas acabam enfraquecendo a cola entre os episódios e prejudicando as motivações dos personagens, mas não tiram a maior parte dos acertos de roteiro, direção e atuação que fizeram Sherlock se tornar um sucesso mundial. Ainda sou fã e posso rever todos os episódios sempre que bater a saudade, entretanto o jogo de expectativas e realidades criado dentro do meu palácio mental classificou essa quarta temporada como a mais fraca até aqui. Longe de ser ruim, mas certamente um pouquinho abaixo do esperado.


OBS 1: Os contos adaptados nessa temporada foram Os Seis Napoleões, O Detetive Moribundo e O Problema Final (que também tinha sido utilizado com maior força no final da segunda temporada). Os dois primeiros foram adaptados com muita fidelidade, trocando apenas a busca por uma joia (citada no episódio…) pela história de Mary e o contexto da mentira preparada por Sherlock. Já a última acabou usando só o nome descartado lá na segunda temporada para construir uma história quase toda inédita.

OBS 2: Não usei nenhuma imagem da Eurus para evitar um spoiler maior do que a própria temporada…

OBS 3: A participação de Moriarty (Andrew Scott) é muito pequena e provocativa, mas sua entrada triunfal ao som de Queen deixa claro quem é o melhor vilão da porra toda.

OBS 4: Benedict Cumberbatch e Martin Freeman são a alma da série e a mesma foi uma das responsáveis por expandir a carreira de ambos para Hollywood. Ironicamente, suas agendas lotadas são o maior empecilho para a produção de uma quinta temporada nos próximos anos.

OBS 5: Assim como acontece em várias franquias, a relação dos protagonistas sempre foi alvo de várias fanfics que idealizavam casos homossexuais e torciam por essa resolução após a morte de Mary. Isso não aconteceu por motivos bastante óbvios e, segundo uma matéria que eu li, muita gente está culpando os produtores ou até ameaçando se matar como forma de protesto. Se vocês lerem esse texto até aqui, prestem atenção: não façam isso!