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Lançada inicialmente online, Mr. Robot já começou sua vida com um hype inacreditável que acabou levando a sua renovação antes da estréia oficial pelo canal USA. A critica acompanhou o público e manteve as criticas positivas durante 10 semanas que culminaram em um polêmico episódio final adiado por conta do atentado contra a jornalista enquanto ela estava ao vivo. E como se tudo isso não bastasse, a temporada acabou e recebeu a maior nota da história do Rotten Tomatoes. O resultado foi que fiz uma maratona para entender todo o falatório e acabei ficando completamente preso por um produto que acerta em todos os quesitos.

A série, criada por Sam Esmail, conta a história de Elliot, um jovem e genial hacker, aparentemente esquizofrênico, que divide seu tempo entre tentar conviver socialmente dentro do seu trabalho e descobrir tudo sobre a vida de todos que o cercam. Sua rotina acaba ganhando uma nova forma quando ele é abordado pelo tal Mr. Robot do título para fazer parte de uma organização que pretende derrubar uma das maiores multinacionais do mundo.

A primeira coisa que me chamou atenção no roteiro da série é como ela aproveita o problema do protagonista para levar o público dentro da história como se fossemos uma espécie de amigo imaginário de Elliot. Ele quebra a quarta parede e conversa com o público constantemente para que possamos entender aquele mundo que o envolve e, principalmente, a visão que ele tem desse mundo.

E essa visão de mundo acaba sendo uma referência direta (que o criador nunca tentou esconder) ao filme Clube da Luta. Além do próprio amigo imaginário e das reviravoltas construídas dentro da mente de um personagem, todo o discurso que coloca motiva os personagens é extremamente sarcástico, subversivo e recheado de criticas ao consumismo e ao modo de vida capitalista. Inclusive, muitos dos discursos feitos por Elliot e pelo Mr. Robot poderiam ter sido diretamente retirados da obra de Chuck Palahniuk.

Só isso já seria o bastante para me prender, mas aí Mr. Robot me surpreende mais uma vez e apresenta um roteiro simplesmente irretocável durante seus dez episódios. É verdade que alguns poucos momentos são um pouco clichês ou arrastados, mas no geral a série consegue lidar com várias histórias paralelas e conteúdos complexos com total controle sobre as peças sem contar com o didatismo exagerado ou com as saídas fáceis. Então não espere que Elliot te explique cada passo a passo das suas invasões e nem fique esperando aquele final comum, porque o que vai acontecer geralmente é diferente do que você imaginou.

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Assim temos uma série que prende o seu público através de personagens interessantes, diálogos geniais e boas e surpreendentes reviravoltas. Mas para subverter mais uma vez o que seria esperado, a maior revelação da temporada começa a ser evidenciada – de maneira sutil e inteligente – para o público lá no primeiro episódio e só não consegue pelo menos imaginar isso quem não presta atenção. E isso é tão bem construído para que o público perceba que Elliot chega a perguntar se nós já sabíamos e porque não contamos para ele.

Mas para que toda essa intensidade e complexidade fosse retirada do papel, a série precisaria de uma direção perfeita e de um elenco escolhido a dedo para lidar com personagens difíceis e cheios de camadas. E é lógico que mais uma vez Mr. Robot atinge seus objetivos com muito louvor. A direção, acompanhada de edição, direção de arte, fotografia e trilha musical perfeitas, consegue manter ao pé da letra toda aquela ideia de levar o espectador para a série e faz isso através das sensações.

Com vários ângulos inesperados, enquadramentos incomuns, mudanças pontuais para a câmera de mão, planos sequência bem resolvidos e uma troca constante entre planos muito abertos e muito fechados, os diretores conseguem produzir um estilo visual constante que transmite tudo o que os personagens estão sentindo, principalmente a aparente loucura de um Elliot que está quase sempre perdido dentro da sua própria mente.

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O elenco também tem parte importante nisso e, como eu disse, foi escolhido a dedo para exercer papéis decisivos dentro dessa quebra cabeça. Logicamente o destaque fica quase todo com Rami Malek (não esperava muito dele depois de Uma Noite no Museu), que lida muito bem com todas as muitas camadas e sentimentos de Elliot e ainda acerta o ponto na narração in off que é exatamente o principal ponto de conexão entre o espectador e a série.

Mr. Robot não seria a mesma coisa sem ele, mas também não funcionaria sem Christian Slater (que finalmente pode abandonar a fama de pé frio), Portia Doubleday, Carly Chaikin, Michel Gill e Martin Wallström. Todos eles tem suas próprias histórias e várias conexões que vão sendo reveladas aos poucos para construir um quebra-cabeça que não está nem perto de ser fechado, já que a própria temporada se encerra com mais perguntas do que respostas.

No final das contas, Mr. Robot acerta em cheio no roteiro, na escolha do elenco e na direção sem perder nada dessa qualidade durante os dez episódios. É uma série que te prende e que acaba sendo muito rápida de se assistir. Isso pode ser muito bom e muito ruim, porque, movido por uma cena pós-créditos reveladora e perguntas sem respostas, eu já estou totalmente ansioso por uma segunda temporada que promete muito mais.


OBS 1: Quem assistiu tem muitas teorias geniais para responder perguntas como “Onde está Tyrell?”, “O que aconteceu nos tais 3 dias?” e “Quem diabos está na porta?”. É um final realmente aberto e poderoso.


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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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