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Sem padrões, sem regras e com muito bom humor.

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Você é uma das pessoas que, assim como eu, achavam que o ano estava chegando ao fim e a Netflix não tinha mais como surpreender? A boa notícia é que todos nós estávamos errados e Master of None chegou para mostrar que regras e padrões já estabelecidos não são necessários quando o assunto é fazer uma série de comédia redondinha, inteligente e divertida. 

A série usa o desenvolvimento da vida de Dev, um jovem descendente de indianos que vive em Nova York, como o fio condutor de uma série de episódios que abordam questões importantes da vida de qualquer adulto de qualquer lugar do mundo. Assim passamos pela relação com os pais, pela busca por um grande emprego, por todos os tipos de preconceito, pelas dúvidas em relação a traição e pela necessidade de manter um primeiro relacionamento sério para depois culminar tudo em um brilhante episódio sobre decisões.

Fica mais do que claro desde o início que o roteiro é baseado livremente na vida de Aziz Ansari, já que praticamente todas análises realizadas a partir das situações cotidianas e dos grandes momentos que mudam sua vida já foram abordadas de alguma maneira por Ansari nos seus shows de stand-up. Talvez seja exatamente por isso que o grande trunfo da série esteja no fato dele fazer com que a sua história se torne algo fictício, por que – em primeiro lugar – é isso que permite que o público se aproxime do personagem e perceba que boa parte do que é retratado ali já foi vivido por alguém que conhecemos.

Da mesma forma, é esse processo que também permite que o roteiro tenha muito mais liberdade para abordar essas situações de uma forma muito mais absurda. São momentos que sabem unir o texto com o apelo visual para fazer com que o politicamente incorreto, as discussões politicas, as questões sociais e a vergonha alheia sejam partes de uma piada maior, mais incorpada e, de certa forma, muito mais engraçada do que ver o comediante apenas relatando ela com seu microfone.

Mas não se engane com relação ao tom da série, porque não é uma fato de seguir um grupo de amigos por Nova York que faz dela alga parecido com Friends ou How I Met your Mother. Como já disse lá em cima, ela não segue nenhum padrão existente na TV americana, então ela pode ser o quiser quando quiser. Isso faz com que alguns momentos se pareçam muito com Seinfeld, que alguns diálogos que iniciam os episódios sejam tão surtados (vide um sobre o filme 8 Mile) que poderiam ter sido escritos pelo Tarantino e que algumas cenas completamente irônicas sobre a vida de um ator remetam constantemente a abordagem usada em BoJack Horseman, quando o que estamos assistindo é algo completamente diferente.

Do mesmo jeito, a direção, dividida pelo próprio Ansari com Lynn Shelton, James Ponsoldt e Eric Wareheim também mistura completamente os padrões pré-estabelecidos pelas séries de comédia e faz com que cada momento abuse da aproximação estética com algum desses estilos, como os mockumentaries (aqueles documentários falsos, tipo The Office e Modern Family), os programas de single camera (Grace e Frankie, por exemplo), aquelas comédias multi-camera que parecem gravadas em teatros (The Big Bang Theory) e até uma estética muito mais cinematográfica nos seus vários planos-sequência. O resultado é algo inesperado e diferente.

E eu realmente acredito que seja toda essa liberdade dada pela Netflix que faz com que Aziz Ansari esteja tão à vontade para fazer qualquer tipo de piada e se destacar dentro de um elenco que tem prós e contras, já que esse quesito foi o único aspecto que me incomodou um pouquinho. Digo isso porque os atores que formam o grupo de amigos e a namorada de Dev são sensacionais, possuem uma ótima quimica entre si e criam personagens realmente carismáticos, mas outros personagens que cruzam a série de forma mais pontual (principalmente os pais de Dev, que são interpretados pelos pais de Aziz na vida real) se atrapalham bastante com o quesito atuação e tiram um pouco da fluidez construída nos episódios. A utilização deles pode até ter um objetivo louvável, mas foi o bastante para tirar minha atenção dos episódios em que eles aparecem.

Entretanto isso não é motivo suficiente para tirar os méritos de Master of None e deixar de afirmar que ela essa é uma melhores temporadas desse ano. É verdade que a série demorou um pouquinho para engatar e para me conquistar, mas assim que fez isso conseguiu mostrar a que veio com uma interessante fuga dos padrões, algumas ótimas participações especiais (Claire Danes, Noah Emmerich e Colin Salmon merecem um destaque a parte) e um uso surpreendente do politicamente incorreto para fazer rir e pensar. Não é um tipo de humor que agrada a todos, mas pode ter certeza que Master of None merece ser assistida com atenção.

OBS 1: O conjunto da obra é muito bom, mas Master of None tem alguns episódios, como o dos indianos na TV, o da traição e das manhãs envolvendo ele e Rachel, que são simplesmente sensacionais.

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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2 Comments

  1. […] fácil de se assistir. Os episódios são curtos e o clima leve na maior parte do tempo, porém a primeira temporada demora pra esclarecer sua proposta e cativar de uma vez por todas o espectador. Eu só entendi seu […]

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