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O amor está no ar… ou não?


Muitas pessoas podem discordar, mas o conteúdo original da Netflix não possui um colete à prova de erros e, infelizmente, Love foi a série que deixou isso bem claro na minha cabeça. Mesmo sendo desenvolvida em parceria com o diretor Judd Apatow (O Virgem de 40 anos) e reunindo vários elementos já testados em grandes comédias como Superbad e Ligeiramente Grávidos, a primeira temporada (critica aqui) não conseguiu sair do mediano com algumas piadas fora de lugar e um desenvolvimento bastante bagunçado. Mesmo assim, foi renovada para mais dois anos.

A segunda temporada até que aproveitou o embalo e renovou as esperanças do espectador, apresentando uma bem-vinda evolução para os protagonistas e uma trama mais consistente nos primeiros episódios. Mickey parecia realmente disposta a abandonar uma parte dos seus vícios e aproveitar um relacionamento estável ao lado de um Gus, que, mesmo não sabendo, também precisa avaliar suas atitudes no decorrer dos novos episódios.

A química entre Gillian Jacobs (Community) e Paul Rust (criador, roteirista e produtor da série) ganhou ares mais leves com a evolução emocional dos seus personagens e isso abriu espaço para o show explorar outras tramas paralelas. Bertie (Claudia O’Doherty) ganhou mais conflitos emocionais que abriram seu leque de piadas e a relação entre Gus e Arya (Iris Apatow) perdeu espaço para ganhar seriedade e conteúdo com a decisões da menina. Tudo junto com aparições na maioria das vezes divertidas de Randy (Mike Mitchell), Chris (Chris Witaske), Truman (Bobby Lee) e Dr. Greg (Brett Gelman) nas vidas particulares de cada um dos protagonistas.

Apesar de algumas piadas sujas ainda ficarem perdidas entre os episódios, o humor de Love também parece ter encontrado seu caminho entre a depreciação, o sarcasmo, as críticas mais pesadas e as constante referências à cultura pop. A grande maioria das sacadas não fazem ninguém gargalhar alucinadamente, mas se encaixam com a premissa da série ao tirar sarro da personalidade dos personagens e das situações absurdas em que as coisas acontecem. Bem no jeitinho de Master of None, o contexto já gera humor suficiente sem a necessidade de inserir piadas clássicas de sitcom.

No entanto, não demorou muito para esses plots secundários crescerem mais do que o necessário, alguns episódios se transformarem em fillers e a trama principal ficar cada vez mais deslocada em seu próprio desenvolvimento. Mickey, por exemplo, abandona sua evolução inicial para virar um babaca total logo que seu ex-namorado (Rich Sommer) ganha importância de forma aleatória. O roteiro acaba levando ela por um caminho tortuoso de traições e patadas em todos que se importam com ela, mas exagera e descaracteriza justamente o que estava me fazendo gostar da personagem.

Gus passa por tudo com mais sutileza, mas as escolhas erradas continuam ocupando a maior parte de uma trama que não consegue encontrar seu verdadeiro potencial nem como comédia, nem como romance. A série se vende como um estudo sobre os relacionamentos modernos e eu gosto muito dessa perspectiva mais realista, porém meu lado otimista não aceita que os casais de hoje em dia vivam para serem babacas ou não terem nenhum final feliz. As tecnologias e mudanças de gerações realmente criaram novos conceitos quando o assunto é namoro ou casamento, mas Love não consegue aproveitar esse contexto ao máximo. Alguns acertos aproximam o segundo ano do caminho certo, mas talvez ainda falte um pouquinho mais de timing, honestidade e coragem para abraçar seus lados mais escrachados ou românticos.


OBS 1: Não confie em alguém que nunca assistiu Duro de Matar!


Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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