AODISSEIA
Séries

Séries: Justiça (Última Semana)

As consequências chegam para todas as formas de Justiça.

24 de setembro de 2016 - 14:00 - Flávio Pizzol

Como já era de se esperar, a última semana de Justiça foi marcada pelo encerramento de todos os ciclos, amarrando as pontas soltas e conectando cada uma dessas belas histórias. Considerando mais uma vez o brilhante (e contínuo) trabalho de direção, fotografia e roteiro, vamos falar sobre os finais de cada trama e todas as consequências boas ou ruins que sucederam as decisões de Elisa, Fátima, Rose (ou Débora) e Maurício.

Um ciclo sem fim

Nas histórias de segunda, o clima de todo o episódio deixava claro que não existia espaço para finais felizes, apesar da noite de amor repentina entre Elisa (Débora Bloch) e Vicente (Jesuíta Barbosa). Quase como um efeito borboleta, as consequências de cada decisão são apresentadas através da invasão de Regina (Camila Márdila) no apartamento, da separação corrida e da visita que o moço faz a Antenor (Antonio Calloni), procurando formas de melhorar sua relação com a mulher. Curiosamente e ironicamente, o político acaba tendo relação com mais um acidente de carro que resulta em morte ao entregar aquele dinheiro ilícito na mão de Vicente.

No entanto, além dessa brincadeira de mal gosto do destino, a grande questão desse acidente de carro está na presença de Elisa. Vicente insiste para que ela aceite a carona (o destino outra vez?) e, apesar de afirmar que não conseguiria matar após conhecer sua vítima, ela desliga a ligação para a emergência de forma brutal. E com isso, ela também fecha o seu ciclo de arrependimento e luto em relação a Isabela (Marina Ruy Barbosa).

Eu ainda fiquei incomodado com Sara (Priscila Steinman) tentando conquistar Heitor (Cássio Gabus Mendes) sem nenhum motivo aparente e com a falta de impacto do acidente em relação a uma morte tão rápida, mas duas sacadas geniais nos últimos minutos deletaram qualquer um desses problemas da minha mente. A primeira veio com o suspense das outras mortes da semana no enterro de Vicente e a segunda surgiu como o encerramento perfeito para todos os ciclos apresentados até aqui. Na mesma pegada de um filme sobre terrorismo, chamado O Reino, Regina deixa claro que, apesar de tudo, a vingança (ou justiça para alguns) é algo vicioso e interminável.

A vingança nunca é plena…

A história de Fátima (Adriana Esteves) era a única que parecia ter uma luz no fim do túnel, mas alguns elementos do passado ainda deixavam aquele cheirinho de merda que quase todo espectador esperava dos finais de Justiça. E pra reforçar essa ideia, o episódio mal começou e a protagonista já estava enfrentando uma cena maravilhosa de perseguição, graças ao seu dom de arrumar treta com os policiais errados. De certa forma, o suspense foi quebrado com a antecipação da sobrevivência de quase todos ali, mas o restante foi construído com perfeição.

No outro lado da moeda, ela parece ter realmente perdoado Douglas (Enrique Diaz), enquanto o mesmo briga pelo seu carinho quando os ciclos começam a serem fechados. O cachorrinho de presente, o abraço emocionado de Jesus ( Tobias Carrieres) quando a mãe volta para casa ilesa e o próprio retorno de Hallelujah na trilha sonora funcionam justamente como metáforas para a cura alcançada nessas relações.

A chegada de Kellen (Leandra Leal) por motivos puramente babacas foi uma bela ameaça à quietude alcançada por Fátima e, após a viagem do casal, eu cheguei a cogitar que a trama ia ser concluída com a chegada de mais um vizinho filha da puta para infernizar a vida da cozinheira. Poderia um final interessante, principalmente se explorasse um pouco mais do fato de Mayara/Suzy (Julia Dalavia) continuar trabalhando como prostituta após o fim da sua vingança. Mas, para nossa felicidade, o texto Justiça subverteu nossas expectativas e entregou um final leve e emocionante para coroar o lindo amor que Firmino (Júlio Andrade) sente por Fátima, comprovando que o perdão pode ser um caminho mais pacífico e tranquilo que a simples vingança.

5325650_x720

O peso da vingança

As noites de quinta-feira encerram sua história com Rose (Jéssica Ellen) sendo, definitivamente, coadjuvante de sua própria história para que Débora (Luisa Arraes) pudesse encontrar sua tão sonhada justiça. Com isso, a trajetória da suposta protagonista deixou o preconceito de lado, perdeu a ótima oportunidade de colocar a jovem idealista no centro da luta pelos direitos dos negros e encerrou sua trama de uma forma romântica, insossa e piegas. Faltou uma dose de emoção maior. Faltou explorar o passado da personagem na cadeia, explicando a força da sua relação com o bebê. Faltou, por exemplo, ela ver o seu nome na lista de aprovados para encerrar os ciclos.

Por outro lado, a conclusão da trama de sua “melhor amiga” foi completamente satisfatória, angustiante e pesada, incluindo dilemas sociais e comportamentais muito bem trabalhados. O momento em que ela pendura o brinquedinho na lâmpada com o áudio do seu estupro contrapondo seus pensamentos foi uma ótima – e simples – forma de explicar os motivos que levam Débora a mentir para Marcelo (Igor Angelkorte), abandonar a possível adoção e ir atrás de Osvaldo (Pedro Wagner) de uma vez por todas. Isso sem falar na maravilhosa e catártica cena em que ela não aguenta as negações e chega as vias de fato.

É um momento violento e tenso que se conclui com uma emocionante carta de despedida e, na minha opinião, uma decisão bastante surpreendente do seu marido. Perdoada e compreendida pelas pessoas mais próximas, Débora pode finalmente cair na estrada para lidar com sua vida sem as pressões do passado, a necessidade de compartilhar as vontades dos outros ou o fardo de ter matado alguém. Luisa Arraes brilhou incondicionalmente, deixou todo o peso da vingança pra trás e pode ser simplesmente livre.

globo-play-justica-001-web

“Isso aqui é Brasil!”

Prejudicado mais uma vez pela necessidade de apresentar ângulos diferentes dos fatos já conhecidos ou repetir momentos concluídos em episódios passados, o último da série e da história de Maurício (Cauã Reymond) seguiu uma ordem perfeitamente linear ao explorar as consequências – políticas ou não – das revelações feitas por Vânia (Drica Moraes). Dentro desse contexto, tivemos personagens sendo usados descaradamente, um encontro super esperado entre o protagonista e Antenor (Antonio Calloni), uma espécie de “suicídio” assistido e até uma tentativa de assassinato que acertou em cheio ao trabalhar a tensão de um dia pro outro.

No entanto, o grande destaque do episódio continuou sendo o lado político, que resultou na frase que abriu essa sessão. Uma trama paralela que se desenvolveu muito bem, roubou os holofotes ao retratar a política brasileira com uma fidelidade indigesta, colocou a corrupção no centro da discussão até o final e encontrou o final perfeito na candidatura de Téo (Pedro Nercessian) após um acordo de delação premiada. A forma descarada com que ele mente na frente das câmeras justifica a importância dada a todos os seus erros e mostra que a criação familiar é indiretamente responsável por muitas das suas besteiras.

Mesmo assim, eu preciso admitir que esse foi o final que menos me agradou. Drica Moraes roubou a cena de forma brilhante (como sempre) e o encontro de duas almas livres para fazer tudo o que der na telha foi uma boa sacada para a conclusão, mas o clímax não passou a emoção que o início da trama prometeu. Principalmente, se pensarmos que esse também foi o final da série como um todo. Apesar desses e outros tropeços que acompanharam a diminuição do fôlego da maioria das tramas, Justiça termina com um saldo extremamente positivo. O grandioso trabalho de roteiro, fotografia, direção e atuação preparado aqui comprova que a Globo está aberta a novas experiências e merece nossos aplausos. Que venha Nada Será como Antes e Supermax!