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As semanas passam e está cada vez mais difícil fazer uma crítica de Justiça sem fazer os mesmos elogios de sempre. Então vamos pular essa parte em que eu falo sobre o texto muito bem construído de Manuela Dias, a direção inspirada de José Luiz Villamarim e a fotografia que transforma Recife por si só em um personagem para passar direto para o que mais chamou atenção em cada uma das quatro histórias.

Uma nova Isabela

A continuação da saga de Elisa (Débora Bloch) já começou com o pé na porta, mostrando que o aborto também vai ser outro tema polêmico abordado no roteiro. Após descobrir que Isabela (Marina Ruy Barbosa) não quis ter um filho por ser muito nova, a mãe se aproxima de Vicente (Jesuíta Barbosa) e da sua filhinha. Duas caronas, uma queda de energia e um convite para ser madrinha de batismo foram o suficiente para gerar uma bela crise de ciúmes e transformar todas as expectativas em torno da história. No entanto, eu ainda acho que exista uma possibilidade de Elisa estar preparando um ataque diferente para encerrar sua vingança, afinal a mira claramente está em dia.

É uma síndrome de Estocolmo meio deturpada que exige uma qualidade surpreendente do roteiro, que se apoia nos grandes diálogos e nas atuações espetaculares de Débora, Jesuíta e Camila Márdila (que possivelmente vai começar a ter uma participação maior a partir agora). O muito espaço de tela dado para Téo (Pedro Nercessian) e algumas conexões que ainda não fazem sentido me preocupam um pouco, mas não tiram o brilho dessa que está sendo a melhor história até agora.

Por fim, a explicação de que Vicente passou dois dias bebendo antes de assassinar Isabela pode ter passado despercebida, mas também foi muito importante para explicar a ordem temporal dos acontecimentos. Considerando que Elisa viu o atropelamento de Beatriz (Marjorie Estiano), podemos chegar a conclusão de que os médicos tiveram no mínimo 48 horas para fazer uma cirurgia complexa e completar o diagnóstico de tetraplegia. Em outras palavras, as peças vão encaixando cada vez mais e a treta nessa história pode ser muito grande nos próximos episódios.

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Você decide seu futuro!

O terceiro episódio sobre Fátima (Adriana Esteves) segue as suas tentativas de reconstruir a vida com honestidade e muito trabalho. Dentro desse contexto, um dos seus principais é colocar Jesus (Tobias Carrieres), seu filho de dez anos, na linha após vários em contato com várias situações de violência presentes na rua. Por conta disso, a abordagem aqui é muito mais voltada para as discussões éticas sobre decisões e consequências, aproveitando para justificar os motivos que levaram Fátima a abrir mão de se vingar de Douglas (Enrique Diaz) até o momento.

Em volta desse núcleo principal, a história de redenção do policial também continua à todo vapor com um romance bem interessante e várias tentativas de ajudar seus vizinhos. Inclusive, foi a reunião de todas essas pessoas na praia que gerou a melhor cena do episódio, quando mais um assalto orquestrado pelos empregados de Celso (Vladimir Brichta) leva a consequências que não devem parar por aí. É um cheirinho forte de merda que também vem de mais uma aparição de Téo ao comprar uma arma com o possível objetivo de chegar as vias de fato contra alguém da faculdade.

No embalo de Geraldo Azevedo e uma versão nordestina de Pense em Mim, os episódios de terça continua prendendo o espectador com diálogos que misturam o lado racional com o emotivo, muitos acontecimentos bombásticos em pouco tempo e atuações magníficas de Adriana, Enrique e Tobias (que melhorou bastante com a evolução do seu personagem). A única coisa que ainda precisa engrenar é o provável romance de Fátima e Firmino (Júlio Andrade) e eu espero sinceramente que isso aconteça antes dos problemas virem à tona com tudo.

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Vingar ou não vingar? Eis a questão!

As histórias de quinta continuam com um episódio superior ao da semana passada, apesar de continuar deixando o preconceito e, por tabela, a protagonista Rose (Jéssica Ellen)de lado. Isso acontece por que a relação – água com açúcar – da protagonista com Celso (Vladimir Brichta) é muito menos interessante do que as discussões éticas que movimentam a relação de Débora (Luisa Arraes) e Marcelo (Igor Angelkorte), principalmente quando as conversas giram em torno de ir ou não atrás do estuprador.

O episódio também melhora consideravelmente a partir daquele maravilhoso plano sequência de Débora subindo as escadas para encontrar o suposto criminoso. O fato de ser o cara errado e as consequências nada boas das escolhas da moça enriquece a discussão, mas infelizmente não tira a história do status quo. A mesma coisa acontece quando voltamos ao apartamento de Elisa e a moça passa pelo pintor sem sequer olhar em direção a ele. A esperança é que o próximo episódio adicione mais emoção e adrenalina para esquentar as coisas para o final.

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“Tu quer justiça ou tu quer um cheque?”

O final da terceira semana chega com a clara função de desmontar todas as vinganças que já pensávamos estar claras, já que até Maurício (Cauã Reymond) mudou seus planos depois da explosão do helicóptero sair pela culatra. Ele ainda deseja acabar com Antenor (Antonio Calloni) de alguma forma, mas esse passou longe de ser o principal aspecto de um episódio focado nos coadjuvantes. A enorme preocupação do candidato ao governo com sua campanha – que deve ser um dos alvos do protagonista – refletiu muito bem uma situação muito comum no nosso país, resultou na frase que abre essa sessão e acabou sendo a melhor coisa do episódio.

Enquanto isso, a importância de Mayara (Letícia Braga) também cresce a partir da confusão no bordel causada por Vânia (Drica Moraes) e sua história parece se desenvolver com mais fluidez do que quando está junto com sua mãe. A única coisa que me incomodou tanto nas passagens dela quanto nas de Téo (Pedro Nercessian) foi a grande quantidade de cenas repetidas, fugindo um pouco do padrão de referências estabelecido anteriormente. Eu entendo e acho a estratégia de mostrar as cenas sob vários pontos de vista muito inteligente, mas acredito que o posicionamento tardio de certos momentos e a falta de novidades prejudica o episódio. Enquanto o roubo das jóias ou a justificativa de como Kellen (Leandra Leal) descobriu a localização do colar fazem essa função com louvor, a conversa de Suzy com Rose não funciona por já sabermos todo o conteúdo do diálogo.

Com isso, o episódio acabou dividido em avançar bem pouco com as histórias de Maurício e Antenor ou completar várias pontas soltas que ficaram dos outros três episódios da semana. Fora uma ótima referência a exposição realizada por Walter Carvalho (diretor de fotografia do programa) e um final que promete balançar com o final dessa trama, o episódio terminou abaixo do esperado com a esperança de crescer. Só nos resta esperar até a próxima semana para entender o que Justiça está nos reservando.

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

O Homem nas Trevas e a honestidade apagada

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