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Séries

Séries: Justiça (Primeira Semana)

A subversão da justiça e a transgressão da televisão.

27 de agosto de 2016 - 13:00 - Flávio Pizzol

Desde o início da divulgação, ninguém tentou esconder uma realidade que estamos percebendo agora: Justiça foi produzida como uma tentativa de apresentar um formato completamente diferente para o consumidor da televisão aberta. O objetivo foi atingido durante sua primeira semana, enquanto o intricado roteiro de Manuela Dias (Ligações Perigosas) contava cada história em um dia, incluía as primeiras conexões entre os fatos e causava uma brilhante subversão dos várias significados de justiça.

A ideia do roteiro é explorar, individualmente, as histórias de cada um dos quatro protagonistas, aproveitando todo o tempo de tela para desenvolver todos os ângulos e pontos de vistas possíveis do caso em questão. No melhor estilo Sessão de Terapia, o público vai ter que esperar uma semana inteira para descobrir os próximos rumos de cada trama, enquanto se contenta com pequenas doses de uma deliciosa política de easter eggs. Um texto brilhante que sabe trabalhar com o interessante exercício de colocar a conexão todas as peças escondidas nas mãos do público.

O aspecto visual, definido pela direção sensível e segura de José Luiz Villamarim (O Rebu) e pela fotografia mais do que perfeita de Walter Carvalho, complementa o roteiro com todo o brilhantismo e o requinte que a série merece, trabalhando de forma muito interessante com as cores e os aspectos típicos do Recife. Então se prepare para ver sua tela ser preenchida por uma trilha sonora escolhida a dedo, uma edição afiada e muitos planos sequência super elaborados que ajudam a ampliar a sensação de suspense em muitos momentos.

Claro que já tivemos e continuaremos tendo contato muitas cenas calientes (Marina Ruy Barbosa me conquistou mais uma vez…) e alguns momentos mais violentos que vão se repetir em quase todos os capítulos, graças ao horário de exibição da Globo. Entretanto a maneira de contar a história e gerar discussões em torno do conceito central é completamente diferente em cada pedaço e, por isso, nós vamos fazer críticas semanais para tratar tudo com a tranquilidade necessária.

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Sexo, dinheiro e violência

As nossas segundas-feiras serão ocupadas pela história de Elisa (Débora Bloch) e sua jornada de vingança pela morte brutal de sua filha, Isabela (Marina Ruy Barbosa). A jovem vivia um relacionamento apaixonado – e completamente – abusivo com Vicente (Jesuíta Barbosa), estava colocando o futuro casamento em dúvida após a falência do sogro e acaba sendo assassinada enquanto transava com um ex-namorado no chuveiro. Ele é preso e condenado, mas pode não durar muito tempo após sua saída da cadeia.

Um episódio perfeito para iniciar a série por diversos motivos, principalmente por escancarar várias características que vão se tornar constantes nas outras histórias. Uma das principais está no fato de que nenhum personagem simplesmente bom ou mal, incluindo a própria Isabela que – querendo ou não – também errou ao trair. Ao mesmo tempo, Vicente não merece sair ileso dessa discussão, afinal era um homem machista, ciumento e violento que nutria um relacionamento abusivo e andava armado o tempo todo.

Entretanto o foco não está no crime e muito menos no passado, então essa discussão extremamente atual sobre violência conta a mulher sai de cena por um instante para dar lugar a clássica dicotomia entre justiça e vingança. São a mesma coisa? Elisa voltaria a viver em paz após matar Vicente? E aquele ótimo gancho vai ser o suficiente para impedi-la?

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Um cachorro incomoda muita gente

Depois disso, chegou a hora da gente conhecer a história de Fátima (Adriana Esteves) no episódio movimentado e confuso da semana. A mulher, que também trabalha como empregada doméstica na casa de Elisa, vive com tranquilidade ao lado de sua família em um bairro aparentemente mais afastado de Recife, mas tudo vira de cabeça pra baixo após o policial Douglas (Enrique Diaz) se mudar para a casa ao lado com seu cachorro violento e sem limites. A empresa de ônibus onde seu marido (Ângelo Antônio) trabalha declara falência, ele toma um tiro e ela acaba matando o cachorro em um momento de desespero.

O resultado é uma prisão forjada que a afasta totalmente da família por sete anos, enquanto Adriana entrega o clímax do episódio em uma das cenas mais emotivas e pesadas dos últimos tempos. O único problema do episódio está na correria dos muitos acontecimentos que permeiam o flashback, dificultando em alguns momentos a percepção do espectador em relação a passagem do tempo até todos os protagonistas serem presos na mesma noite. Pode ser algo proposital ou simplesmente parte de uma liberdade criativa, mas isso não muda o fato de que o episódio poderia ter aproveitado melhor o tempo para desenvolver os períodos entre certos acontecimentos.

Fora isso, o roteiro acerta em cheio ao incluir a corrupção policial dentro do seu estudo sobre os vários ângulos dessa tal de justiça. Afinal, o que podemos fazer quando o responsável pelo crime também é um representante do processo judiciário? E até onde uma mãe pode ir ao ver seus filhos ameaçados por qualquer coisa?

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A cor da justiça

As quintas ficaram reservadas para a história de Rose (Jéssica Ellen), uma moça negra que vive com a mãe na casa da sua patroa. Ao contrário do que acontece em muitas casas brasileiras, ela foi criada como um membro da casa, se tornou melhor amiga de Débora (Luisa Arraes) e passa com louvor na faculdade jornalismo. Um dia antes da matrícula, ela vai comemorar seu aniversário em uma festa na praia e acaba sendo presa por posse de drogas.

No entanto, o episódio ainda faz questão de deixar claro que não tem motivos para ficar preso em apenas um ponto de vista. Além de uma ótima discussão sobre racismo, o roteiro passa por várias pequenas discussões sobre drogas, preconceito contra ex-prisioneiros e estupro. É um episódio extremamente rico que acerta em cheio ao perguntar para o público se a justiça tem sexo, cor ou momento específico.

No decorrer dos episódios, as conexões começam a ficar mais claras e os personagens cada vez mais profundos, oferecendo os devidos elogios às atuações emocionadas e fortes de Jéssica e Luisa. Eu realmente me surpreendi com os alguns acontecimentos e a falta de um gancho tão claro quanto os anteriores deixa os espectadores meio que órfãos. Está muito difícil prever o futuro dessa trama e isso é um ponto muito positivo.

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O poder do amor

Por último, mas não menos importante, as sextas serão ocupadas pelo drama vivido por Maurício (Cauã Reymond), um contador que descobre que a empresa onde trabalha foi roubada, vê a esposa (Marjorie Estiano) ficar tetraplégica ao ser atropelada na sua frente e ainda precisa lidar com a difícil decisão de encerrar ou não com o sofrimento da amada. Ele é preso, mas não perde o desejo de se vingar de Antenor (Antonio Calloni).

Esses acontecimentos todos resultam em um episódio mais centrado, lento e que acontece quase todo no passado. A cena do atropelamento é digna de cinema, a trilha sonora acerta em cheio na escolha das músicas (mais uma vez) e as câmeras fixas que cercam a personagem de Marjorie na cama do hospital são extremamente sufocantes. O único problema é que esse episódio deixa a confusão temporal mais evidente e força alguns fatos para que os quatro protagonistas estejam lado a lado na delegacia. Será que uma cirurgia extremamente complexa pode ser realizada em tão pouco tempo? Será que Celso (Vladimir Brichta) conseguiria arrumar um coquetel daquele em tão pouco tempo? E, considerando que Fátima foi presa no outro dia de manhã no segundo episódio, será que Rose virou a noite na festa e todos ficaram sentados na delegacia o dia inteiro?

Apesar disso, o episódio termina perfeitamente satisfatório por dar o espaço necessário para a discussão ética mais pesada até o momento. Está bastante claro que a jornada de Maurício vai ser focada na vingança, mas antes disso precisávamos passar mais tempo com ele para entender o amor que ele sentia por Beatriz e o quão difícil foi praticar a eutanásia. A discussão deixada para o público é ainda mais profunda: ele deveria ser preso por cometer um ato de puro amor?

Agora só nos resta continuar acompanhando essa produção de alto nível para ver onde isso vai dar. Um show de atuação, texto e direção que certamente ainda vai mexer muito com os formatos da televisão aberta e com a mente do espectador. Até o próximo sábado!