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Talvez vocês estejam estranhando um cinéfilo estar falando tanto das séries da Globo. A questão é que eu não tenho TV a cabo (infelizmente), então tenho que me render aos conteúdos produzidos pela nem sempre gloriosa televisão aberta brasileira. Aí decido escrever sobre aquelas que me chamam atenção e o canal está conseguindo fazer isso com uma frequência inesperada. Dessa vez foi a nova obra de Glória Perez que me prendeu no sofá.

Usando um pouquinho da fórmula de sucesso de Dexter, Dupla Identidade segue, de um lado, Edu, um advogado, estudante de direito, que trabalha como assessor de um senador e quer ser presidente da república. Do outro lado estão os investigadores Dias e Vera, tendo que resolver um grande caso enquanto lidam com enormes pressões políticas. No meio disso tudo, ainda somos apresentados ao núcleo familiar do senador, que teve pouco tempo para mostrar sua real importância.

Dupla Identidade é uma série que bebe de várias fontes televisivas e cinematográficas, mas ainda assim tem aspectos inéditos, principalmente quando comparado aos materiais produzidos no Brasil. O roteiro vai apresentando vários núcleos, que devem se juntar cada vez mais no decorrer dos 13 episódios, mas dá um enfoque claro aos protagonistas antagônicos. Como era de se esperar, o foco está nos policiais e no próprio serial killer, ainda assim alguns aspectos me surpreenderam.

O fato da série gastar um tempo considerável explorando as questões políticas, que envolvem tanto Edu quanto os policiais, chamou minha atenção e deu um aspecto interessante e diferente ao que eu estava vendo. Mas o mais interessante é a construção do protagonista.

Eu sei que ainda é cedo para fazer grandes avaliações, mas, como fã de Dexter, não pude deixar de analisar e comparar a construção de Edu. Ao contrário da série americana, a série não tenta fazer o espectador torcer pelo protagonista, mas ainda assim o personagem tem que ser carismático. Ele não precisa ser divertido e descolado, mas tem que ser simpático ao ponto de gerar uma certa dubiedade no público e até chocar mais nos momentos mais fortes.

E isso é muito bem construído, enquanto vemos os dois lados da vida de Edu. Assim como Dexter, ele tem uma grande capacidade de passar despercebido pela sociedade e de usar seu trabalho para localizar suas vítimas, mesmo que não fique claro se todas tem essa ligação. Ele é bonito, inteligente e extremamente sagaz, ao mesmo que se mostra muito cruel e intenso.

Claro que um protagonista desses precisa de um ator de grande porte. E Edu encontrou seu próprio Michael C. Hall em Bruno Gagliasso. O jovem brigou pelo papel que fora escrito para alguém mais velho e tem tudo para brilhar na série, já que muito talentoso e versátil. Como era de se esperar, ele foi o destaque do episódio, mas o grande elenco, completado por Luana Piovani, Marcello Novaes, Marisa Orth e Débora Falabella, tem tudo para crescer e roubar a cena nos próximos momentos.

Além do roteiro, a parte técnica também tem um padrão muito alto, que a maioria dos produtos da Globo vem tendo. O Rebu, Império (a novela das nove), A Grande Família e até o desagradável Sexo e as Negas tem uma direções diferenciadas, boas fotografias e trilhas sonoras apuradas. Aqui não foi diferente e a série realmente me prendeu em três momentos. Primeiro vieram dois ótimos planos-sequência: um envolvia um diálogo entre a personagem de Marisa Orth e seu filho e o outro – de maneira parecida com o Rebu – se passava em um coquetel concedido pelo governador. Depois veio a cena final do episódio, onde a série fecha com um super close no rosto psicopata de Edu, de maneira parecida com Planeta dos Macacos – O Confronto é encerrado.

Isso tudo gerou uma combinação que não é perfeita, mas é agradável e funcional. Em uma época de fall season, a Globo consegue lançar bons programas e quase bater canais americanos que estão cada vez mais perdidos no nível de qualidade. Na falta de algo melhor, tá valendo a pena.

Politicamente Incorreto

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