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Séries

Séries: Black Mirror – White Christmas

25 de dezembro de 2014 - 11:00 - Flávio Pizzol

Então é natal. Eu não vou falar da música, mas o dia merecia algum post relacionado. Não tem um filme temático nos cinemas e eu não gosto daquelas listas de “10 melhores filmes de Natal”, então fui buscar algum especial de Natal. Me deparei com esse White Christmas, que é o especial desse ano de uma das minha séries britânicas favoritas, e resolvi assistir.

Para quem não conhece, Black Mirror é uma série antológica em que cada episódio conta uma história ligada ao lado obscuro dos avanços tecnológicos. De certa maneira, ela é uma série de ficção científica, mas não tem nada de muito grandioso. Tudo está centrado no roteiro, nos personagens e nas criticas ao uso deliberado da tecnologia.

A questão é que Black Mirror é uma das coisas mais politicamente incorretas que eu já assisti, então foi uma surpresa me deparar com um episódio natalino dela. O que esperar do Natal de uma série que fez um primeiro ministro transar com um porco em rede nacional no seu primeiro episódio? E de fato só é natalino por se passar nessa época, já que não temos festas, ceias grandiosas, Papai Noel, alegria ou qualquer outra coisa desse tipo.

O episódio é centrado em dois homens (brilhantemente interpretados por Jon Hamm e Rafe Spall) que estão aparentemente presos em um local deserto onde trabalham. Como é Natal, eles decidem sentar e conversar sobre o  que os levou até aquele momento. Matt era um especialista em convencer as pessoas, que comandava um clube de homens que observavam outros conquistando garotas. Joe era uma cara normal que enlouqueceu depois que sua namorada engravidou e o abandonou.

Parecem ser coisas simplesmente aleatórias, mas tudo vai se conectando aos poucos de maneira surpreendente e cruel. E claro que tudo está ligado, como já disse, à alguma tecnologia. A primeira é algo que Matt chama de “olho de vidro”. É como se todo mundo tivesse um Google Glass instalado no interior do seu olho para sempre. Você pode tirar foto, se conectar com outras pessoas e até bloquear alguém.

Também temos algo chamado de “cookie”, que é uma espécie de chip instalado no cérebro de alguém. Depois ele é retirado para ser usado como o dono desejar. Não sei explicar tão bem essas tecnologias, mas ambas tecnologias são importantes para o desenvolvimento e conclusão da trama de um jeito bem surtado.

O roteiro do episódio, escrito pelo criador da série, Charlie Brooker, é tão brilhante e interessante quanto qualquer outro já feito. Os 70 minutos de episódio passam rapidamente, enquanto vamos acompanhando o presente, o passado de cada um dos principais e as reviravoltas conectando tudo.

Mas o principal ainda é a maneira como a série consegue ser redonda. Nada é apresentado na série por diversão. Tudo o que é usado tem uma razão para estar lá, sejam características dos personagens ou conceitos tecnológicos. A história de Matt é usada para apresentar e explicar o “olho de vidro” e o cookie para depois ir colando as peças durante a história de Joe. E é tudo brilhante.

O especial não é tão chocante quanto alguns dos outros 6 episódio de Black Mirror, mas o visual desse é muito diferenciado. Além do destaque das criações loucas de Brooker, é nesse aspecto que o diretor Carl Tibbetts mostra um ótimo trabalho. Ele já dirigiu outro episódio da série e um filme independente de suspense, chamado Retreat, que eu gosto muito, entretanto aqui ele me surpreendeu com muitos planos sequência centrados em Jon Hamm, conceitos visuais criativos e uma boa direção de atores.

Tudo bem que dirigir um ator como Jon Hamm não deve ser difícil, porque o cara é foda. Ele destrói em Mad Men (uma série que eu me arrependo de ter parado e preciso de tempo para voltar com urgência) e manda muito bem como um homem complexo e cínico aqui. Rafe Spall é um jovem que também tem um grande futuro pela frente, já que consegue se manter na mesma altura que Hamm sem ter um terço da carreira do cara.

No elenco de apoio ainda temos as participações destacadas de Oona Chaplin, Natalia Tena (ambas de Game of Thrones), Janet Montgomery e Rasmus Hardiker (de Sua Alteza, que é uma das piores coisas que eu já vi na minha vida). Todos exercem bem seus papéis, que são menores que os de Hamm e Spall, entretanto tem sua importância.

Black Mirror é uma série brilhante que merece ser conhecida por mais gente. Aproveite as férias de fim de ano para assistir sem culpa os sete episódios produzidos, incluindo esse especial de Natal. É difícil estabelecer de qual episódio eu gosto mais, entretanto White Christmas está entre meus favoritos.

OBS 1: O que é aquele loop infinito no final do episódio?