AODISSEIA
Séries

Séries: Ash vs. Evil Dead (2ª Temporada)

Deadites no passado, no presente e no futuro


14 de dezembro de 2016 - 09:00 - Flávio Pizzol

Depois de um filme de terror que virou cult com o tempo, duas continuações completamente surtadas e um remake mais sério, as histórias criadas por um jovem Sam Raimi (Homem-Aranha) voltaram para as telas em uma das melhores e mais surpreendentes séries de 2015. Com uma dose a mais de coragem, zoeira e sangue, Ash vs. Evil Dead volta para sua segunda temporada preparada para olhar para trás com reverência e expandir a sua mitologia em direção a um futuro glorioso.

Dessa vez, encontramos Ash (Bruce Campbell) aproveitando uma festa cheia de bebidas e mulheres sem saber que um mal muito mais poderoso foi libertado por Ruby (Lucy Lawless). E pra piorar, o único jeito de reverter o processo e ainda deter um demônio todo poderoso chamada Baal (Joel Tobeck) é colocar o grupo na estrada rumo a Elk Grove. O pequeno detalhe é que a cidade não acredita na versão de Ash e o considera um assassino perigoso.

Esse é o ponto de partida para uma temporada extremamente conectada a temas como passado, paternidade, luto e reconhecimento tardio. Aproveitando uma grande quantidade de histórias desconhecidas anteriores a história original, os roteiristas usam uma chuva de referências e apostam em saídas mais dramáticas com o retorno do rancoroso pai de Ash, sua irmã, seu antigo amor de adolescência, seu melhor amigo e a própria cabana. Até uma divertida viagem no tempo para os anos 80 completa a brincadeira da forma mais nostálgica permitida pela televisão.

Ao mesmo tempo, a mitologia original ganhou novas e surpreendentes camadas no surgimento de um vilão com espirito de liderança e um modus operandi interessante, na relação que Ash tem com seu pai e os outros moradores da cidade, na transposição do Necronomicon para o corpo de Pablo e na substituição de Ruby em outras linhas temporais (Barry Allen, é você?). Até os easter eggs acabam sendo aproveitados como fonte de informação adicional para luta contra os “deadites”.

E, apesar da seriedade ganhar mais espaço em alguns episódios, a série não abandona seu roteiro debochado, divertido e cheio de piadas internas sobre os próprios filmes de terror. São muitas referências diretas e indiretas a outros filmes, uma quantidade incontável de piadas sujas envolvendo velhice e sexualidade, um trio de protagonistas com dilemas bizarros e uma leva de situações absurdas. Brigas entre fantoches, carros possuídos e órgãos genitais arrancados estão entre as esquisitices que só acontecem em Ash vs. Evil Dead.

Além disso, um dos maiores charmes do programa continuam sendo os efeitos práticos que mantém aquele clima trash e oitentista que fez tanto sucesso no longa original. Os diretores parecem ter total liberdade para brincar com diversos truques de câmera, apostar em maquiagens elaboradas, emular as filmagens pensadas por Sam Raimi e usar quantos galões de sangue falso forem necessários para deixar as cenas totalmente grotescas. A ideia é tirar sarro com os filmes B sem abrir mão de outras qualidades de produção importantes, incluindo um ótimo trabalho de direção de arte nas recriações da cabana e dos anos 80.

O elenco segue esse mesmo padrão: todos abraçam a zoeira que acompanha os personagens, mas também conseguem captar alguns momentos de conflito que exigem maior seriedade. Bruce Campbell (Fargo) encarna com perfeição a mistura entre safadeza e heroísmo deturpado de Ash, Ray Santiago (O Preço do Amanhã) aproveita as alucinações de Pablo para desenvolver o personagem e Dana DeLorenzo (Um Natal Muito Louco) mantém o retrospecto de coadjuvante badass do grupo.

Enquanto isso entre o elenco coadjuvante, Lucy Lawless (Xena: A Princesa Guerreira) marca presença nas explicações mitológicas e adiciona uma certa dubiedade para as ações do grupo, Ted Raimi (Arraste-me para o Inferno) funciona perfeitamente como o melhor amigo de Ash, Joel Tobeck (O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei) passa um senso de urgência muito positivo através do seu Baal e Lee Majors (O Homem de Seis Milhões de Dólares) deixa claro como Ash aprendeu todos os seus trejeitos menos encantadores. A relação entre pai e filho ganha a devida importância e ainda garante que um duelo de montaria em touro mecânico seja um dos melhores momentos da temporada.

Eu entendo que a série é produzida para um público muito específico que tem estômago forte, mente poluída e paixão por filmes gore ou trash, mas isso não impede que ela receba todos os elogios possíveis. A segunda temporada de Ash vs. Evil Dead mantém a insanidade e a diversão nos níveis mais altos, mas também merece alguns pontos por amadurecer nos momentos dramáticos, explorar elementos já conhecidos sob ângulos diferentes e andar para frente com sua mitologia. É simplesmente engraçada e imperdível!


OBS 1: Não poderia terminar o texto sem lembrar que a trilha sonora da série é maravilhosa!

OBS 2: A terceira temporada já está confirmada, então que venha mais sangue e risadas em 2017.